Sobre Bowie, sobre nós

David Robert Jones, sempre sorrindo

“Ele gravou Low em três semanas. Posso escrever um livro sobre ele em um mês”, garantiu Rob Sheffield, crítico da Rolling Stone, à editora que lhe exigia o prazo impossível para faturar com a morte de David Bowie. Wham! Bam! Thank You Ma’am! Uma rapidinha enquanto o defunto não esfria.

E contra as chances, “On Bowie” é um velório animado. Para lembrar com saudade a alegria de viver, a ambição e coragem e o sorriso fácil de David Bowie. Como disse o próprio quando lançou “Heroes”, é sobre “getting on with life and deriving some joy from the very simple pleasure of remaining alive.” Leia em inglês, que é recheado de citaçõezinhas. Mas saiu no Brasil, com o nome errado de “David Bowie – Uma Vida Em Canções”.

Rob não finge ter o arsenal intelectual de um Greil Marcus ou Simon Reynolds, gente que sabe situar o rock em um contexto político ou  tradição artística. Nos poupa do dramalhão que empesteou os obituários de Bowie. É um autoproclamado “new wave kid”, criado pela MTV. Onde oficialmente a pose e a “atitude” dos artistas passou a importar mais que a letra ou a melodia. E onde, em 1984, todo mundo soava como fã de David Bowie, fosse Michael Jackson, Madonna ou Bruce Springsteen.

Sou seis meses mais velho que o autor. Seu primeiro álbum de Bowie foi “Lodger”. O meu, “Scary Monsters”. Estamos falando, vamos assumir, é do vídeo de “Ashes to Ashes”, então o mais caro da história. Bowie pierrô lunar, hipnótico e auto-referente. Roubando de volta quem dele afanou, a molecada new romantic, batom e synths. 

Bowie fechando sua era de ouro com chave de ouro – e ele e eu e quem sabe você chegando agora. Teenage wildlife.

Então a gente cresceu vendo videoclipes. Rob ouvia os DJs das boas rádios rock de Boston, eu ouvia e gravava e decorava os programas do Kid Vinil e José Roberto Mahr. Conheci na Spin, a revista que eu queria fazer quando editava a Bizz e a General. Rob romântico e encantado com sua geração, porque não, e leia lá sua resenha do Unplugged, “o Nirvana cria sua música mais amorosa ao capturar o prazer simples de ser um fã”. É preciso ser um para se reconhecer no outro.

Por isso seu livro faz mais sentido ainda para gente da minha geração do que qualquer outra. Mas como Rob diz logo no começo do livro, seja qual for o Bowie que você mais amava, ou ama, ele fazia você se sentir mais corajoso e mais livre, ou faz.

Esperado que Rob tenha irritantes idiossincrasias de fã e de crítico. Encrenca com Outside, decente projeto conceitual com Brian Eno. Baba ovo para os penúltimos e pedestres álbuns de Bowie, Hours, Heathen e Reality. Explica a “qualidade” desses discos pelo amor maduro que David descobriu com Iman, a paternidade, a estabilidade da vida familiar… 

As estrelas brilham mais forte. Exemplo: decreta que a melhor banda de Bowie foi Carlos Alomar, Dennis Davis e George Murray. Inegável, considerando que gravaram Station to Station, Low, Heroes, Lodger e Scary Monsters. E essa obviedade jamais tinha me ocorrido, nem eu tinha lido em lugar nenhum.

Tem mais. O papel chave de “Five Years” na obra de Bowie. Como ele ajudou a enterrar os anos 60 e ainda dançou na tumba. A música dos Beatles que “inventou Bowie” – “Baby´s In Black”, do Beatles For Sale!

Outra ótima: “DJ” é sobre social media. E sobre um DJ de rádio, não de pista. E os “believers” são… garotas. Dançando sozinhas, de calcinha, nos seus quartos.

O livro valeria só pelo capítulo sobre Major Tom & outras aventuras cósmicas de Bowie. Incluindo sua influência galática sobre outros artistas, Elton John, Depeche Mode, Lou Reed, Duran Duran, Patti Smith, D´Angelo, Future – Peter Schilling. Ou pelo capítulo sobre Los Angeles. Ou…

Tem muito mais. E muito além da música. A sensibilidade de Bowie para o que Rob chama de “erotic loss – a maneira como o coração segue sofrendo através de infinitas metamorfoses.”

A identidade espiritual de glam & punk, via moda (“it was key to wear things that had credibility as trash. Any kid could copy the look, and that was the point”).

O sex-appeal único de Bowie (“no other rock star presented sex so playfully, as so free of macho resentment, so devoid of power tripping, so inclusive, so pervy, so funny”).

Sua permanência, hoje e daqui para frente, para sempre (“at this point, everybody listens to pop the way Bowie always listened, which is: this is cool, how can I steal it?”).

Rob e eu somos de outra era. Como ele resume bem, ouvíamos música para ouvirmos nós mesmos mudando. “On Bowie” permite revisitar esse passado e redescobrir  -reinventar –   sua relevância para hoje, amanhã, este segundo. 

Sigamos românticos, como nos nossos perdidos tempos da Spin e Bizz, como Rob resume tão bem; “Bowie´s mission was bringing these misfits and loners and freaks together… he´s a star, because he makes them feel like stars… for once, they´re not alone. And neither is he.”

E nem nós, nem você e eu.