Sérgio Moro e a Justiça Traída

No dia 13 de março de 2016, três milhões de pessoas saíram às ruas pedindo a cabeça de Dilma Rousseff. Mas os protestos do dia 13 só tiveram um vencedor claro: o juiz Sérgio Moro. Porque representa a Justiça? Não, porque é o herói dos justiceiros. Os que mais aplaudem o juiz são os que menos têm paciência para os trâmites da lei, a demora das instituições, o rame-rame das votações pelo impeachment. Gritaram “Fora Dilma” e “Lula na Cadeia”, porque, sabe, “já está provado” que eles cometeram esse e aquele crime. Bem, não, ainda não…

Os manifestantes bradam por soluções rápidas e definitivas, o exato contrário do que a democracia advoga e Moro promete. Ninguém sério acusa o juiz de lambança. Mas as últimas duas semanas foram de quebra-quebra entre os que ganham e os que perdem com a Lava-Jato. A suposta imparcialidade de muitos policiais, juízes e promotores foi para as cucuias. A postura pseudo republicana de Dilma e Lula também. Agora é briga de torcida. Há de esquentar mais.

Melhor amornarmos os ânimos. O país não ganha nada canonizando ou demonizando Moro. Suas fanzocas acríticas são tão equivocadas quanto lulistas cegos que o tiram de canalha oportunista. Não quer dizer que não tenha um futuro como político. Sérgio seria inumano se não estivesse pensando nisso.

Mas comparações entre Moro e Trump são forçação de barra. Moro é um preparado juiz paranaense com as simpatias habituais dos magistrados. Trump é um bilionário mitômano que se reinventou como populista de direita. Candidato a cargo público, Moro trocaria o papel de estilingue pelo de vidraça. Rifaria a aplaudida independência pela dependência financeira dos patrocinadores habituais de campanhas eleitorais. Para seus fãs, que fizeram esse domingo uma gigantesca manifestação política contra a política (!), ser candidato a qualquer coisa é automaticamente suspeito.

As massas que protestaram são o exato contrário de “massas”. São só muita gente. Não têm nada que as una organicamente, fora o ódio “contra tudo que está aí”. A pesquisa do Datafolha na Paulista detalha: classe média alta, maioria acima dos quarenta anos, brancos em maioria esmagadora, claro. São o exato perfil de quem votou nas últimas eleições em Aécio, não por ele, mas por ser o candidato contra o PT. Este domingo foi o terceiro turno para o antipetismo radical.

Os cenários futuros mais prováveis, com ou sem Dilma, indicam a permanência no poder do saladão fisiológico habitual. É cenário de horror para quem quer corte seco com o passado, para quem saiu às ruas no dia 13. Sejam os muitos inteligentes e bem-intencionados, sejam os mais raivosos e ruidosos, que carregavam cartazes exigindo intervenção militar. Ou, mais suaves, aplaudiam Moro e PF + MP – polícia federal e ministério público.

A classe média em qualquer lugar do mundo sonha, como a nossa, com “Ordem e Progresso”. Com alguns dando as ordens, e a sociedade obedecendo; quem desobedecer, polícia neles. E com todos progredindo, o que significa mais dinheiro no bolso, ano após anos. E quem atrapalhar, cana.

Isso nada tem a ver com as bagunças da liberdade e as sujeiras da democracia. É uma fantasia. Tão fantástica quando forçar o México a construir um muro que separe o país dos EUA.

Faz cada vez mais sucesso pelo mundo afora, o que explica em grande parte Trump, mas também Bernie Sanders. Com a desigualdade crescendo sem parar, os super ricos perderam sua base de apoio tradicional, a classe média. Que rejeita o establishment, sem ter nada de seu para pôr no lugar.

Quando a própria atividade política é automaticamente razão para suspeita, o único político aceitável é o que suspeita dos políticos. Como Trump e Sanders. Ou como na Espanha o Podemos e o Ciudadanos. É claro que quando eles chegam lá, mostram que não eram tão apolíticos assim… como, aliás, fez Lula.

Alimentar essas fantasias assépticas da classe média requer “um novo tipo de político”, que é contra os políticos (acredite quem quiser). É oportunidade perfeita para o campo ultraconservador brasileiro, umbilicalmente ligado a Wall Street. Quem saiu às ruas ontem ou bateu palmas pela TV é potencial eleitor do próximo ungido da nossa elite. Há quem tema Bolsonaro. É um bufão. Caiado teria mais o perfil, mas já coroa, com longo currículo. Passou do ponto. Melhor quem nunca tenha ocupado cargo público. Alguns tentaram colar Joaquim Barbosa, da última vez.

Logo começarão a aparecer potenciais candidatos aos principais cargos da nação e, claro, à presidência. Se fosse hoje, Moro teria muitos votos. Sabe-se lá quando teremos nova eleição e o que Moro será até lá. Mas orna, né? Moro para presidente, tanto faz o partido. Você votava nele?

Como nos EUA, onde bilionários mudaram completamente o cenário político, a ponto da vaga republicana estar sendo disputada entre Trump e o ultradireitista Ted Cruz, candidatos no Brasil com esse perfil antipolítica podem não ganhar. Mas no mínimo puxam o debate político para a brasa de seus patronos. Tem financiador no Brasil para candidatos desse perfil? Ô se tem. Mesmo depois da Lava-Jato.

Não duvide que entre os candidatos a presidente do Brasil teremos um “puro”. Que não seja Moro, vai rescender a Moro. Pai de família, jovem e bem-sucedido, incorruptível, batalhador, um inimigo dos políticos, um… caçador de marajás? Quem tem mais de quarenta já viu esse filme. Mas os mais jovens não viram. E os mais jovens são a grande maioria dos eleitores.

Collor quase deu certo. Faltou na hora H a adesão dos tucanos, defendida por Fernando Henrique e barrada por Mário Covas. Quase que escapa do impeachment. Mas Collor funcionou para barrar a eleição de Lula em 1989 e “modernizou”, “abriu” o país. Nos dias de hoje há quem diga que perto do PT, Collor era a honestidade em pessoa.

Moro não é Collor, e 2016 não é 1992. Só lembro que Collor também foi pintado como salvador da pátria, e seus fãs tinham o exato perfil dos manifestantes deste domingo. Nunca é demais repetir que a história se repete – como farsa.

(Escrevi esse texto no dia 14 de março de 2016, publicado no meu antigo blog. O título era “Moro não é nosso Trump, É o nosso Collor.” Mais impressionante o tanto que acertei, só o tanto que errei. Anos depois, Lula está preso sem uma única prova.

E Moro, que o prendeu, por acaso virou o supertira do governo Bolsonaro, e de lá irá para o STF, ou quem sabe para ser o próximo presidente da República. Que coincidência. Infelizmente coincidências não existem, muito menos quando se trata da disputa pelo poder.

É muito bom que Moro tenha assumido o ministério. É importante passar esse recibo. Deixar muito claro a profundidade da conspiração que tirou Dilma do cargo, tirou Lula da eleição, e colocou essa gente no poder. Está aí, para quem quiser ver: o herói da classe média, o símbolo da justiça, traindo qualquer ilusão de imparcialidade.

No exterior, vai se solidificando a imagem do Brasil como uma democracia caída, já um estado de exceção. Três dias depois da eleição, o jornal britânico Guardian chama Bolsonaro de “presidente pária”. 

Aqui, quem sabe com o tempo. Quanto mais rápido, melhor. Vale lembrar que Bolsonaro se elegeu com 34% dos votos; tivemos 31,5% de nulos, brancos, abstenções. Dois terços dos brasileiros não votou nele. Razão para alguma esperança, artigo raro nesses dias.)