Sem crítica, não há avanço

Uma vez escrevi sobre “Jambocks”, álbum em quadrinhos sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Minha crítica principal foi ao roteiro. Foi um gancho para uma pensatinha sobre por que o país era tão carente de bons escritores de quadrinhos, quando temos tantos ótimos ilustradores. 

Dias depois, o escritor de Jambocks, Celso Menezes, comentou meu artigo em uma resposta longa e elegante. Algumas passagens:

“Rapaz, concordo com tudo o que disse (inclusive cm as críticas ao roteiro). A história ia ser numa parte só, mas depois que entrevistei veteranos, percebi que teria que fazer justiça contando mais coisas. E é por isso que o prelúdio é meio morno. Morno, mas necessário. E o tempo não permitiu fazer mais.”

“A intenção é mais iniciar um pessoal nos quadrinhos e ser fiel e divulgar a História do que criar uma narrativa diferente. Eu adoraria unir os dois, mas foi o melhor que pude fazer.”

“É uma história que conheci que preciso contar”.

Continuo ficando maravilhado quando encontro uma pessoa capaz de receber uma crítica, aceitar uma parte dela, rebater outra, explicar os por quês de determinadas decisões. No Brasil a crítica é quase confundida com ofensa pessoal. A última coisa que eu quero, quando critico uma obra, é ofender quem obrou. Mas se o autor ficar ofendido, bem, tô nem aí.

Faltou dizer, no texto que escrevi na época sobre os roteiristas, que são raríssimos e muito comedidos os críticos de quadrinhos brasileiros. Tá cheio de gente descendo o pau ou louvando às alturas a mais recente saga da Marvel ou DC, ou a preciosidade obscura do Japão ou da França.

Desconheço críticos que se proponham a destrinchar com rigor – ou, se necessário, vivisseccionar – a obra de um autor nacional que ele pode encontrar na rua, num debate ou em um próximo HQ Mix.

Não faltam jornalistas que cubram a área, no sentido de resenhar os lançamentos, noticiar acontecimentos relevantes, fazer entrevistas esclarecedoras, ou mesmo analisar o mercado. Tenho a alegria de dizer que existem muitos bons profissionais que se dedicam a isso, alguns colegas das antigas – fala Sidão! E sites muito bons que cobrem muito bem HQ não-comercialzona, como o Vitralizado – fala Ramón!

Crítica é outra coisa. Primeiro, cabe avaliar se a ambição da obra, e não estou falando só de HQ, tem mérito – estético, político, social, de fazer você rir, ou dançar, ou o que for. Segundo, se a realização da obra atingiu em alguma parte sua ambição, e em que parte, e o que ficou faltando. Para fazer isso, frequentemente é necessário contextualizar a obra em um contexto de produção e no histórico da forma e do autor.

Sem amizade, sem dó, sem “apoiar a produção nacional”, sem nada. Crítico não pode se preocupar em fazer amigos.

Aliás: crítico não cobre sua área, porque frequentemente as fontes não querem falar com ele. Se você conhece alguém que faça críticas agudas de autores nacionais, agradeço pela indicação.

Eu não sou crítico. Muito menos de quadrinhos. Também nunca fiz questão de frequentar “o meio”, qualquer meio. Passei umas engraçadas no passado. Escrevendo sobre música, cinema, tecnologia, política… e gibi.

Quando era repórter da Folha e tinha a coluna de Quadrinhos, fim dos anos 80, uma vez desci a lenha em alguma edição porca da Abril Jovem. Entrei na lista negra. Editores não falavam mais comigo, deixei de receber os lançamentos enviados pela assessoria da Abril etc. Continuei comprando os gibis da Abril que eu achava que mereciam artigos, com o meu dinheiro, que evidentemente a Folha não me reembolsava, e ponto final.

Tem funcionário da Abril daquela época que até hoje me olha de lado. Aliás, ex-funcionário, que a Abril mandou embora quase todo mundo, e não pagou uma boa parte. Isso que você ganhou com sua fidelidade canina, otário…

Mas o fato é: a edição era de fato porca.

Se você não se interessa por quadrinhos, todo este papo pode parecer surreal. Mas sim, existe crítica séria de quadrinhos. E de videogames! Imagine só!

O ponto importante é: sem ser submetida a um pensamento crítico, não há forma de comunicação ou de arte que avance. Quando toda produção merece confete, joio e trigo têm o mesmo valor.

Os quadrinhos nacionais melhoraram demais na última década, graças a editais, pequenas editoras, crowdfunding, e-commerce e eventos. Hoje têm muito mais a personalidade dos seus criadores. Tem muita, mas muita coisa boa.

Ainda assim, são menos interessantes do que poderiam ser, em parte porque não há quem se preste a criticá-los com a brutalidade que às vezes é necessária.

Me abstive de escrever sobre quadrinhos quando eu mesmo era dono de editoras que publicavam quadrinhos – a Conrad, da qual fui sócio até 2005, e a Pixel, de 2006 a 2008. Na Tambor publicamos poucas coisas. Seria deselegante comentar o trabalho de colegas e concorrentes. 

Jamais publicarei quadrinhos novamente, mas continuo leitor, e o tema me interessa. Mas não acompanho tudo que acontece, “o mercado”, nem me proporei.

Também não acompanho com capricho as novidades da música, cinema, literatura, artes plásticas etc. Então raramente estou ligado na pauta do momento. E tenho preguiça de escrever texto comprido sobre obscuridades. Até explicar quem é Russ Heath, George Grosz ou Wu-Ming, já bateu aquele soninho. 

De vez em quando leitores que me acompanham da época da Bizz perguntam, “o que andas ouvindo de bom recentemente?” A resposta desta semana é Bach, de quem desconheço uns nove décimos da obra, e sobre quem sou incapaz de escrever um parágrafo original.

Vou sempre pelo gosto do momento, flanando, autodidata, desorganizado. Tenho lacunas monstruosas na minha “formação”, que não merece ser chamada assim. Meu gosto, assim como minha base intelectual, é uma bagunça, um mosaico, um quebra-cabeças.

E me sinto muito confortável nessa confusão. Desde que tive meu cérebro derretido, no colegial, por “Contracomunicação”, do poeta concreto, teórico, professor Décio Pignatari, cuja caricatura por Liberati ilustra este texto.

É de 1971, li em 1981, com uns 16 anos. Era uma salada caótica, artigos sobre Oswald, Pirandello, Rivelino, Volpi, McLuhan, poesia e semiótica, fotonovela e Chacrinha. Não entendi grande coisa mas já concluí, ah, pode misturar tudo desse jeito, é? Que bom. 

Donde que liberei geral. Donde que nunca aceitei ser chamado de “Crítico”. Sou jornalista desde 1988 e empreendedor desde 1993, quando pedi o boné na Bizz pra começar minha primeira empresinha, que em um ano lançou duas revistas que me dão orgulho, a General e a Herói. Gosto de escrever e empreender. Em ambos os casos sem muito compromisso com o sucesso, que sempre me surpreende quando dá o ar de sua graça.

Crítico profissional era Kenneth Tynan, hoje totalmente fora de moda, porque esquerda festiva e gozava batendo em mulher. Foi quem melhor resumiu a vocação:  “Nove décimos do trabalho do crítico é demolir o ruim para abrir caminho para o bom”.

Minha vida profissional atual está bem longe do jornalismo cultural. Passo a maior parte do tempo compartilhando o que aprendi nesses 25 anos de CNPJ – imagine, tem gente que me paga por curso, consultoria, mentoria! Com toda a força que sempre fiz pra deixar bem claros os meus pés de barro… vai ver, é por isso mesmo.

Mas mensagens provocadoras, principalmente da gente gentil que assina minha newsletter, cobrando mais artigos sobre cultura, me lembraram da resposta do Celso. É um estímulo gostoso para eu publicar aqui no blog, de vez em quando, textos novos e velhos sobre quadrinhos, nacionais ou gringos. Sobre canções e quadros, filmes e livros – e ser, se não um profissional da crítica, um leitor crítico.