Obrigado, Lee, Kirby e Thor, por explodirem minha mente

Blow your mind. A expressão em inglês é intraduzível.

“Explodir sua mente” parece aquele filme Scanners, veias engrossando, olhos saltando pra fora, bum, osso e sangue e matéria esponjosa pra todo lado. Arrisco um “zoou minha cabeça”, mas é pouco.

Poucas coisas zoaram minha cabeça na infância como uma série de gibis do Thor.

Thor, manja? Deus do Trovão, tem o martelo, capacete com asinha e cabelão loiro etc. Nunca foi e não é dos meus personagens do coração. Meio pomposo pro brega, heroico demais.

Mas em 1975/6, quando a Bloch começou a publicar os formatinhos da Marvel no Brasil, li com dez anos de atraso uma sequência de histórias de Thor que não só reforçaram meu interesse por mitologia e ficção científica, mas juntaram as duas coisas em um caminho sem volta.

São argumentos de Stan Lee e Jack Kirby, diálogos de Lee, desenhos de Kirby, arte-final de profissionais variados.

A Marvel era uma fábrica. Stan Lee bolava histórias para oito gibis mensais e editava a tralha toda.

Kirby desenhava uns quatro gibis por mês, fazia mais um monte de capas. HQ não era respeitável, não ganhava prêmio, e só dava dinheiro para o dono da editora.

Thor, que antes enfrentava super vilões genéricos, começou a encontrar deuses de outras mitologias – Hércules, Hades.

Viajou para o espaço sideral, conheceu alienígenas diversos, enfrentou um planeta vivo, um cientista tipo Dr. Moreau, que fazia animais super evoluídos geneticamente, um ditador que viajava no tempo, um monstro que devora planetas.

Asgard ganhou perfumes de civilização super futurista, sem perder o espírito rude e viking. Pirei na batatinha.

Foi um prelúdio da “Cosmic Marvel”, quando jovens escritores e desenhistas inspirados por drogas psicodélicas assumiram os controles de gibis como Capitão Marvel e Warlock e Dr. Estranho e levaram a contracultura aos super-heróis… mas isso é outra história.

Li muitas outras histórias sobre Thor depois, algumas muito boas, a maioria de medianas pra baixo – é sempre assim, não?

Mas foram estas que estão impressas no meu subconsciente. E, acho, de muito mais gente.

Esse último filme de Thor não foi uma aventura de super-herói. Foi uma saga mitológico-espacial kinética, psicodélica, eletrizante.

Muito divertido, com algumas imagens diretamente tiradas dos gibis antigos, o filme não fez, não tinha como fazer jus às minhas memórias das sagas de Thor no espaço.

Mas ver ontem um pedacinho de Thor: Ragnarok renovou minha gratidão a Stan Lee, Jack Kirby e companhia (e aliás um do time original da Marvel, Joe Sinnott, melhor arte-finalista de Jack, segue vivo e aqui no Facebook!).

Obrigado por zoarem a cabeça daquele molequinho… e continuarem explodindo minha mente.