O mundo cruel e necessário de V.S. Naipaul

V.S. Naipaul foi um ser humano de merda. E um grande artista. Hoje, maior que quando escreveu ou quando ganhou o Nobel em 2001. Sua obra é mais importante agora, porque mais provocante. Contesta o pensamento dominante de 2018 sobre pobreza, opressão, racismo, preconceito. Sem piedade. E com muito conhecimento de causa.

De família de imigrantes da Índia transplantados para Trinidad Tobago, Vidia Naipaul foi longe. O avô foi pra lá como colono, plantar cana. Seu pai conseguiu algum dinheiro através do casamento. Naipaul chegou longe, Oxford, onde enfrentou o racismo casual da época. Sua ascenção social bateu no teto. 

Foi salvo por Patricia Hale, que conheceu em 1952. Através dela foi aceito nos círculos certos, ganhou confiança, “se achou” como autor. Era mais que sua esposa. Foi sua financiadora, parceira. Planejou sua carreira. Abriu-lhe muitas portas.

Naipaul retribuiu botando-lhe cornos a vida inteira, espezinhando e diminuindo Pat em toda oportunidade, e a tratando com requintes de crueldade.  O final: Patricia com câncer, Naipaul deu entrevista se jactando de sua longa experiência com prostitutas. A esposa morreu pouco depois. “Pode se dizer que matei Pat, acho”, disse mais tarde.

O ex-amigo Paul Theroux dedicou um livro todo à sua torpeza, “Sir Vidia´s Shadow”. E Christopher Hichens fez sua caveira no ensaio “V.S. Naipaul, Cruel and Unusual” (está na coletânea “And Yet…”).

Naipaul não é o primeiro artista célebre a ser um safado. E maltratar mulher, no século 21, talvez seja o pecado social número um. É pouco reduzir Naipaul a isso. Todos carregamos o impulso de destruir quem nos ama e protege. Alguns tentam. Freud explica.

Naturalmente, o criador é o criador e a obra é a obra. Se vais renegar a leitura de Naipaul porque ele foi cruel, evite também visitar a Capela Sistina, financiada via Inquisição.

Foi herdeiro de Joseph Conrad, e o grande nome, talvez o primeiro, da literatura pós-colonial. Isso antes da invenção dos “post colonial studies”, que desaguaram frequentemente em propaganda do subdesenvolvimento.

Ao abrir “A Bend In The River”, ou qualquer outro livro de Naipaul, deixe a esperança na porta. Ele jamais celebrou a “alegria”, “criatividade” do terceiro-mundista. Registrou sem dó sua miséria física, intelectual, espiritual. Não atribuía poderes mágicos à miscigenação, nem pensava que a pobreza conferia valor especial ao pobre.

Condenava o capitalismo e o comunismo, sem militância. O colonialismo, sem negar seus vetores modernizantes em sociedades congeladas em valores medievais. O Império Britânico, ao mesmo tempo que lutava para ser incluído em seus círculos mais exclusivos.

Crescentemente, com o passar dos anos, via as lutas políticas “de libertação” como molecagens impotentes. Era crítico da vida na África, Índia, e sob o Islã. Hoje seria considerado “islamofóbico”, talvez racista, e mais palavras feias. Hoje nem existe mais Terceiro Mundo, somos todos emergentes, como as favelas do Rio, que sumiram, e hoje temos no lugar comunidades…

Naipaul provavelmente não ganharia em 2018 o Nobel de literatura. Mas sua obra hoje é mais relevante que naquele momento. Porque mais necessária nesses tempos de propaganda multiculturalista boba. Estamos inundados por arte ongueira embalada por “bons sentimentos”. Para enfeitar seminários patrocinados, anúncios de banco e campanhas otimistas com hashtags.

Naipaul, obra e autor, são outro mundo, outro Terceiro Mundo. Duro de encarar, enfrentar, transformar. Talvez impossível.