O bumbum submisso de Madonna

Sexo vende. Sexo anal vende mais. Pussy is bullshit, diz o pornógrafo John Stagliano. O criador da série Buttman explica: nossa preferência nacional é a preferência mundial. E, filmado, sexo anal não permite fingimento. Freud não sabia o que queriam as mulheres, mas os machos do século 21 sabem o que querem, diz Buttman: uma mulher que faça o que eles mandam e empine o rabicó.

Fantasia de quem abaixa a cabeça. As mulheres são cada vez mais donas de seu nariz e todas as outras partes de seus corpos. Tanta mudança confunde a cabeça dos homens. Não foi assim que crescemos.

O que resta? Ser o maridinho confiável e colaborativo que devo. E fantasiar com uma mulher que faça o que eu quero. A contrapartida lógica é que as mulheres fantasiam com um homem que mande nelas. Bonito, rico e high-tech como Christian Grey.

Cultura pop é radar. Madonna com bunda de fora no Grammy é a milésima prova da potência de sua antena. Submissão é o novo preto. Seu primeiro sucesso, Like a Virgin, foi interpretado por Quentin Tarantino em Cães de Aluguel como uma ode ao sexo anal. O segundo, Material Girl, é sobre fazer qualquer coisa por dinheiro. Entre os dois hits se resume sua carreira.

O grande feito de Madonna foi decretar obsoletas as conquistas do feminismo. Sou a única dona do meu nariz, disse. Faço exatamente o que eu quero. E o que quero é fazer exatamente o que o dinheiro mandar. Isso é que é independência, entendeu? E quem me questionar é um macho branco opressor.

Comunicação não é o que você fala, é o que o outro ouve. Na terminologia do sadomasoquista, o dominador é top. O dominado é bottom. Top é quem fica por cima, bottom por baixo. Em inglês, Bottom também é sinônimo de bunda.

O discurso de Madonna é de top. A prática artística é de bottom. Tudo pela top grana, que ela fatura fazendo o que exige a indústria da música e mídia, completamente controlada por homens. Sob o discurso de empoderamento, nunca passou do que sempre disse ser – boy toy.

Estrelas pop não foram sempre assim. E foram completamente diferentes disso, imediatamente antes do estouro de Madonna. Não militavam no underground. Eram superstars que lotavam estádios e ganhavam discos de platina. Eram claramente livres, muito femininas, e todo homem as reconheceria como iguais.

Mulheres como Chrissie Hynde, dos Pretenders, e Debbie Harry, do Blondie. Siouxie Sioux e Pat Benatar. Joan Jett e as Go-Go’s. E Annie Lennox, que brilhou no Grammy, uma coroa escocesa cantando o tema de 50 Tons de Cinza. Annie tem 60 anos. Madonna, 56.

Todas as grandes estrelas de 2015 imitam Madonna e pagam de biscatinha, tudo por uns dólares amassados na calcinha. Beyoncé era bebê quando os clipes de Lucky Star e Borderline inauguraram o estilo stripper que se tornou dominante. Uma é mais isso, outra mais aquilo, todas iguais na penumbra. Está na cara do freguês, e fica explícito nessas entregas de prêmios. Britney Spears, Lady Gaga, Rihanna, Ke$ha – é tudo o mesmo clima de zona. Nos últimos meses, Jennifer Lopez e Iggy Azalea gravaram uma música chamada “Bunda”, Booty, e Nicki Minaj ficou só de fio dental para cantar a Anaconda de seu amante. 

Até Shakira, roqueira colombiana, “teve” que tirar a roupa, malhar, aloirar e aderir ao geme-geme pra estourar.

E todas com o mesmo exatíssimo discurso de empoderamento feminino de Madonna: autocongratulatório, interesseiro, mentiroso. A influência vai além do show biz, claro. Trabalhei anos atrás com uma moça fanática por Madonna. Uma vez me confessou: “Quando tenho dúvida de decidir alguma coisa, me pergunto, o que Madonna faria?”. Rimos. Tempos depois testemunhei ela fazendo coisas impensáveis por dinheiro. A vida copia o pop.

Criticar Madonna trinta anos atrás era passar recibo de careta. Hoje é pior, porque ageism, preconceito contra os velhos. Bem, só sete anos e alguns bilhões de dólares nos separam, e tenho o apoio de uma feminista inatacável. Na cusparada clássica de Simone de Beauvoir, Brigitte Bardot parecia “uma puta de 12 anos”. 

Perfeita definição, que Madonna assumiu como marca e marketing, travestida de liberação feminina. Fez escola, que se tornou a única para as estrelas das gerações posteriores. E muitas mulheres comuns, e muitos gays também, que a seguem acriticamente, ou Lady Gaga ou Rihanna, e ai do hetero que criticar as divas.

Madonna, all business, sabe que não pode competir fisicamente com as afilhadinhas. Então trocou a imagem de ninfeta à venda pela de tiazona dona do bordel. Há de render mais uns dez anos. Marafona aposentada, mas bumbum magrelo à mostra sob diáfano véu, ainda à disposição para clientes seletíssimos. Old toy for old boys.

(Texto de 2015 para o Estadão; minha “homenagem” aos 60 anos de Madonna…)