O Brasil sangra – e a carnificina vai aumentar em 2019

Do Egito Antigo ao começo da Revolução Industrial, um dos tratamentos mais populares para doenças diversas era tirar o sangue do paciente. Era recomendado para câncer, pneumonia, escorbuto, diabete. Epilepsia, acne, convulsões, hemorróidas. Antes de fazer cirurgia. Antes do parto. Até para tratar hemorragias.

O cirurgião podia enfiar um caninho na veia do paciente, e tirar devagarinho o sangue. Outros espalhavam sanguessugas em cima das pessoas. Livros sagrados indicavam os melhores dias para a Sangria. Experts explicavam com argumentos furados as bases pseudocientíficas do tratamento.

O resultado era que uma parte enorme dos pacientes definhava e morria. E não era só tratamento de pobre não. Era o remédio dos poderosos também. Para ficar em um caso famoso, o presidente americano, George Washington, morreu após tirarem quase quatro litros de seu sangue. Sua doença?  Uma infecção de garganta.

Mas então porque os médicos continuavam a usar as sangrias? E porque os pacientes continuavam a aceitá-las?

A resposta é “porque não viam outra alternativa melhor”. A Sangria era a única alternativa viável, porque era a única. A única aprovada pelos especialistas, a única medida responsável a tomar – mesmo que levasse à morte.

O noticiário econômico de 2018 e 2019 nos remete ao passado desses poderosos de peruca, com seus médicos-curandeiros, suas crendices e suas sanguessugas. A viagem no tempo é completa e inclui a garantia dos experts – economistas, colunistas, influenciadores – de que a sangria é para nosso bem.

Mas o Século 21 conta com instrumental diferente. Contamos com o método científico. Temos estudos, pesquisas, números, dados para analisar. E temos jornalismo, sempre imperfeito, sempre indispensável, para iluminar criticamente a realidade.

O dado concreto é que a carnificina nunca foi maior que hoje, e só será menor que amanhã. Em 2017, o Brasil ficou mais miserável. A economia cresceu pífio 1%, depois de dois anos de retração. Mas nesse mesmo 2017, a metade mais pobre da população perdeu 3,5% dos seus rendimentos. Há quem chame isso de “retomada”. É desonestidade intelectual.

Por quê o Brasil empobreceu tanto nos últimos anos? Foi a “corrupção”?

Na verdade, muitos analistas entendem que o combate à corrupção foi mais danoso à economia que a própria corrupção. É inegável que a Lava-Jato exterminou empregos e destruiu empresas. Se o balanço institucional desta operação será ou não positivo, o tempo dirá. Hoje, em termos econômicos, está no vermelho.

Tem outra coleção de fatores que contribuíram para nosso estado lastimável. Rende vários livros. Mas o fator central da catástrofe social dos últimos anos é a política de “austeridade”. A combinação de tarifaço, aperto monetário e corte de investimentos públicos, imposto por Dilma e aprofundado por Temer.

O número é fresquinho, do noticiário de hoje. O investimento público do Brasil em 2017 recuou ao menor nível em 70 anos.

A média anual de investimento público no Brasil entre 2000 e 2017 teve média anual de 1,92% do PIB. Muito, muito baixa.

Entre 42 países, o Brasil tem a segunda média anual mais baixa; só perde da Costa Rica. A média desses 42 países é de 3,51% do PIB. Para ficar em dois exemplos, na Rússia foi de 3,9% do PIB, e aqui na Colômbia, de 2,96% do PIB.

Em 2017, as três esferas do governo brasileiro, federal, estatal e municipal, juntas, investiram só 1,16% do PIB. É o menor nível desde 1947, quando esses dados começaram a ser compilados no Brasil. 

O levantamento é do Ibre/FGV, sobre dados compilados pela OCDE, instituições que que ninguém há de acusar de esquerdopatas (se bem que sempre tem algum doido). O artigo completo, do Sergio Lamucci, está no Valor Econômico.

O Brasil, que sempre sofreu sérios problemas de nutrição, saneamento e cognição, e enfrentava enfermidades variadas, recebeu nas últimas décadas dois grandes band-aids. Chamemos de “Plano Real” e “Anos Lula”.

Foram duas grandes redistribuições de renda, que não vieram acompanhadas de um rearranjo das forças produtivas do país. Nem de reforma tributária, política, administrativa. Nem de  uma repriorização dos investimentos públicos. Nos últimos anos, com mais uma inevitável “crise” cíclica do capitalismo, que na verdade é sempre a mesma, nos arrancaram o band-aid, e o tratamento recomendado voltou a ser a arrancar o sangue do brasileiro.

Na mesma edição do Valor, o editor-executivo Pedro Cafardo observa: “por mais curioso que possa parecer, o time de Paulo Guedes está a caminho de repetir equívocos cometidos por Dilma Rousseff.”

Cafardo, do time do Valor desde o início, e ponderado observador da economia, lista o receituário do próximo governo. “Arma-se, com o beneplácito quase geral da intelectualidade, um governo Bolsonaro ultraliberal. Isso significa que haverá, em resumo, rigorosa austeridade, corte implacável de gastos, forte contenção de salários e demissão de servidores públicos, além de provável aumento de impostos e crédito oficial absolutamente contido.”

Pedro lembra o fracasso de políticas de austeridade em todo o mundo. Nos EUA após a Grande Depressão dos anos 30, na Europa após a crise de 2008. E o sucesso de países que fizeram o caminho contrário, enfrentando a recessão com investimento público, como o Canadá. Questiona a “confiança” que um choque do gênero supostamente criaria, e que rapidamente se esvairia, sem “investimento público, financiamento oficial e privado e juros civilizados.”

A única diferença entre os sangradores de antigamente e os atuais é que hoje eles tiram sangue da maioria, e transferem para uma minoria. A elite financeira vai bem, o povo trabalhador vai mal, e uma coisa é por causa da outra. Drácula vive…

O conluio que colocou Temer no poder fez crescer o número de pobres em 11% em 2017. A mortalidade infantil cresceu. A diferença de renda entre brancos e negros cresceu, entre ricos e pobres cresceu, entre homens e mulheres cresceu.

Enquanto isso, a renda média da metade mais pobre da população caiu para impensáveis R$ 787,69 mensais. Menos que um salário mínimo. Esse valor já inclui rendimentos sociais como aposentadorias e Bolsa-Família. Nessa crise toda, o volume de investimentos sociais do governo retrocedeu aos níveis de 2001.

E os mais ricos? Ficaram mais ricos. Em 2017 também. E os super ricos? Gostaram tanto do banho de sangue, que que querem mais. 

Bolsonaro e Guedes prometem cura milagrosa. Como? Arrancando mais ainda do nosso sangue. E junto, carne e couro. É o que eles diziam na campanha, e repetem hoje com todas as palavras, todos os dias. Não ouve, não vê quem não quer, por fé cega, ou por interesse egoísta.

Esse receituário de austeridade deu errado com Dilma e Temer. Deu errado em todos os países do mundo, e dará tragicamente errado no nosso país em 2019.

Seguimos na mão de açougueiros. Definhamos, emaciados, moribundos. Os poucos que podem, fogem, para outro país, ou se alienando da barbárie reinante. A maioria sofrida se agarra à esperança de dias melhores, que não virão.

Contra as evidências, contra a razão, contra nossa sobrevivência, o brasileiro aceita ser sangrado, e cada vez mais.

A carnificina continuará.

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