Nunca houve um amigo como Miranda

O Miranda era uma força da natureza. Um tufão. E era uma brisa, uma delícia de conviver. Era malaco e suave; contava altas lorotas e falava a verdade na lata. Era estratégico para armar suas paradas e louco varrido nas suas obsessões. Ganhou rios de dinheiro e gastou tudo em prazer – se empanturrando de DVDs e games e bonecos e comida boa, bebida boa, bons papos, só alegria.

Trabalhamos juntos nas revistas Bizz e Set, de música e cinema, as grandes paixões do Miranda. Depois eu ajudei ele a inventar um selo, e ele me ajudou a inventar uma revista, e fomos nos ajudando a viver vida afora.

Ele virou “o” Miranda, que todos os artistas iniciantes queriam conhecer, e depois jurado de TV. Não dava mais para andar na rua com o cara. Os meninos fazendo malabarismos nos cruzamentos vinham pedir autógrafo. Seguia tratando igual o famoso e o mendigo, o milionário e o roqueirinho do interior que vinha humilde lhe entregar uma demo.  

Eu sou de poucos amigos. Miranda tinha muitos e vivia por aí, pela cidade, pelo país. Até porque tratava todo  mundo como amigo, e tratava todo mundo de “velhinho”, como seu ídolo, o Pernalonga.

Nos afastamos sem nunca nos afastar. Nos gostávamos muito e nos víamos uma, duas vezes por ano. Nosso contato era por telefone, pela internet, toda semana.

Falávamos do que amigos falam; falávamos merda. Nossas conversas sempre escorregavam para filmes, discos, quadrinhos – Miranda enciclopédico e onívoro, sempre com dicas sensacionais, sempre sem a menor afetação.

Quase na virada do ano, Miranda me ligou e papeamos um tempão; ele estava preocupado com um amigo em comum. Não me contou que estava doente. Soube dias depois que Miranda estava de cama direto, só saía para ir ao médico e fazer exames.

Liguei xingando, como não me conta nada? Ele me explicou que sabia que o meu pai estava mal de saúde e não queria encher mais minha cabeça.

Adiei, adiei nosso encontro. Quando meu pai baixou hospital de novo, em janeiro, fui numa padaria ao lado tomar um café e achei um boneco que era a cara do Miranda. Um Homem-Borracha pirata, tosco, dez reais. Comprei e me prometi e ir levar para o amigo, que meu pai chamava de “Mujique”, porque parecia um bárbaro russo 25 anos atrás, quando era cabeludo.

Em fevereiro, meu pai morreu. De lá para cá a vida ficou estranha e cinza e cheia de afazeres incompreensíveis. Quinta passada o Miranda me liga do nada. Estava muito feliz. Seguia quase o tempo todo de cama, mas o médico tinha dito que ele ia escapar de um transplante de fígado.

Conversamos uma hora e meia. Contou uma história cabulosa sobre uma moça que uma vez pediu para ele fazer xixi nela, um típico causo do Miranda, de passar mal de tanto rir.

Falamos de de grana que vem e vai, de amigos e desafetos. Como sempre ele me deu dicas sensacionais de gibis bizarros e filmes imperdíveis. Falamos bastante de mães e pais, e bastante de filhos.

O Miranda tinha um jeito mágico com crianças, que tratava como adultos. Ou talvez tratasse todo mundo como criança, criança espontânea e espertinha como ele. Deixa uma filhinha, Agnes, que tragicamente nunca vai conhecer o pai mais divertido do mundo.

No final do nosso papo disse para ele, “amanhã tá de bobeira? Passo aí na sua casa”. Não fui. Preguiça. Mais um arrependimento para minha longa lista.

Dia 21, anteontem, foi aniversário do Miranda. Mandei mensagem, está aqui no meu celular, junto com a foto do perfil dele, feliz, na piscina, fumando charuto: “Feliz aniversário, brother. Presente: cama só para dormir e namorar. Abração!”. A resposta, a última: “Aeeee! Valeu!”.

Hoje, dia 23 de março, meu pai faria 81 anos. Como meu pai, Miranda viveu como quis, nos seus próprios termos. Nunca ouvi nenhum dos dois reclamar de não ter feito alguma coisa. Fizeram o que quiseram. Amavam a vida, e esse amor contagiava quem estivesse por perto. O Miranda era o amigo que todo moleque gostaria de ter. Sem ele no mundo, me sinto ainda mais órfão.

O boneco do Homem-Borracha vai para um lugar de honra na minha casa, do lado da foto do velho. Para me lembrar todo dia que não dá para adiar mais nada, Que a vida é esse minuto. É para ser vivida agora, com emoção e humor, paixão e leveza, tesão e ternura. Valeu por mais essa dica, velhinho.

(Esse texto foi escrito de bate-pronto para a Folha, na noite que o Miranda morreu, no apartamento do meu pai, em Piracicaba. Dia seguinte, obrigações me mantiveram lá; não pude ir ao velório, não vi o amigo morto; sigo com a impressão que Miranda está vivo por aí, armando mil paradas. Pouco tempo depois se foi outro amigo querido, igualmente inteligente, engraçado e generoso, Beto Melo. 2018 foi um ano triste, um ano para aprender sobre a morte e reaprender sobre a vida. Sigo tentando, todo dia.)