De 22 de julho a 28 de outubro: como vencer o inimigo, na Noruega e no Brasil

No dia 22 de julho de 2011, Anders Breivik assassinou 77 pessoas. Choque: 69 eram jovens que participavam de um encontro político, em uma pequena ilha chamada Utoya. Foram abatidos à bala, um a um. Oito pessoas morreram em um atentado a bomba em Oslo, na sede do governo da Noruega. Mais de duzentas pessoas ficaram feridas.

O atentado chocou o mundo e traumatizou os noruegueses. Não foi obra de um fundamentalista islâmico, um estrangeiro esquisito, de motivações incompreensíveis. Foi um norueguês, cristão, de classe média, que matou 77 pessoas inocentes. Um cidadão como qualquer outro. Mas extremista da ultra-direita.

Por quê matou? Porque seus alvos eram “marxistas “. Eram “elite”. Os jovens faziam parte da Liga da Juventude, movimento estudantil ligado ao Partido Trabalhista, que governava a Noruega, e tinha uma política de acolhimento de imigrantes. Aceitavam outras culturas. Defendiam o “feminismo”, que para Breivik era uma conspiração para destruir os valores da sociedade.

“Devo ser tratado como herói por este ataque aos traidores”, disse depois. “Estão cometendo, ou planejando cometer, a destruição do nosso país, nosso povo, nossa cultura.”

Soa familiar?

Cercado pela polícia, Anders se entregou. Queria a oportunidade de dar seu depoimento no tribunal. Atacar a política do governo da Noruega e defender seus ideais de pureza racial, expostos em um manifesto de 1500 páginas. Na côrte, fez a saudação nazista e expôs seus pontos de vista com calma e precisão.

Isso é foi o mais assustador. Se não era exatamente são, também não era um doido varrido. Acreditava no que dizia. Agiu racionalmente – baseado na sua visão extremista e equivocada. Como ele, há muitos. No Brasil também.

Essa história é contada magistralmente em “22 de Julho”, produzido pela Netflix e recém-lançado. É escrito e dirigido por Paul Greengrass, diretor inglês que começou como jornalista, e como poucos sabe integrar o documental e o ficcional. Como todos os seus filmes de Greengrass, te pega pelo estômago. Você começa e não consegue parar de ver. Não à toa, ele dirigiu três filmes da série Jason Bourne.

Seu forte são os filmes baseados em fatos reais e sempre capricha na apuração. São imperdíveis “Vôo United 93” (sobre o avião que caiu antes de atingir seu alvo em setembro de 2001, sequestrado pela Al-Qaeda) e “Capitão Philips” (sobre o sequestro de um navio cargueiro por piratas somalis). “Zona Verde”, um filme de ação mais convencional, é sobre a farsa das “Armas de Destruição de Massa”, que justificaram a invasão americana do Iraque, e nunca existiram.

Muito bom e menos visto é “Domingo Sangrento”. É sobre o massacre de Derry, 1972, quando 28 manifestantes irlandeses pelos direitos humanos, desarmados, foram baleados por soldados britânicos, o que deu início ao período mais cruel da guerra civil na Irlanda do Norte.

O ataque acontece no primeiro terço de “22 de Julho”. O restante entrelaça o julgamento de Breivik e a sofrida, lenta recuperação de Viljar, 18 anos, estudante que levou cinco balas do terrorista. Culmina no reencontro deles no tribunal. O filme foi rodado em inglês para atingir o grande público, mas com atores noruegueses. Estão uniformemente excelentes. O olhar do ator Anders Danielsen, que vive o assassino, é tão apavorante quanto o original. Na foto acima, o ator é o da direita.

É um filme eletrizante e importantíssimo neste momento em que a história parece andar para trás, em tantos lugares do mundo. Não faz pouco do perigo que nos ronda. Tenta responder: como podemos enfrentar e derrotar os Breviks que nos ameaçam?

Dez dias depois do atentado, no dia primeiro de agosto de 2011, fiz o texto abaixo e publiquei no meu blog. Hoje, escreveria outra coisa. O que eu escreveria está no final deste texto.

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PELA INTOLERÂNCIA COM OS INTOLERANTES

Cobertura internacional do massacre na Noruega: no primeiro momento, luto. De lá para cá, foco nas conexões do assassino com organizações de ultradireita. Agiu sozinho mesmo ou não? Tinha ligações perigosas com que partidos e políticos?

Em que medida a crescente popularidade de movimentos superconservadores, racistas, anti-islâmicos fomentam crimes de ódio e até ações dementes como a de Anders Breivik?

Em nenhum lugar vi “monstro”, “animal” etc., como batizaram aqui o assassino de Realengo. Exceção de praxe à Fox News, que começou botando a culpa nos muçulmanos e terminou botando tudo na conta da mídia liberal.

Bill O´Reilly, sempre o melhor em comédia, meteu o pau no New York Times por chamar o atirador de cristão, explicando que “um verdadeiro cristão jamais cometeria assassinato de massa.”

Mas noves fora as caricaturas, o tom geral foi de tristeza e análise política. Breivik não só matou. Explicou seus porquês em trocentas páginas. Em resumo, é contra não-brancos e não-cristãos; contra multiculturalismo, feminismo, relativismo moral.

A ditadura do politicamente correto me entedia, pela inocência cricri, e enoja, por evitar a qualquer custo botar o dedo nas feridas.

Me causam irritação leve campanhas pelo uso da bicicleta em São Paulo, correntes “pela paz” ou vaquinhas para colocar band-aid na fratura exposta do momento – a enchente em algum canto do Brasil, a seca na Somália.

O botão Causas do Facebook é 99% anestesia de má consciência. Sai pra lá, maracujá.

Dito isso, nunca vi uma biker vegana, defensora dos animaizinhos, evangelista da reciclagem e militante das causas GLBTT sair matando os outros por aí.

É sempre macho e radical, religioso ou político, da linha “minha turma está certa e o resto do mundo está errado, e se não está conosco está contra nós”, incluindo aí a turma do eu-sozinho.

Zero-vírgula-nada por cento dos muçulmanos se candidata a homem-bomba. Parcela igual dos católicos sai abatendo adolescentes em um acampamento de verão.

Mas a pergunta cutuca: seria um mundo melhor aquele em que controlássemos com rigor a livre expressão e organização dos que pregam o excepcionalismo, a exclusão, a intolerância?

Minha resposta me incomoda. É sim. Os desafios da liberdade se resolvem com mais liberdade. Os da intolerância, com tolerância zero.”

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Você talvez concorde com minha conclusão: que teríamos um mundo melhor, um Brasil melhor, se controlássemos com rigor os que pregam a exclusão e a intolerância.

O problema é que, no Brasil de hoje, os que votam em Haddad têm certeza que quem defende a exclusão e a intolerância é Bolsonaro. E os bolsonaristas não têm dúvida que quem defende a exclusão e a intolerância é o PT.

A resposta me incomodava então. E seguiu me incomodando até que mudei minha posição. Explicitei minha mudança nos anos seguintes, em diferentes artigos e momentos.

Neste mundo imaginário, que é bem verdadeiro em muitos países, alguém decide por nós o que podemos dizer. E quem pode se organizar. E em torno de quais valores.

É muito poder para você delegar para o presidente da República, seja ele Bolsonaro, Haddad ou qualquer outro. Ou ao judiciário, ainda mais um judiciário militante. Ou ao legislativo, que bem conhecemos. E muito menos os líderes relogiosos, ou as turbas. 

Impôr limites à liberdade de expressão, de comunicação, de informação, de organização, é sempre errado. Não importam as circunstâncias. Sim, mesmo que se esteja defendendo o “mal”. Quem decidirá por você o que é “o mal”? Quem pretende impôr o silêncio ao outro pela força está sempre, sempre errado. Mesmo que seja pela força da lei.

Não se trata – muita atenção – de “respeitar todas as opiniões”. Não se deve respeitar opiniões estúpidas, desinformadas, preconceituosas. Nem as pessoas que as emitem.

Mas devemos reconhecer que não são monstros, são pessoas. E reconhecer o direito dessas pessoas dizerem o que bem entenderem, acreditarem no que quiserem, por mais cretino ou perigoso que nos pareça. É  justamente esse respeito pelo outro que separa nós deles. E é útil – para que possamos reconhecê-las, e enfrentá-las. 

Muito menos se trata de relativizar as diferenças entre o bolsonarismo e o campo democrático. Onde está Fernando Haddad, e onde estavam outros candidatos que não chegaram ao segundo turno.

No Brasil de hoje, é nossa obrigação enfrentar a truculência, brutalidade, estupidez representada por Jair Bolsonaro. Seus valores são anti-humanos. Sua atitude é totalitária.

Ele diz com todas as palavras: quer acabar com as minorias. Quer acabar com os ativismos. Seus asseclas pretendem impôr sua ideologia e sua religião ao Brasil. Na porrada. Se precisar, torturando.

Esse tipo de pensamento sectário que inspirou os crimes de Breivik domina o bolsonarismo, que atribui tudo de ruim do mundo aos petistas (que fizeram um governo com defeitos diversos, mas jamais totalitário). De “comunismo” a incesto, passando pelo maior caso de corrupção da história do planeta etc. Quem não reza pela cartilha dos fundamentalistas é demonizado.

Breivik matou jovens inocentes porque eles eram “marxistas”, o que os bolsonaristas aqui chamam de “comunistas”. Bem, não eram. O partido trabalhista norueguês tem quase 130 anos. É social-democrata, próximo do trabalhismo britânico de um Tony Blair. O primeiro-ministro da época do atentado é hoje Secretário Geral da OTAN. Mas e se fossem? Em uma sociedade livre você pode ser comunista, nazista, qualquer “ista”, ou nenhum.

Bolsonaro pretende também liberar a venda de armas de fogo, o que facilita a vida de assassinos como Breivik. Ele comprou suas metralhadoras legalmente na Noruega.

Quando seu opositor é um monstro, e não gente, só há uma coisa a fazer: aniquilá-lo. Foram dezenas de atentados de bolsonaristas desde as eleições. Alguém duvida que liberadas as metrancas para os brucutus, em breve teremos atentados à bala contra “comunistas” no Brasil? Afinal, o próprio candidato prometeu “metralhar petistas”. Teremos milícias bolsonaristas à solta em breve, obedecendo somente o líder supremo?

Este é o nosso inimigo. Não vamos destruí-lo, vamos vencê-lo. Houveram outros no passado, haverão outros no futuro. É desafio permanente que começou com a humanidade, segue tarefa cotidiana, e nunca há de acabar. A vitória virá ampliando nossas liberdades, jamais limitando.

O Brasil não é a Noruega. Mas nós, os brasileiros que resistirão sempre aos autoritários, precisamos ser exatamente como a Noruega: intransigentes na defesa da liberdade. E, porque não, da igualdade e da fraternidade. O que precisamos para isso? Criar mais gente como nós. Criar jovens como nós – melhores que nós.

Funciona lá, funcionará aqui. Breivik cumpre prisão perpétua. No dia 7 de julho de 2015, um grupo de mais de mil jovens voltou à ilha de Utoya. Retomaram a tradição dos encontros de verão da Liga da Juventude Trabalhista. Ele perdeu. Eles venceram. 

A mensagem final do “22 de Julho” é de Geir Lippestad, advogado de defesa de Breivik. Geir, trabalhista, abomina o terrorista. Requisitado pelo sistema legal norueguês, defende Breivik ao máximo de suas habilidades. É a voz da civilização e da civilidade, que mantém mesmo nesta circunstância extrema. 

Preso, Breivik promete: “o que eu comecei, outros terminarão”. E Lippestad responde: “e também serão derrotados. Pelos meus filhos, e pelos filhos deles. Eles derrotarão vocês.”