Aprendendo a viver com os irredutíveis gauleses

A grande surpresa de ter filhos é voltar a ser criança. Quando você menos espera, está comendo doce de criança, vendo filme de criança, tendo papo de criança e, claro, lendo gibi de criança. Me lembro a primeira vez que li Asterix com o moleque. Foi a primeira vez que li um álbum de Asterix desde os anos 70. Não será a última.

Comprei em um sebo perto de casa, edição da Cedibra, amarelada, letreiramento terrível, R$ 10. Garoto, tive muitos Asterix, Tintin, Mortadelo & Salaminho. Sumiu tudo, não sei como nem quando. Devo ter trocado. Viver é se arrepender. 

Meu filho tinha uns oito anos, e já tinha visto os filmes de Asterix. Na época, pensei que os álbuns de Asterix, com pouco texto e muito impacto visual, podiam emplacar. Médio. Nunca subestime a preguiça para ler de um menino criado com Cartoon Network e Nintendo. Acabei lendo e interpretando 90% da história. Ele se renderia aos quadrinhos, anos depois, e até hoje – mangá.

Asterix é o principal produto de exportação da cultura francesa. Seus criadores, o roteirista Albert Uderzo e o desenhista René Goscinny, são os autores best-seller da França em todos os tempos. Já são mais de 350 milhões de livros vendidos, divididos entre 34 álbuns publicados desde 1961; fora filmes, desenhos, games, parque temático (nós fomos! e recomendamos!)

É meia-verdade dizer que Asterix é para criança. Como Pernalonga ou Wall-E, Asterix é para todas as idades. Pode ser fruído em níveis diferentes por gente com idades e repertórios diversos. Tomás, claro, não percebeu as sacanagens de Asterix e os Godos. Goscinny capricha na tiração de sarro dos vizinhos alemães. Mas a violência surreal, o humor e as personalidades dos personagens são irresistíveis para qualquer moleque.

Asterix e os Godos é uma comédia de erros. Os Godos capturam o druida Panoramix e o levam para seu reino, para que ele revele o segredo da poção mágica que dá superforça. O plano godo: criar com a poção um exército invencível, para invadir a Gália e depois tomar todo o império Romano.

Os romanos caçam os Godos, mas os confundem com Asterix e Obelix. A dupla se disfarça de legionários romanos, e depois de guerreiros godos, para resgatar Panoramix. Os romanos só fazem trapalhadas. Os alemães só querem saber de guerrear.

O enredo é circular e passeia relaxadamente até chegar a algum lugar, mas quando chega, é de bater palmas. Panoramix cria um plano: “vamos fazer com que os godos desistam de invadir a gente por muito tempo. Vamos semear a desordem e a confusão!”. O trio de gauleses dá a poção mágica para uma série de godos mirrados e infelizes, dizendo separadamente a cada um que agora, forte, ele terá poder para conquistar tudo o que quer.

Imediatamente, os belicosos germânicos se declaram reis e criam exércitos, que passam a guerrear uns contra os outros. São as Guerras Asterixianas. O poder da poção passa, e eles continuam se pegando. Enquanto lutam entre si, a Gália não tem o que temer. Tudo em paz deste lado da fronteira. Hora de festa na aldeia, com o bardo Chatotorix devidamente amordaçado.

Em seus encontros com povos diversos, nossos heróis sempre percebem – e riem – do que lhes parece esquisito nas outras culturas. Mas os sarros não são maldosos, são condescendentes. Até os invasores romanos não são odiados. São só uns neuróticos… Como são esquisitos os outros, parece sempre reparar Obelix. Mas também, coitados, não são gauleses, explica Asterix.

De fato, a França esbanja charme. Eu moraria lá tranquilamente, e ando bem tentado a voltar a estudar francês. É um lugar lindo, com contribuições inigualáveis à cultura e a ciência, com a comida mais deliciosa, com saudável desrespeito ao poder. Um país rico e poderoso, onde as pessoas vivem com segurança e conforto, sem se esfalfar. Em um mundo apressado, abrutalhado, seu relativo isolamento parece muito sedutor.

É a verdadeira aldeia gaulesa – sempre pronta para resistir ao invasor e lutar por seu estilo de vida, sempre pronta para um belo banquete de comemoração. Asterix e Obelix nos ensinam, adultos e crianças, o que é savoir-vivre.