A carta mais importante que eu já te escrevi

CLIMA NEWS

O IPCC acaba de publicar o resumo de seu novo relatório sobre a Crise Climática. O Painel Intergovernamental sobre Mudança no Clima, criado pela ONU, é ultra-respeitado e muito circunspecto, avesso a histeria.

Eu não tenho nada a escrever mais importante do que este artigo com as novidades do IPCC, listadas pelo indispensável Observatório do Clima.

Nem eu. Nem ninguém.

Nem hoje. Nem nunca.

Você pode baixar o texto do próprio IPCC, comentado, aqui.

O artigo da Fiona Harvey, do Guardian, está aqui com gráficos que vão deixar você de cabelo em pé.

Ou você pode ver fotos de satélite demonstrando a desertificação rápida do semi-árido brasileiro. A Caatinga já perdeu mais da metade da sua cobertura original.

Quanto do semi-árido está sujeito a virar deserto? 94%. Onde vão viver os milhões que hoje vivem lá? Na sua cidade, minha amiga.

 

O CLIMA E OS GOVERNOS

Bom, isso é problema pros gringos resolverem, porque o Brasil emite pouco, né? Errado. 

De fato, sem resolver China e Estados Unidos, não se resolve nada.

Mas se você vê o ranking só com as emissões de gases estufa que vêm da geração de energia, fica com uma ideia errada da responsabilidade do Brasil.

Nessa a gente realmente tá lá embaixo, porque a maior parte é hidroelétrica, e outras fontes sustentáveis estão crescendo.

Mas no ranking total, que inclui uso da terra, pecuária, desmatamento, a conta muda…

O Brasil está tecnicamente entre os países de performance média, e caiu quatro pontos no ranking este ano.

Mas os especialistas não olham a situação como se fosse uma foto, e sim como um filme. E quando você olha as tendências mais poderosas do país, não há dúvida: a performance do Brasil é baixa.

Bem, pelo menos o Biden está enfrentando tudo com seu super Green New Deal, certo?

Médio. Biden dá uma no cravo, e outra na ferradura – já aprovou mais de 2000 licenças para poços e fracking desde que assumiu. 

E a impiedosa Kate Aronoff eviscera a conversinha de Biden sobre carro elétrico aqui. Greenwashing, indeed.

 

O CLIMA E AS EMPRESAS

Como você sabe, não é “a humanidade” que está causando esta emergência planetária. Não são alguns países. Aliás, dividir isso por país, ou per capita, mascara o principal.

É a busca obsessiva, desregulamentada, suicida do maior retorno sobre o capital investido, e danem-se as consequências. 

Estas 100 empresas geram 71% das emissões. Tá fácil: é só a humanidade encrencar com 100 empresas. E seus representantes nos governos, instituições, imprensa… olha a Petrobras lá!

As petroleiras deram lucros gigantes este trimestre.

E nenhuma pagou mais dividendos que a Petrobras.

O mercado não vai solucionar esta emergência. O mercado nem entende a mudança climática. Inclusive porque as agências de risco, as seguradoras, as consultorias que provêm dados e análises para as empresas também não entendem.

Quem diz? A Kate MacKenzie, que tem uma coluna na Bloomberg, e é consultora de que querem seguir o Acordo de Paris. Siga ela no twitter @kmac.

É compreensível que as empresas irão continuar priorizando seus resultados trimestrais, suas ações, sua valuation. Afinal, elas não são recompensadas nem punidas por se comportarem bem ou mal com relação ao clima.

Algumas se esforçam. A maioria é só marketing. Pelo menos, agora está mais fácil identificar quais empresas se fingem de responsáveis, com todo esse discurso de ESG e sustentabilidade, e agora até usando Inteligência Artificial.

 

O CLIMA E SUAS SOLUÇÕES

Por estas e outras é que as emissões de CO2 baterão recorde ano que vem. Por estas e outras é que a Crise Climática é o tema político, econômico, cultural, existencial mais importante da nossa era – e, se descuidarmos, de eras vindouras.

Sim, mais que as barbaridades em Brasília. Mais que desemprego cruel e bala perdida nas comunidades. Covid-19 é um pum de mosquito perto do vendaval que é a Crise Climática.

Porque, além de tudo, o impacto econômico do Aquecimento Global será de proporções bíblicas. Recessão é pouco. Estamos falando de fome de massa, migração de massa, indústrias inteiras derretendo, cidades costeiras submersas e tal.

Pra fechar, o Observatório do Clima detalha esta proposta prática do ponderado Tomas Piketty: taxar os 10% da população mundial que mais polui. Uma espécie de imposto sobre grandes fortunas de carbono. E carcar imposto nas empresas que mais poluem. 

Faz todo sentido, porque ignora fronteiras nacionais, exatamente como fazem os gases estufa.

Veja só, Piketty nem está propondo que expropriemos as petroleiras e guilhotinemos em praça pública seus acionistas… proposta modesta, moderada, dentro das regrinhas do jogo democrático.

Talvez hajam outras melhores.

O ponto é que nada mudará enquanto a gente colocar a justa indignação de cada dia, do curto prazo, acima da importância do longo prazo, das décadas que temos pela frente, e dos séculos que virão.

Ou, melhor dizendo, tudo continuará mudando – pra pior.

Quer colaborar? Espalhe este email por aí.

Não é solução, eu sei.

É pouco, uma garrafa no oceano.

Mas tudo começa com informação que presta, vindo de fontes que dá pra confiar.

Por exemplo, você.

 

VALEU

Vai pela sombra…