Por um jornalismo mais crítico: sem fronteiras, sem piedade

O jornalismo que eu tento exercer desde 1988 é o jornalismo crítico. Ele tem uma única premissa: compromisso total com o leitor.

Fã é fã, jornalista é jornalista. Fã perdoa tudo. Jornalista não perdoa nada, ou não deveria.

Meu jornalismo é sempre pelo viés da cultura. As perguntas que o jornalista cultural têm de responder são só duas: primeiro, o objetivo da obra tem algum mérito? Segundo, o objetivo foi alcançado? Só. O resto é perfumaria.

Vale para o impresso, vale mais ainda para o digital. Até porque na rede não é preciso descrever a música; qualquer um baixa. Não é preciso listar a filmografia do diretor, ou sua história etc.

Basta lincar para as melhores fontes de informação. E contribuir com o que interessa: uma visão pessoal, única, e implacável. Jornalismo crítico do século 21: sem fronteiras, sem piedade.

É uma atitude radical. Exemplo: implica arrasar com a mais recente (e ruim) obra de um artista velhinho, respeitado e amado. Não interessa seu currículo. Interessa a obra.

O jornalismo crítico pode ser exercido na grande imprensa ou num blog lido por cinco pessoas. Não requer muito mais que saber escrever, curiosidade, uma cultura geral razoável. Quanto mais repertório e rigor melhor, naturalmente.

Mas não precisa saber tocar piano para escrever sobre música. Não dá para esperar ter a formação cultural (filosófica, política etc.) desejável pra começar a se mexer. Não tenho, estou longe de ter, e já passei dos 50, trinta anos de jornalista.

Não é grande arte. Dá para aprender fazendo – Do It Yourself, velho lema punk. É uma maneira de ver as coisas e se posicionar.

Copiar o que a assessoria de imprensa mandou não é jornalismo. Ecoar o consenso que compensa não é jornalismo. Se esconder no que pega bem não é jornalismo. Copy-paste não é jornalismo.

Paulo Francis, por Mariza Dias Costa, sua melhor ilustradora

Álvaro Pereira Jr., comentando o livro Pós-Tudo (uma espécie de almanaque sobre a história da “Ilustrada”, da Folha de S.Paulo, o mais influente caderno cultural da história da imprensa nacional, que cresci lendo e onde trabalhei entre 88 e 90), cutuca a preponderância do “jornalismo amigo e construtivo, participante de cena que cobre.”

Este mestiço jornalista-fã frequentemente tem papel catalisador em novos movimentos culturais. O problema é que esta postura se tornou a característica dominante do nosso jornalismo cultural. Em outros países não é assim.

O que me fez querer ser jornalista é o jornalismo crítico. Ele estava presente na “Ilustrada” nas entrelinhas do “jornalismo amigo e construtivo” da fase Matinas Suzuki Jr./ Marcos Augusto Gonçalves (que queriam construir a obra junto com o artista, construir a política cultural junto com o governo etc.; “você era crítico e participante ao mesmo tempo”, Matinas, pág. 118 de Pós-Tudo) e sua continuação, que veio dos anos 90 pra frente.

A não-“Ilustrada” era, em uma palavra, crítica. Uma meia dúzia de gatos pingados por década. Às vezes fazia barulho suficiente para estourar os tímpanos de quem estivesse de ouvidos abertos. Na minha adolescência, Paulo Francis e Pepe Escobar.

Mas a imprensa cultural dominante é e sempre foi a dos jornalistas artistas, ou jornalistas que são amigos de artistas ou sonham ser. Alguns poucos são brilhantes e catalisadores.

A maioria cada vez mais ignora a parte “jornalismo” de “jornalismo amigo e construtivo”.

Muitos blogs estão cheios de posts pagos, o crítico ganha uma grana extra como curador, a editora faz frila para a assessoria, todo mundo pega o seu com o governo, todo mundo se virando etc.

O Brasil precisa de mais jornalismo crítico, e não só na área cultural. A ação entre amigos é regra no jornalismo político, econômico, esportivo. Uma mão lava a outra, e as duas juntas tapam nossos olhos.

Tem um ou outro escrevendo por aí com ataque e verve, usando o cérebro, sem medo de desagradar nem se expôr. Tenho esperança que apareçam mais.

Torço por uma explosão de seguidores de Kenneth Tynan, que Paulo Francis me apresentou na “Ilustrada”. Tynan uma vez esculhambou um filme de Michelangelo Antonioni assim: “Nove décimos do trabalho do crítico é demolir o ruim para abrir caminho para o bom. Antonioni está bloqueando a rua”.

Nada a acrescentar.

(Publicado originalmente na revista Continente, em 2011)