O Brasil precisa de mais Estado

Tem muita gente no mundo passando necessidade. Do básico mesmo: comida, água, teto, remédio. Pra nem falar em escola, hospital, lazer. Outro dia uma reportagem contava que mais da metade da humanidade não tem acesso a analgésicos. A maioria, crianças. Viver num mundo assim, num país assim, é de cortar o coração.

E apesar disso a maioria de nós não se mexe um milímetro para ajudar quem precisa. Os refugiados da Síria e os famintos do Sudão estão longe. Mas aqui mesmo na nossa cidade tem gente passando necessidade brava.

A gente vê um desgraçado jogado ali e olha pro lado, pula por cima. Não pergunta do que ele precisa, como podemos ajudar. No máximo dá uns trocos se apertar muito o coração. Sabemos que tem gente sofrendo muito naquele momento, e que a gente poderia ajudar, poderia aliviar, mas não nos mexemos. Você é assim? Eu sou. Por quê?

Porque estamos ocupados vendo seriado, postando no Instagram, fazendo escova progressiva, assistindo a mesa-redonda, encanando com o trabalho, planejando as próximas férias, tomando cerveja, clicando nas mais lidas. Gritando no Twitter contra a injustiça!

O ser humano já nasce equipado com um chip cerebral que garante que ele é o centro do universo. Cada um vê sempre o mundo do mesmo ponto de vista: do próprio umbigo. No máximo nos importamos com nosso clã, nossa tribo. A família imediata, os amigos mais chegados, o cachorro. E só.

É uma concepção do ser humano um pouco cruel? Certamente tem gente que ajuda o pobre, o fraco, o carente. Parabéns se você é assim. Caridade é muito bonito.

Mas depender de caridade não é uma boa estratégia de sobrevivência, vamos concordar. Eu não aceito depender da iniciativa individual dos outros me ajudarem a comer, morar, viver. Como seria uma sociedade ideal? Um mundo em que a caridade deixasse de existir, porque desnecessária.

Reconhecer a natureza individualista do homem é o primeiro passo para construir sociedades menos injustas. Mas veja: a natureza do indivíduo é individualista. Já a natureza da comunidade é… comunitária.

Uma sociedade não é um monte de indivíduos, cada um se virando como dá. Isso é a descrição de uma selva, não de uma civilização. Se a humanidade quisesse morar numa selva, não teríamos criado a escrita e a roda, construído pirâmides, criado leis etc.

Indivíduos inspiram. Mas foram grupos que concluíram que os mais fracos não podem depender da caridade dos mais fortes. Foi outro dia mesmo, no século 20, e pago com suor e sangue. Sabe o que nenhum desses grupos era? Conservador. Eles não queriam conservar as coisas como sempre foram. Queriam mudar o mundo. E mudaram. Para melhor.

De batalha em batalha foram impostas socialmente regras para civilizar a guerra dos indivíduos pela sobrevivência. Leis como o salário mínimo. A licença-gravidez. A semana de 40 horas. O décimo-terceiro. A escola pública, a vacinação gratuita e por aí vai. Alguns países infelizes ainda não conquistaram muitos desses direitos. Outros garantem às suas populações muito mais que o Brasil.

Tanto nesses países avançados quanto nos nem tanto, como o Brasil, esses direitos estão sob ataque. É sempre a mesma cantilena: tem que cortar na carne, a conta não fecha, não existe almoço grátis.

Dinheiro para os fracos nunca têm. Os fortes, bem, os fortes se garantem no acesso ao dinheiro público. O que é era Petrolão? Uma conspiração em que as maiores e mais poderosas empreiteiras do Brasil se uniram para corromper funcionários da Petrobras e garantir contratos. É um escândalo privado tanto quanto um escândalo público.

Algum tempo atrás, nosso Congresso aprovou um projeto de lei que reduz um bocado os direitos de quem trabalha. Com votos a favor da maioria dos partidos. Quem disse não? O PSOL, o PSTU, a maioria dos deputados do PT.

Você poderia imaginar que essa decisão do Congresso ia gerar protestos dos trabalhadores. Mas não. Os protestos que tivemos, em vez disso, foram protestos contra o PT.

Algumas das vozes mais altas nos protestos não só gritaram contra o PT. Clamavam por menos estado. Deveriam estar satisfeitas com o governo Dilma, que promoveu um corte mega-bilionário no orçamento do país. Mas não estavam, e sabemos o destino de Dilma. E sabemos que o discurso pelo Estado Mínimo, por menos impostos, pela “liberdade”, virou um grande eixo da discussão política nacional.

Existem muitas razões para bater panela contra o governo. Democracia é conflito, e que bom que seja assim. Quem quer tranquilidade que mude para uma ditadura, onde reina a calmaria dos cemitérios.

Mas defender a redução do Estado e das leis que nos protegem é outra coisa. Não é nem individualismo. É egoísmo mesmo.

É fácil dizer “não precisamos do Estado” quando você é jovem, saudável, estudou, tem poupança e onde cair morto. É fácil defender corte nas aposentadorias dos velhinhos quando os seus pais têm plano de previdência privada. É fácil defender privatização da educação quando sua família financiou sua escola desde o jardim da infância.

Quando você é um duro, quando não teve chance de estudar, quando você é mãe solteira, quando você é deficiente, quando você é idoso e doente, ter um mínimo de direitos assegurados pela lei e garantidos pelo Estado é tudo.

Aliás, a menino da foto lá no alto trabalha catando lixo no Canal do Arruda, em Pernambuco. Você acha que ela preciso de menos ajuda do governo ou mais?

A ironia é que quem grita mais alto contra o Estado é quem tem algum ou muito dinheiro para investir. E onde o brasileiro bem-de vida investe? Ora, o melhor negócio do país é investir em títulos públicos. Tanto que está cheio de fundo de investimento gringo trazendo seus dólares para multiplicar aqui.

Nossos ricos estão financiando justamente o governo que dizem que querem reduzir… porque é a aplicação que rende mais, pô! Na prática, boa parte do discurso a favor da redução dos gastos do Estado é para garantir os gastos remunerando os empréstimos que o grande capital faz ao país.

O Brasil não precisa de menos direitos. Nem de menos Estado. Precisa de mais direitos. E precisa de mais Estado. Para a maior parte dos brasileiros o Estado não garante o mínimo do mínimo. Caramba, metade das casas do país não tem esgoto! Como alguém pode dizer que o Brasil precisa de menos Estado?

A missão número um da sociedade brasileira é forçar o Estado a priorizar o que é prioridade. Que é o bem estar os brasileiros. Começando pela proteção dos que precisam mais de proteção.

Isso não é caridade. Caridade faz bem para o coração e para aquela pessoa na sua frente, mas é só. Estender a proteção do Estado para todos os brasileiros é reconhecer a natureza humana. Reconhecer que somos individualistas. E também que as soluções individuais têm limitações.

Alguns objetivos o ser humano só é capaz de conquistar, e de defender, coletivamente. E a maneira mais poderosa de interferir no destino de um país é através do poder público, dos recursos públicos, da vontade pública.

O “Brasil” não é um pedaço de terra. É a comunidade formada por todos os brasileiros. Todos. Sim, inclusive aqueles malas com quem você não concorda. E principalmente os mais fracos. Não temos direito de excluir ninguém. A exclusão nos enfraquece.

A construção de um país justo passa pelo Estado. Não há atalhos. Você pode perfeitamente ser inimigo desse governo. Mas se é inimigo do Estado, é inimigo do Brasil.