Dom Angélico

Meu pai era muito amigo de Dom Angélico Sândalo Bernardino. Se conheceram jovens, em Ribeirão Preto, ele padre, meu pai estudante de medicina.

Meus pais, antes de casar, eram da Juventude Universitária Católica. Era época de grandes mudanças na Igreja, com o Concílio Vaticano Segundo. A política fervia – e desaguou na ditadura militar.

Dom Angélico me batizou no dia 15 de agosto de 1965. Logo meu pai começaria a se distanciar da política; se reaproximaria, sem militância nem partidarismo, muito mais tarde.

Dom Angélico fez o caminho oposto. Especialmente a partir de 1975, quando se tornou bispo em São Miguel Paulista, zona carente de São Paulo, e diretor do jornal O São Paulo, da diocese, e combativo contra o regime militar. Se viam pouco, mas sempre mantiveram a amizade.

Alguns anos atrás, levei meus pais e meu filho, Tomás, para encontrar Dom Angélico em sua casa modesta na zona norte de São Paulo. Foi uma tarde emocionante. É um homem de coragem, inteligência, sensatez admiráveis. Digo isso como ateu, com muitas restrições às religiões em geral, e à Igreja Católica em particular.

Dom Angélico ainda teria um momento de grande importância na vida do meu pai, no seu último natal. Ele transferiu oficialmente para meu pai poderes para realizar um… batismo.

Mas essa é uma história comprida, que vai ficar para outro dia.

Angélico nasceu em Saltinho, ao lado de Piracicaba. Quando foi sagrado bispo, em 1975, meu pai escreveu esse artigo para o Jornal de Piracicaba. É mais formal do que as cartas que escrevia ao neto.

Mas é uma homenagem sincera ao amigo, e homenageio ambos começando com esse texto a seção CARTAS DO AVÔ.