Christopher Hitchens: nosso último ano

Christopher Hitchens teve três bons motivos para, contra seu passado, lenda pessoal e amigos, usar seu armamento mais pesado em defesa da invasão do Iraque. Sua solidariedade com a causa dos Curdos, minoria perseguida por Saddam Hussein.

A amizade fraterna com Salman Rushdie, que enfrentou sentença de morte por fundamentalistas islâmicos, pelo não-crime de escrever um romance, Os Versos Satânicos. E, catalisador letal: o alcoolismo. Hitchens era bêbado violento  não nos atos, mas nos julgamentos e palavras.

Hitchens, para os amigos Hitch, tinha uma visão épica e ácida de seu papel de jornalista, militante e intelectual público. Comprou moleque a mitologia das ratazanas da imprensa inglesa, espertalhões sacanas. Educação fina garantiu ao garoto de classe média verniz de literato e o abecê do trostkyismo  única formação política igualmente odiada por capitalistas e comunistas, com boas razões.

Sua turma na revista de esquerda New Statesman dominou a cena cultural-política da Inglaterra dos anos 70. Almoços intermináveis toda sexta-feira, regados a fofoca, tonéis de vinho e sonetos improvisados e safados.

O brilho da América o atraiu. Hitchens mudou para o império em 1982. Viajou meio mundo e se meteu em boas, reportando para The Nation e outras publicações de esquerda. Foi se afastando da militância, mas manteve a intransigência com autoritarismos e a visão internacionalista. Se descobriu descrente de utopias.

Seus melhores amigos já eram romancistas premiados e milionários ― Martin Amis, Ian McEwan. O talento e ego de Hitch exigiam palco e holofotes à altura. Conquistou ambos com uma coluna na revista Vanity Fair em 1992, quando o li pela primeira vez. Morando em Washington, ninho de serpentes, Hitchens arrepiava. Escrevia à toda e sobre tudo. Cuspia opiniões instantâneas e definitivas.

Era ainda melhor ao vivo. Nos programas de debates na TV, virou figurinha carimbada, ogro hirsuto e rotundo, língua de lâmina. Assumiu sem culpas a vocação de entertainer, e aprontou à beça.

Ganhou status de popstar em 1995, denunciando em livro a intocável Madre Teresa de Calcutá como santinha do pau oco. Li um trecho e me rendi de vez. Hitchens era muito do que eu admiro em um jornalista.

Inteligente sem ser pernóstico; bocudo e preciso; engraçado e encrenqueiro; impiedoso com os poderosos; impaciente com a burrice; destemido ao defender posições impopulares. Mais importante que tudo: escrevia bem pra diabo. Também era chutão e fanfarrão. Pecados menores.

Christopher Hitchens para mim era isso: as colunetas da Vanity Fair sobre o Kosovo e o fellatio. Esbarrava com um novo artiguinho anarquizante dele pela internet, aqui e ali.  Tive preguiça de ler seus livros iniciais. Eram manifestos supérfluos na minha vida.

Um listava bons argumentos para a abolição da monarquia britânica, outro detonava Bill Clinton por picaretagem, um terceiro condenava Henry Kissinger como assassino de massa ― e aí, cadê a novidade?

Depois veio o 11 de Setembro. Hitchens perdeu ali muita gente melhor que eu. O problema nem era sua defesa raivosa da Guerra do Iraque. Ou os ataques demolidores a antigos companheiros de viagem, gente como Noam Chomsky, Alexander Cockburn, Howard Zinn e Edward Said.

Ele bateu duro como apanhou ― foi excomungado pela elite liberal bem-pensante dos cinco continentes, e retrucou com obituários vitriólicos. Inadmissível foi perceber Hitchens deslumbrado com crápulas maquiavélicos como Paul Wolfowitz, arquiteto do neo-conservadorismo, sub-secretário de defesa de George Bush. Ou, pior ainda, se perfilando com sub-humanos como Ann Coulter, ou palhaços da Fox News.

E assim passou a década. Mesmo Deus Não é Grande, de 2007, seu ataque às religiões como fonte primária do mal, não me seduziu. Hitchens se definia como “antiteísta”. Sou só ateu, mas era pregação para convertido.

Fui tentado a comparecer a um jantar em homenagem a ele, em uma feira de literatura, 2006. Mas não ia a Parati só para pagar pau para escritor, né? Bom, o editor me contou depois que Hitch caminhou Parati inteira, sempre descalço, puxando papo com todo mundo, na boa companhia de uma garrafa de whisky. Perdi uma boa e foi minha última chance.

Hitch morreu aos 62 anos em 2011. Todos sabiam que estava condenado e ele também. Continuou na ativa até o final. Sua última coluna na Slate data 28 de novembro. Seu último ensaio, ainda inédito, é sobre Chesterton ― Ian McEwan relata seus últimos dias em palavras emocionantes.

Foi muito homenageado no ano que passou. Os obituários dos últimos dias falam por si. Os amigos próximos o celebraram ao vivo, Christopher Buckley, James Fenton, Sean Penn, Stephen Fry e mais.

O espectro de sua morte próxima me inspirou ainda em 2011 a tirar o atraso. No meio de 2011 encomendei meus primeiros quatro livros de Hitchens. Comecei por seu delicioso volume de memórias, Hitch-22.

Letters to a Young Contrarian, be-a-bá do espírito do contra, inspirado pelas Cartas a um Jovem Poeta de Rainer Maria Rilke, deveria ser leitura obrigatória para adolescentes.

No Brasil, foi traduzido como Cartas a Um Jovem Contestador. Só em sebo. Não se encontra em livrarias, indicativo do horror nacional à rebeldia.

Emendei Hitchens from A to Z, coletânea de epigramas metralhados vida afora. Bispei com proveito The Portable Atheist, seleta de textos organizada por Hitchens, contra religiões e pró-humanidade, de autores diversos, Bertrand Russel a Richard Dawkins.

Como seu herói George Orwell, Christopher Hitchens se via como cavaleiro sem exército. Procurava uma causa inequívoca, uma batalha definitiva. Encontrou, na luta sem tréguas contra o fundamentalismo islâmico, filho bastardo de seus maiores inimigos, o fascismo e a religião. O Onze de Setembro foi para ele Pearl Harbor e Hiroshima.

Por imperativo ético, Hitchens teve a coragem de trair seu passado. Não anteviu um futuro de desapontamento e desterro. A justificativa para a Guerra do Iraque se revelou uma mentira; seu objetivo maior, reeleger George Bush e enricar seus comparsas; os novos companheiros reacionários de Hitchens não eram amigos, só aliados; sua atitude foi moral, mas seu papel foi de fantoche.

Ninguém está a salvo do autoengano. Cachaceiros, pior ainda. Hitchens morreu de câncer no esôfago. Hectolitros de Johnny Walker Red Label e quinze mil Rothmans por ano, durante quatro décadas, têm consequências.

A década com a direita foi o catalisador. Impossível ele não ter enxergado a futilidade de sua traição.  Mal-estar que encontrou ambiente pestilento, e apodreceu suas entranhas?

Hitchens viveu vertiginosamente. Acertou e errou. Fez mais e melhor que você e eu. Morreu celebrado pelas pessoas que mais respeitava. Sua produção prodigiosa estará sempre à nossa disposição, leitura provocativa e prazeirosa.

Um dia depois de sua morte abri Arguably, seleção de ensaios, críticas, artigos.  Comecei pela resenha de uma biografia de Arthur Koestler. Na última linha, eu estava indeciso: abandono a profissão ou redobro meus esforços?

Hitch é herói perfeito para as novas gerações, criadas no atrito das redes sociais. Apresentei Hitch para meu filho quando ele tinha uns 12 anos, em 2015. Viu todos os vídeos no Youtube, Hitch massacrando Madre Teresa e companhia, depois leu Letters to a Young Contrarian. Virou fã de carteirinha, o que o levou a Richard Dawkins e um monte de gente boa – Oscar Wilde.

Nos últimos meses terminei a homenagem a Orwell, tinha empacado.  Li mais uma coletânea de ensaios (Not Yet), um livro de entrevistas com Hitchens (The Last Interview), e seguirei comprando Hitchens, e lendo e relendo. 

Ler Cristopher Hitchens no seu último ano foi, para mim, uma injeção de adrenalina. Neste meu último ano , em que enfrentei mortes próximas  meu pai, meus amigos  é um sopro de vida. Uma inspiração para voltar a escrever, razão para viver. E como defendia Hitchens, escrever para a posteridade, para o sempre. Por quê escrever? Porque é a única coisa a fazer.