30 de novembro de 1900

Paris, 1900: cinco garrafas de conhaque por semana constituem sua principal alimentação a esta altura. Fora elegante, aplaudido, glorioso. Caiu em desgraça.

Está um trapo, arrebentado pela rejeição, a pobreza, os anos na cadeia. Fraco, magro, com uma infecção permanente no ouvido. O tratamento é arsênico e estricnina.

Foi abandonado por quase todos. Sobra um companheiro, Maurice, e um antigo amante, ainda amigo dedicado, Robert Ross.

“Estou morrendo acima das minhas possibilidades”, diz a ele. “Não tenho dinheiro nem para morrer.”

É seu último companheiro de bar. Tomam absinto. “Que razão tenho para continuar vivendo?” Dia seguinte o ouvido supura. A meningite se instala.

Logo morfina para de funcionar para aliviar as dores de cabeça horríveis. Troca por ópio. E champanhe.

Dia 27 de novembro começam os delírios. Dia 29 está cadavérico e ofegante. A mente afiada como uma adaga dissolve. Eterno pagão, recebe a extrema-unção.

Na madrugada de 30 de novembro, a boca começa a espumar. Ele vomita sangue. O coração para pouco antes das duas da tarde. O gênio implode – fluidos jorram de seu corpo por todos os orifícios.

O enterro barato é dia 3 de dezembro. Catorze pessoas, incluindo o grande amor de sua vida.

Na estante ao lado da mesa em que escrevo neste minuto tem um livro dele.

São 260 páginas de frases lapidares, retiradas de suas peças, ensaios, contos, cartas, ou simplesmente disparadas à queima-roupa em algum sarau elegante.

É um pedacinho precioso de sua obra completa, monumento que uma amiga querida se deu de presente neste Natal, e não consigo imaginar presente melhor.

As frases do livro estão divididas em 49 temas – Arte, Religião, Fumar, América, Inglaterra, Casamento, Amor, Jornalismo, Política, Beleza, Juventude e Velhice, Riqueza e Pobreza, e mais.

Não há um capítulo chamado Morte. Morte, confortável, indigna ou prematura, não é tema que interesse a quem disse “uso minha arte para viver, e só o meu talento para trabalhar”.

O que importa é viver, e não só existir. “Acreditar é insosso. Duvidar é imensamente sedutor. Estar alerta é estar vivo. Sentir-se seguro é morrer.”

Oscar Wilde morreu com 46 anos. Oscar Wilde vive.