Faça você mesmo

Eu acredito muito:

- no DNA do punk: DIY, “do it yourself”, faça você mesmo.

- no poder  turbinante / empoderante/ revolucionário da tecnologia digital.

Desde o primeiro dia que li a palavra cyberpunk, na revista Heavy Metal, 1983, me apaixonei. A vida fez instantaneamente mais sentido. Não fazia idéia que todos viveriamos no cyberspace em 2009, claro.

O Fábio citado abaixo é o Yabu. Na época, fazia uma HQ na web, das primeiras do Brasil: Combo Rangers. Fez muita coisa depois disso. Entre elas, criou As Princesas do Mar, que - incrível! impossível! inédito! - de livro fofo viraram franquia e série animada exibida mundo afora (aqui, diariamente no Discovery Kids). 

E apesar de tudo continuo encontrando gente que está esperando as coisas acontecerem. 

Vão continuar esperando.

 

FAÇA VOCÊ MESMO

Ou se transforme em uma ervilha gigante do espaço

 

NetAid é um projeto megalomaníaco. Começou com um supershow bacana em três estádios, com gente tipo Bono do U2 e David Bowie, transmitido pela Internet. O objetivo final é nada menos que mudar o mundo. Transformar o acesso à informação em um direito, e não um privilégio, e com isso acabar com a fome, ajudar refugiados, proteger o meio ambiente, ganhar a guerra contra a miséria e zerar a dívida dos países pobres com os ricos.

A fundação NetAid dá uma cara esperta e rebelde para 74 organizações diferentes. Famosas, como Médicos Sem Fronteiras e Greenpeace. Pequenas como Grassroots International, que entre outras coisas paga advogados para o MST no Maranhão.

Ou pequenas e famosas, como Drop the Debt-Jubilee 2000, que busca aliviar a dívida externa dos países em desenvolvimento. Graças aos seus esforços, o G8 cancelou 100 bilhões de dólares de dívida de países miseráveis. (E o Brasil não entra nessa? Entra. Fale com Marcos Arruda, (21) 252-0366 ou pacs@ax.apc.org.)

É facílimo descartar qualquer coisa desse gênero com um “ah, isso não resolve as coisas de verdade”. É uma atitude nojenta e cretina. NetAid é a salvação da lavoura? Não. Não existe salvação da lavoura. Não tem esse negócio de gritar Shazam e o Capitão Marvel chega para resolver tudo.

É uma iniciativa decente? É. É melhor que nada? Na certa. E as camisetas com o logo são lindinhas. Então, pronto.

A atitude complementar a “não resolve” é “não dá pra fazer”. Tudo se resolveria, todos seríamos felizes, daria pra fazer mil coisas maravilhosas se ao menos tivéssemos a) grana, b) tempo, c) o resto do mundo não fosse tão idiota ou d) qualquer outra desculpa.

Caramba, nunca nada conta com condições ideais de temperatura e pressão. Esperar tudo estar a seu favor para se mexer é garantia de imobilidade eterna. Tem algo legal, importante, interessante para fazer? Faça você.

Essa cultura do “não dá” e “não resolve” congela o sangue do nosso povo bronzeado. Caso exemplar: meu papo numa mesa de bar com estudantes de jornalismo, em Bauru, e eles:

– O que falta nessa cidade, pra começar, é uma livraria legal. Ou um sebo legal, livraria é muito caro.

– Por que vocês não fazem?

– Não dá, não tem grana.

– Olha, estou chutando, mas se cada um nessa mesa der 30 reais já, e ficar com um crédito de 40 reais pra daqui a seis meses, vocês alugam um lugar legal e compram uma porrada de livros, CDs e revistas. Ou arrumam um lugar num Centro Acadêmico aí. Divulga nos jornais, algum amigo não tem programa em alguma rádio? Começa e vê o que acontece.

– Ah, é…

E isso um bando de caras inteligentes e espertos, classe média universitária, numa cidade rica, porra. Invasores de Corpos: estamos nos transformando em ervilhas gigantes do espaço!

O Brasil precisa de duas NetAid, a que já existe e outra do espírito. Algo que transforme em show, valorize, estimule a atitude oposta: dá, sim, vamos sair fazendo, vamos correr atrás, faça você mesmo.

E tem gente com fogo no rabo. Nas bancas de São Paulo tem uma revista chamada Simples. É um projeto muito sofisticado e bem-intencionado. Outra nova revista, Velotrol, você pega de graça em bares descolados. É engraçada, bem bolada, tem ataque. Esses projetos (como a Caros Amigos) enfrentam vento contra: recessão, distribuição, alto custo gráfico, bancas superlotadas, a miopia do mercado publicitário com revistas segmentadas. Foda-se. Decidiram não esperar por um mundo perfeito e mandaram brasa.

Na Internet nem se fala. É site de tudo que é jeito, rádio na web, HQ na web, política e putaria na web. De vez em quando até se ganha dinheiro. Aos dezenove anos, um cara chamado Fábio construiu um site muito legal, sobre coisas que realmente gostava. Aos 21, recebe 10.000 reais por mês de um grande portal que comprou a exclusividade desse site. Já tem outros três sites, novas idéias na agulha. Dez paus! Quer estímulo maior para se arriscar?

Se você ainda precisa mais para se inspirar, pode tentar calcular a relação custo-benefício e o impacto institucional de A Bruxa de Blair. Ouvir o programa Garagem, segundas à meia-noite na Brasil 2000 (ou pelo webcasting). Ou pegar em locadoras boas Hype, um documentário sobre a cena musical de Seattle.

Antes de Soundgarden, Nirvana e tal, ninguém em Seattle se arriscava em lançar discos. Os selos locais faziam um compacto a cada seis meses, quinhentas cópias, e tudo bem, porque seus donos tinham outros empregos mesmo.

Até que dois caras que tinham um fanzine e vendiam fitas de bandas independentes pelo correio disseram: “Não queremos ter outros empregos, queremos viver disso, e queremos que as nossas bandas não precisem ter outros empregos, queremos elas na estrada, na Rolling Stone e na MTV”.

Não dava, claro, era um sonho maluco. Mas eles saíram fazendo, fizeram com esperteza, e foi assim que Bruce Pavitt e Jonathan Poneman deram o pontapé inicial na gravadora SubPop, no grunge, na primeira explosão punk americana, em 1 milhão de bandinhas ao redor do planeta.

Ou se espelhe em seu Girz Aronson, 83 anos, dono da G. Aronson. Imigrante russo aos quatro anos, órfão aos doze, rico aos quarenta, inimigo número um dos preços altos durante três décadas, Girz sobreviveu a tudo – até ao Plano Collor e a um sequestro. Acabou dançando na inadimplência do Real, como quase todo o resto do varejo nacional.

Sabe quem Girz Aronson responsabiliza pela concordata de sua empresa? Ele mesmo. Diz que fez besteiras, nunca foi bom para administrar. Vendendo jornal na rua, casaco de lontra para madame e ventilador para a classe C, aprendeu que não importa de quem é a culpa.

Girz fechou as portas de cabeça erguida: pagou mais do que devia a todos os funcionários. E agora? À noite passeia de bicicleta, de dia procura nos classificados novos desafios. Quem sabe um emprego em algum setor de compras por aí, “sempre fui bom para comprar e vender”.

Ele sabe: quem não sai ao mar nunca pega vento a favor.

(Caros Amigos, novembro de 1999)

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6 Comments to “Faça você mesmo”

  1.  antonico | February 19, 2009 @ 6:52 pm

    Acho que as profissões do futuro serão bibliotecário, arquivista e gerenciador de bancos de dados. Quem é que vai filtrar e separar o joio do trigo se todo mundo decidir “do it yourself”? Vivemos uma época estranha todo mundo quer ser o Senna o Elvis,ninguém quer ser o mecânico nem o roadie. Aí fica difícil… Vai chegar um dia em que todo mundo vai estar no palco e ninguém na platéia. Taí uma idéia de peça cabeça Gerald Thomas…

  2.  Emmanoel | February 20, 2009 @ 9:52 am

    Ótimo texto.

  3.  paulo silveira | February 20, 2009 @ 2:07 pm

    Defesa civil alerta para tempestades no vale do paraiba (SP RJ)e regioes proximas durante o feriado.

  4.  Pedro Bronco | February 22, 2009 @ 6:14 pm

    programa Garagem? que piada.

    olha a brodagem aí, gente!

  5.  Érico San Juan | February 24, 2009 @ 2:27 pm

    Li esse texto quando saiu na Caros Amigos. Sempre que eu esboçava imobilidade e resmugos na minha profissão, me lembrava das suas palavras no artigo. Valeu!

  6.  Daniel | March 1, 2009 @ 2:34 am

    É o que mais emputece nesse país. A inércia do brasileiro-padrão é algo simplesmente irritante.

    Um exemplo simplista: sempre olhei para nossos hermanos com uma certa inveja-admiração por serem uma sociedade com um entendimento muito claro de seu poder transformador.

    Brasileiro acha ruim quando dizem que aqui é a terra do futebol e do carnaval, mas quando o bicho pega pra valer sai correndo para pegar o pandeiro.

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