Uma vida Ilustrada: Paulo Francis
Folheio “Pós-Tudo”, o almanaque da Ilustrada. Opinião imparcial, impossível, e provavelmente melhor reservada para mesa de bar.
A Ilustrada foi central minha vida. Meu sonho de adolescente era trabalhar lá. Realizei rápido, meu primeiro emprego, o que me deixou besta - no bom e no mau sentidos.
Quem não viveu sua juventude nos 80 não tem como captar a importância crucial da Ilustrada, muito menos de Paulo Francis. A explicação abaixo é pouco, mas é um começo.
MEUS LIVROS, UM SOFÁ E NADA MAIS
Marcos Chaim me liga de Campinas. Amigo de infância, vizinho, fomos mais ou menos criados juntos. Continuamos tão amigos como sempre – só que agora nos falamos uma vez por semestre. Conta que andou enfrentado Proust, e continua esperando aquela prometida noveleta do Salinger. E me cobra: eu devia escrever sobre livros, os livros que a gente gosta.
Já tem bastante gente fazendo estes textos-lista, name dropping puro, na linha “sou culto e cool”. Mas o Chaim recomendou e, afinal, felicidade é um livro e um sofá.
Tive sorte. Minha mãe me ensinou a ler antes do pré. E meu pai nunca regulou dinheiro para livros. Que eu lembre, a primeira coisa que li regularmente foram os gibis do Batman (leio até hoje). Livro, foi As Caçadas de Pedrinho, numa edição da infância do meu pai.
Levou àquela coleção de capa vermelha do Monteiro Lobato, que ganhei quando fiz sete anos. Aí a Abril estava lançando uma coleção de fascículos chamada Mitologia, sobre a greco-romana. Li com leves censuras maternas – afinal, é meio difícil explicar incesto e patricídio para um moleque de nove anos.
Lembro de passar o primário e boa parte do ginásio lendo livros de aventuras, policiais e ficção científica – Hercule Poirot, Sherlock Holmes, Júlio Verne, H.G. Wells, Tarzan, os livrinhos da Ediouro (Turma do Posto 4, Coleção Monitor). De nacional, lembro bem de Francisco Marins e de O Gênio do Crime. Ficção científica também – Asimov.
No fim da sétima série, aconteceram três coisas fundamentais. Me formei no Yázigi. Começou a chegar gibi americano em Piracicaba. Eu queria muito ler X-Men, Avengers. O inglês começou a deslanchar. E comecei a ler o Paulo Francis.
O Francis me fez. Toda quinta e sábado eu anotava os livros citados por ele na Ilustrada, corria atrás. Percebi o tamanho da minha ignorância. O mundo se abriu, a tempo para a adolescência.
O que eu achava e acho sensacional do Francis é que ele ia da sardinha ao caviar, sem preconceitos e sem compostura. Me apresentou a literatura americana do século 20 – de Hemingway e Fitzgerald a duas de minhas escritoras prediletas, Lilian Hellman e Mary McCarthy, a Gore Vidal e Norman Mailer. Me apresentou Arthur Koestler, Camus, Aldous Huxley, Bertrand Russell, Bernard Shaw (leio Santa Joana todo ano), Anthony Burgess. Mas também adorava policiais e thrillers (Ed McBain, Patrícia Higshmith, Raymond Chandler).
Acompanhei o Francis de 1978 a 1997. Em quase vinte anos, devo ter lido centenas de livros recomendados por ele. Que levaram a outras centenas.
O serviço que ele me prestou não tem preço. As coisas que o Francis desprezava, a Heavy Metal cobria – especificamente, contracultura e ficção-científica. Na primeira metade dos 80, a HM era uma revista de quadrinhos adultos ótima. Tinha uma seção de texto chamada Dossier, punk sem preconceitos, editada por uma figura, Lou Stathis, que morreu este ano.
Lá descobri clássicos da FC (Michael Moorcock, Alfred Bester, Robert Sheckley, Ballard, Philip K. Dick., Duna), hippies malucos (Terry Southern) e então novíssimos talentos (William Gibson, Gregory McDonald, Bruce Sterling).
No colegial trombei com Jorge Luís Borges e Herman Hesse, não sei onde, e com a literatura de esquerda que começava a aparecer no Brasil, principalmente os anarquistas. Li tudo que a Brasiliense lançou no período.
E todos os livros que tinha na minha casa – inclusive aqueles best-sellers legais tipo Morris West e Irwing Wallace. Percebi que era preciso prestar atenção em tudo. Você nunca sabe de onde vai aparecer uma informação fundamental.
Por exemplo: uma revista de arte que meu pai recebia de cortesia tinha um texto sobre Marcel Duchamp e Man Ray que me levou ao livro Dada & Surrealism. Ganhei novos ídolos, aprendi que a sabedoria está onde você a encontra, e nunca esqueci disso.
Em São Paulo, virei rato da Cultura e da Siciliano (quando tinha grana; quando não tinha, sebos). Surpresa: livros importados eram mais baratos que os nacionais. Tracei a coleção Argonauta, John D. McDonald (Travis McGee é o meu herói), Elmore Leonard (o melhor escritor de diálogos vivo), mais Koestler (O Fantasma da Máquina, doidão), mais Burgess, mais Truman Capote, e Salinger, e Norman Mailer, mais de todos os caras que eu já tinha lido. Hunter S. Thompson apareceu num texto do Sérgio Augusto. Muita ficção, algumas biografias (Kim Philby, Timothy Leary).
Tudo que as revistas gringas citavam como legal chequei. Não me formei na ECA, mas devorei sua biblioteca. Só não topo mesmo filosofices (sociologices etc.) e literatura brasileira. Existem alguns caras muito bons (Millôr!), mas o tom geral ou é roceiro (papo de boi com vaca, tô fora) ou é muito metido a intelectual e “artístico”.
Na última década só piorou. Trabalhar me garantiu receita suficiente para comprar todos os livros que der na telha – sempre mais prioritários que comprar roupa, trocar de carro, pagar o condomínio ou almoçar.
Até esse negócio de começar uma editora nasceu um pouco da obsessão pela leitura. Que bateu, claro, nos livros de business. Recomendo o Tom Peters.
Em casa tem pilhas de coisas pra ler no quarto, banheiro, sala, escritório e às vezes até cozinha. No momento enfrento Against The Gods: the Remarkable History of Risk, de Peter L. Bernstein. Mais os suspeitos habituais: Jim Harrison, Guy Kawasaki, James Ellroy, Jonh D. McDonald, Terry Pratchett. Tudo ao mesmo tempo.
Depois da Amazon Books, que vende livros pela Internet, estou perdido. Entro toda semana pra ver se o livro do Salinger já saiu. Mais, claro, os gibis e revistas – outras duas obsessões, mas deixa pra lá.
Espero ficar velhinho logo. Para me aposentar em algum lugar perto do mar e do meu amor, cercado de livros por todos os lados.
(Caros Amigos, setembro de 1997)












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Ana Luisa | January 26, 2009 @ 4:31 pm
Que bacana. Eu tinha uns cinco anos e era doida para aprender a ler logo, para entender as historinhas da Mulher Maravilha (que, para mim, era mais importante do que a minha mãe…). Uns anos depois, também comecei a ler Mitologia Grega, por causa da Mulher Maravilha (ela era filha da Hipólita). E então História virou minha matéria preferida na escola. Prestei vestibular e entrei na faculdade de História (mas não cursei, preferi Direito). E tudo graças aos gibis da Mulher Maravilha…
antonico | January 26, 2009 @ 5:33 pm
Temos algo em comum. Meu primeiro emprego também foi na Folha de S.Paulo. Entrei lá em março de 1987, peguei já aquele desmonte de estrutura onde saíram Tarso de Castro, Pepe Escobar e Paulo Francis e entraram Matinas Suzuki, Gilberto Dimenstein e Marcelo Coelho.Fiquei lá até 93 e depois fui para o Estadão, lá eu conheci o Ruy Castro e aprendi que baixinhos podem usar camisa polo sem parecerem ridículos o problema lá é que do porteiro ao vice-presidente todos são críticos de cinema e achei (e acho) uma coisa muito forçada. Sem querer parecer esnobe mas dos livros que você citou eu li quase todos os que foram publicados no Brasil exceto os do último parágrafo que eu não conheço. Atualmente estou encarando os livros de Haruki Murakami é um cara que mistura cultura pop com história de Japão, se não chega a ser um Thomas Pynchon ele quase chega-lá.
Gostava da sua revista que tinha um nome lindo e provocante “GENERAL”. Com certeza hoje você não conseguiria verbas da Petrobras para lançar um produto com este título. Da Conrad comprei nesse último natal: Valentina,mangás e os livros de arte. Agora “Coleção Baderna” não dá, já tá cheio de pessoas fazendo barulho e sujeiras por aí…
1 A braço !
Zé Chinelão | January 26, 2009 @ 8:35 pm
Também li sou um leitor compulsivo e tenho algumas histórias legais pra contar (em meados dos anos 80, na minha adolescência, eu li Entrevista com Vampiro que emprestei da biblioteca. Eu queria um livro bem pulp, só algum tempo depois descobri que era um livro conhecido). Da lista que você fez eu só tenho uma pergunta. Você nunca leu Stephen King?
tiago candiani | January 28, 2009 @ 11:14 am
12 anos depois, chegou o livro do Salinger?
paulo silveira | February 2, 2009 @ 1:55 pm
legal,nao li 0,1 dos citados,mas colecionava ilustradas velhas que fizeram a alegria das baratas que hoje moram no meu craneo.
citaçao vai comentario vem entrei na arqueologia via mad max e psychobilli,desde entao luto para nao me afogar na maionese e nas horas vagas arquivo material sobre indios da pampa e patagonia e arte rupestre no brasil.
Fernanda D | February 4, 2009 @ 4:16 pm
Meu, sou estudante…e a grana é curtíssima, você não quer me emprestar alguns livros não?! Prometo que os devolvo e no estado físico que me emprestou…principalmente os de business…se tiver estes “hype” de auto-ajuda (saiu o hífen?!), não obrigada! (odeio!)

» 12 anos? Uma bela idade para um single malt e o aniversário da morte de Paulo Francis | February 4, 2009 @ 8:32 pm
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