O caso Casé

A pergunta que mais respondi na vida foi sobre minha expulsão do Folhateen. Fui o primeiro editor do caderno. Saí, voltei anos depois como colunista. Escrevi um texto avacalhando com uma entrega de prêmios, citando celebridades várias, Regina Casé inclusa. O texto foi lido pela editora do caderno e pela secretaria de redação e aprovado para publicação.

Publicado na segunda, a casa caiu na terça. Levei pau dos Titãs, do Ombudsman, e do secretário de redação.

Perdi a coluna. Pouca gente sabe que Regina Casé me processou, e não processou a Folha. Menos ainda sabem que ela ganhou, e a Folha pagou todas as custas do processo e mais a indenização. A Folha não tinha obrigação legal de fazer isso, porque eu era colaborador, não funcionário. Foi uma decisão honrada do diretor de redação.

Nessa ganhei uns inimigos, mas também uma moral que rende até hoje. Já fui muito elogiado pela minha coragem em enfrentar o establishment, a máfia do dendê etc. Não sou tão valente assim, como pode perceber quem ler o texto. Mas elogio se aceita e se agradece.

Outra pergunta que respondi várias vezes: você escreveria de novo aquele texto? A resposta é não. Mas publicaria. Aí está.

 

Nada perdoa a chatice; a festa da MTV foi um grande fiasco

 

 Outro dia, defendi com unhas e dentes a instituição da “Democracia MTV”, pela qual a audiência escolheria o presidente da República usando o esquema MTV. Depois de ver o primeiro MTV Video Music Awards Brasil (VMAs), retiro a proposta.

Tudo bem, a única escolha do público foi a final, os Paralamas do Sucesso, “Uma Brasileira” com Djavan. Uma daquelas músicas chatas que nascem clássicas e vão pentelhar por anos a fio.

O resto das escolhas foi feita por 101 “eleitos” (eu também), baseado em uma pré-lista de selecionados, escolhidos pelas gravadoras.

 

Chatice anormal

Tudo normal, tudo normal. Só não foi nem um pouco normal a chatice da transmissão. Eu ia, perdi o convite na última hora, fiquei meio chateado, mas depois de acompanhar a transmissão pela TV dei graças aos céus. Todo mundo que eu encontrei na sexta-feira passada concordou: o negócio foi chato para cacete.

Quem era aquela apresentadora drag queen? Por que o elenco inteiro da “TV Pirata” estava presente? Por que a MTV escolheu alguém daltônico para fazer o cenário e surdo para escolher a bandinha de coreto?

 

Patriotada pura

Vê bem, jóia e admirável premiar o pop brasileiro, ainda mais com uma certa ênfase para as bandas novas. Mas foi patriotada demais.

Aliás, lembrava muito o velho “Globo de Ouro”, ou mais precisamente o “Cometa Loucura”, onde Lauro Corona e Élida L’Astorino recebiam os luminares do rock carioca da época (Lobão, Barão, Kid Abelha, Marina, Absintho etc.).

 

Panelinhas

Aquela brodagem   toda. Marisa, minha maravilhosa, Malu, absoluta, linda, Rita, perfeita, quem sou eu para apresentar Gil, G-I-L, com caixa alta. E Regina Casé.

Regina Casé pode ser simpática, engraçada, boa gente. E daí? Regina Casé representa as panelinhas mais nefastas da cultura brasileira. Esse país não tem jeito enquanto não derem um tiro na Regina Casé.

 

Premonição?

Pelo menos, não preciso gastar tempo e espaço precioso de jornal explicando por que é hediondo o clipe de “Segue o Seco”, eleito o melhor do ano pelos 101 “eleitos”. Já fiz isso semana passada… poderes premonitórios em ação.

Possivelmente eu esteja me deixando levar pelo meu saco cheio geral com relação à música e à televisão _MTV inclusa, especialmente depois que eles trocaram o Beavis pelo Cazé.

A saída está à vista. Vou comprar um videogame, para poder jogar “Killer Instinct”. E isso que eu nem joguei ainda, só vi as figuras e ouvi a musiquinha.

MTV Video Awards. Valeu, rapaziada, pelas boas intenções, das quais o inferno está cheio.

Como disse um desumano crítico musical sobre o disco final de Cazuza, melhor sorte no ano que vem.

(Folhateen, 1995)

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15 Comments to “O caso Casé”

  1.  Vinícius K-Max | November 3, 2008 @ 9:20 pm

    Forastieri, tu é corajoso.

    E é bem isso aí: não é de agora que a panela, o jabá, o viciado mundo pop e agora a síndrome-dos-moderninhos, fazem da MTV o canal mais patético e vendido do entretenimento musical brasileiro.

  2.  Baxt | November 3, 2008 @ 9:25 pm

    Sobre o texto original: as vezes eu fico bem feliz que os anos 90 acabaram.

  3.  Hoffmann | November 3, 2008 @ 9:47 pm

    Bem isso! Lembro do constrangedor brado de comemoração “Vamos bater lata!” que os Paralamas emprestaram da Fernanda Abreu. Aliás, a impressão que tenho é que de lá pra cá pouca coisa mudou, a não ser a presença tolerada dos emos. E “máfia do dendê” é um termo sensacional!

  4.  João | November 3, 2008 @ 9:51 pm

    quem falou isso do disco do Cajú?

  5.  Fabiane | November 3, 2008 @ 11:22 pm

    Brasileiro é tudo fresco. Qualquer coisinha já estão ofendidinhos, processando todo mundo, tirando sites do ar, e o diabo a quatro.

    Quem dera tivéssemos aqui aquela sessão de piadas em que colocam o presidente na berlinda, zoam com a cara dele até não poder mais, e ele não pode dar um pio.

    Quem dera os jornais brasileiros defendessem claramente sua posição política (direita, esquerda, etc) e largassem mão dessa neutralidade besta que de neutralidade não tem nada.

    Quem dera tivéssemos aqui humor politicamente incorreto de verdade, e não as baboseiras do Casseta e Planeta, cheios de piadas sem graça.

  6.  antonico | November 3, 2008 @ 11:39 pm

    Eu li isso na época. Não mudou muito né ? Hoje a panela é com a turma do rap.

  7.  Biajoni | November 4, 2008 @ 10:20 am

    o rebu todo foi por causa do TIRO?
    o resto tá até light, já li coisas mais agressivas no folhateen, até do insosso do alvaro pereira.
    :>/

  8.  Alvaro | November 4, 2008 @ 5:55 pm

    Os jovens deveriam ler mais essa matéria.
    Deveria ser republicada.

  9.  Plínio | November 6, 2008 @ 11:48 am

    Doamos humor politicamente incorreto para inconformados, rebeldes, amargurados e para quem acha a MTV ridícula em geral.

    Tratar com: http://www.grandesblogsta.com

  10.  Daniel | December 2, 2008 @ 7:13 pm

    Nada mudou desde aqueles tempos, a MTV permanece deitada eternamente em seu berço irrelevante.

  11.  bullittkowalski | December 4, 2008 @ 9:50 pm

    Eu também te processaria, porque passados 13 anos, ninguém, até agora, deu um tiro naquela mocréia!

  12.  A MTV é uma arma - puxe o gatilho | André Forastieri | April 15, 2009 @ 9:47 am

    [...] desde 1995. A última era um Video Music Awards, perdi o convite, assisti parcialmente pela TV, meti o pau e fui expulso da Folha. Espero que esta dê melhores resultados. Mas não resisto a meter o pau na [...]

  13.  luiz young | April 15, 2009 @ 1:50 pm

    Clap clap clap.

    E milagre ainda não ter aparecido a patrulha da patriotada aqui, pra reclamar que você é sectário, etc e tal (é o que falam pra mim quando reclamo de alguma bosta da música nacional).

  14.  Newman | April 17, 2009 @ 3:14 am

    Nossa, tô lendo esse post só agora. Me lembro de ter lido sua coluna sobre o tiro na Casé. Pior é já se passou tanto tempo e a máfia do dendê ainda impera. Só acrescentou algumas figurinhas nefastas à turma.

  15.  ds | April 24, 2009 @ 7:44 pm

    Putz… ” Essa do tiro na Casé ter sido publicado é culpa de teus editores. Muito justo a multa ficar a cargo deles. Acho q carregou no tempero. ahaha

    PS: Ningéum escreveu melhor sobre quadrinhos do que o tio Forastieri, na Folha, no início dos anos 1990.

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