Só para estudantes de jornalismo: meu pré-projeto original para o Folhateen, 1991

Início de 1991, me liga Suzana Singer: quer mudar de emprego e vir inventar um caderno semanal para adolescentes aqui na Folha? 

A idéia era completamente maluca. Não tinha nada parecido no Brasil, uma ou outra coisa do gênero na Inglaterra ou que o valha. Mas a Folhinha era pra criança, a Ilustrada tinha envelhecido e a “escadinha” de entrada de leitores na Folha estava com um degrau faltando. Que eu saiba o projeto inicial foi da Suzana, hoje Secretária de Redação da Folha, e amiga que não vejo faz anos. 

Cutuquei meus chefes na Bizz, onde estava fazia um ano. Me levaram para almoçar, me amaciaram, prometeram muita coisa e cobrir a grana, nada. Queria ir, fui. Sempre troquei de emprego em busca de algo que nunca tinha feito antes.

Na prática fui o primeiro editor do caderno, que já estava batizado (uma homenagem-sacanagem de Álvaro Pereira Jr. com o caderno Folhetim, clássico suplemento literário-esquerdista da Folha) e meio que andando fazia umas semanas, com a turma que fazia a Fovest - Célia Almudena é amiga até hoje.

O Folhateen repercutiu. Quase todo jornal brasileiro abriu espaço para um caderno ou seção teen, ou pelo menos jovem, depois dele. E esses espaços se tornaram escola e refúgio de várias safras de jovens jornalistas bacanas, país afora. 

Fiquei pouco tempo lá e tenho minhas alegrias e tristezas do período. Mas mantenho o orgulho de ter sido o primeiro editor do Teen. Ainda mais lembrando tanta gente talentosa que ocupou o mesmo cargo depois - Bia Abramo,  Noelly Russo, André Barcinski, Ivan Finotti, esqueço muitos. E gente que foi paciente comigo na minha volta ao caderno como colunista de música, como Nina Lemos, Larissa Purvinni e Gabriel Bastos. 

Esses dias revirava minhas velharias e encontrei umas laudas com este fax abaixo. Não fazia idéia que tinha guardado e não lembrava de nada. É meu rascunho de projeto para o Folhateen, de 20 de fevereiro de 1991 - 18 anos atrás. Acho que mais legal do que o que realmente eu fiz.

Provavelmente não interessa para ninguém. Mas em comemoração à maioridade do Folhateen, aí está. 

 

De: André Forastieri

Para: Susana Singer

Assunto: Folhateen

22/02/91

 

 

Susana, desde que pintou a proposta pra ir para aí que eu ando escarafunchando meu cérebro e pesquisando tantas revistas de adolescente quanto possível, de Surfer e Sky e Spin a Capricho, Carícia e Animal.

Acho que cheguei a um mix interessante para o Folhateen, uma combinação de artes, serviços e futilidades que periga dar samba, i.e., ter leitura. Isso, veja bem, não é o meu projeto para o Folhateen: é só um rascunho, que pode e deve ser discutido, repensado ou até mesmo jogado fora (em partes). Aceito sugestões e exijo sua opinião – afinal, foi você que me jogou nessa.

Antes de mais nada, acho que o Folhateen está com textos grandes demais, moleques de dezesseis anos não têm saco para ler muito a não ser que o texto seja uma delícia, e olhe lá. Até os dropes estão grandes! Acho que texto maior que quarenta linhas, só se Jesus voltar para a Terra.

O negócio do Folhateen é fazer o que o Estadão diz que a Folha faz (mas não faz ainda), jornalismo fast-food – porradas de boxes, tabelas, subs, artes, dropes por todos os lados, legendinhas espertas, frases espalhadas, o catso. Fast food news para a geração Big Mac, só que com carne de primeira e queijo Roquefort (baixou o poeta).

 

 CAPA

Pouco a modificar estruturalmente. Minhas duas únicas sugestões são colocar sempre que possível uma enquete entre a molecada a respeito do tema da capa; e transformar a tirinha que fica no lugar do side numa espécie de miniagenda teen da semana, só com as coisas imperdíveis que vão rolar – um campeonato de asa delta, um programão na TV, um superfilme que estréia, o show do Living Colour, whatever.

Quanto a pautas, bem: existem as de serviço, as ousadas, as de comportamento e as de artes-esportes-futilidades. O ideal é misturar tudo. Por exemplo: uma capa sobre aborto deve citar números, dizer qual é a legislação no Brasil e no mundo, falar com gente que fez, ir a um aborteiro, citar os métodos mais seguros de contracepção, dar voz a especialistas e, ufa, falar de gente famosa que fez aborto (Whoopi Goldberg e Greta Garbo, entre outras) – além, claro, de ter um gancho quentinho, um número novo da OMS, por exemplo. Talvez até uma “Cronologia do Aborto”, desde os antigamentes até hoje. O negócio é sempre dar algo que está rolando. Pauta é o que não falta, afinal.

 

 MIOLO

Aí é que a porca torce seu dileto rabinho, porque pensei em coisas demais e não sei se tem espaço para tudo, aliás, sei que não tem. Por isso, vou só te contar minhas idéias e depois um diagramador brilhante vê o que faz com o que restar depois de você limar metade e me falar que eu estou alucinando.

 * “Folhateen Recomenda”: três livros, três discos, três filmes e três vídeos que a redação recomenda. Só o nome, seguido de uma frase. Vai mudando conforme saem os novos lançamentos. Exemplos:

Remasters, Led Zeppelin. O álbum triplo traz o melhor da maior banda de heavy metal de todos os tempos, especialmente remixado pelo guitarrista do Led, Jimmy Page.

 * “Monitor”: uma espécie de “Painel” do Folhateen. Inclui:

Um flash rápido de notícias mais hard (mas não menos próximas do público giovane) do “Brasil” e outro do mundo (rápido mesmo, tipo um módulo 100 cada um). Podem ser editadas como dropes;

Algumas frases da semana (sugiro “Pé de Ouvido”, ou será que é muito retrô?);

“Figura”, uma foto-perfilzinho de alguém que apareceu naquela semana por alguma razão;

“Bronca”, tradicional;

e “Gangorra”, uma listinha de gente ou coisas que subiram e desceram naquela semana.

Além disso, “Monitor” deve incluir (ou pode ser editado perto de) uma seção de opinião, um texto assinado cada semana por uma pessoa diferente sobre um tema quente ou simplesmente muito interessante. Sugiro o nome “Papo-Cabeça”. A seção deve ser editada com um boneco simpático do autor e, a-há! está aberto para os leitores.

Talvez a seção de cartas deva ficar perto do “Monitor”, o que criaria um problema em relação à atual localização das “Parabólicas”. Sei lá. Discutamos a respeito.

 * “Via Satélite” ou “Mondo Mídia”: a versão Folhateen do “Multimídia”. Os principais assuntos da mídia jovem do primeiro mundo. Subseção: “Vem Aí”, com os discos e projetos e filmes que estão sendo planejados, tipo “Robin Williams será Peter Pan no novo filme de Spielberg, Hook, uma superprodução de US$ 45 milhões”. Sacou? Vários dropezinhos do gênero mais gringos, tirados da mídia internationale.

Podemos pensar em acompanhar essa seção de uma carta internacional, talvez em rodízio; Ana Maria Bahiana e Fernando Gabeira cairiam como uma luva no caderno, e acho que eles topariam.

* Novas retrancas. É preciso bolar um esquema rotativo destas seções, porque o espaço é limitado. Algumas iriam nas “Parabólicas”, outras não. “Rádio” é obrigatória, o público das FMs é cem por cento teen. Novidades etc. Acho que “Noite” também é obrigatória. Ela abordaria os melhores lugares para ir, novas casas noturnas com algum diferencial x ou y etc.

Caso a retranca fosse se tornar periódica – mensal, digamos – tenho duas idéias para ela ficar mais completa. Primeiro, duas pessoas, uma famosa e outra não, dizem onde vão à noite e por quê. Secondo, a seção poderia vir acompanhada da parada do DMC-Brasil, ou seja, as músicas mais tocadas nas casas noturnas do país, de barzinhos a discoteconas.

“Esportes”. Chamar de esportes de ação periga cair mal, muita gente não gosta do termo. Mas o assunto é esse, skate-surf-aeróbica-kart-mergulho-etc. Não sei se tem alguém na equipe do Folhateen que saque destas coisas; se não, conheço uma garota na Trip que seguraria a onda como frila.

“Games”. Ainda saem coisas sobre videogames na “Informática”? Se não, a Folhateen deve dar – lançamentos, estratégias etc. Cobre também máquinas legais e/ou diferentes de fliperamas, jogos clássicos (Space Invaders etc.).

“Eco”: Ecologia e meio-ambiente, como reciclar, avanços da ciência, movimentos verdes em geral (como participar) etc.

“Em Forma”: Tudo que disser respeito à saúde e fitness, o que eu pessoalmente acho um saco, mas é uma das neuras centrais da garotada de hoje. Pode ser sub de “Esportes”.

“Túnel do Tempo”. Alguém famoso numa foto de quando era adolescente, talvez comentada pelo próprio. Não semanal, para não ocupar muito espaço.

* Na seção de Educação, não tenho muito o que acrescentar. Minhas principais sugestões são técnicas – menos texto, mais boxes-quadros-listas-artes.

Acho “Redação” jóia, pode ter mais dicas de como escrever bem, que escritores servem como bons mestres etc.

“Poesia” acho um pouco limitante, porque coloca de lado prosistas (proseadores? Checar Aurélio). Sugiro “Poesia & Prosa”, e já tenho uma listinha legal que vai de Shakespeare e Erasmo de Rotterdam a Walt Whitman e Stephen Spender, mais Melville, Chandler, Lilian Hellmann, Oscar Wilde – todos na linha individualista-rebelde.

“Frila” é uma grande sacada. Pode incluir a seção-irmã “Grana”, dando um toque do que fazer para gastar bem ou até investir a grana do frila.

“Século 21”: novidades da ciência, com ênfase para aquelas que se ligam ao cotidiano.

 

CONTRACAPA

Gostaria de ligar a seção de consumo ao perfil, quando possível. Exemplo: vou fazer um perfil do Jim Morrison, enganchado no filme Doors de Oliver Stone. “Consumo” poderia ter discos dos Doors, pôsteres, vídeos, mais botinhas-roupas-colarzinhos-sunglasses como os do Morrison.

“Perfil”, é claro, tem que estar tão ligada quanto possível ao que está rolando, e se meter ao máximo na vida do entrevistado (quando for entrevista, o que espero que seja comum). Além do Morrison, pensei em Stan Lee (a Marvel faz 30 anos em agosto), Danny Elfman (do Oingo Boingo), Axl Rose (no LP novo), Renato Russo, Humberto Gessinger (fazer o quê?), Bono Vox, Roger Corman, Kevin Costner, Frank Miller, Boris Becker, Maurício Gugielmin, William Shakespeare (quando estrear o Hamlet do Mel Gibson), Roberto Carlos (pela ótica da Jovem Guarda), Vanilla Ice (gancho para o estouro do rap), Naomi Campbell, Edgar Allan Poe, Johnny Depp, Annette Funnicello (da “Turma da Praia”), Isaac Asimov, Rita Lee, Zeca Camargo (que está virando popstar, e acho que não é porque ele é colaborador e ex-funcionário da Folha que isso deve ser ignorado) – qualquer herói do momento ou figuração do passado que esteja com um pé no presente naquele momento. Talvez seja o caso de pegar também políticos tipo Suplicy, Walter Feldmann e verdes-liberalóides quetais. Pô, gente é o que não falta.

Por enquanto é só. Assim que pensar em mais bobagens, te aviso. Beijo

FORASTA

Gracias amigos

Amici, não consigo responder os comentários e perguntas no dia. Falha minha mas não vou corrigir tão cedo. Não é falta de educação, é de tempo.

Mas leio tudo e sou eu que aprovo os comentários. Eles me ajudam muito e estimulam uma conversa meio permanente entre as pessoas.

Quando eu era jovem e os dinossauros dominavam a Terra, existia uma coisa chamada carta, e outra chamada seção de cartas. Eu sempre li, desde os gibis da Ebal. Eram o antepassado do Orkut, dos fóruns e companhia.

Recordar é viver, então…

Neto, adoro “Office Space”. É um clássico absoluto sobre a vida corporativa-moderninha, dirigido pelo cara que criou Beavis & Butt-head, o gênio Mike Judge. Tenho uma camiseta com o Arthur e a frase “desculpe, mas acho que você está com o meu grampeador.”

Newman, boa lembrança. “Black Book”, A Espiã no Brasil, é um filmão de Segunda Guerra, a volta aos bons tempos de Paul Verhoeven, diretor de alguns dos filmes que melhor uniram truculência e sátira - Robocop, Total Recall, Starship Troopers.

Elza: se eu gosto de Nirvana? Sim e escrevi várias vezes sobre eles. Não ouço faz muitos anos, mas era uma boa banda e foi muito importante.

Evandro, o UOL não me paga nada para eu blogar.

Elder, valeu a dica do Schwarz. Vou ler o ensaio.

Marina, obrigado por citar meu post. Pra você e pra todo mundo: podem citar e reproduzir onde bem entenderem. É um orgulho para mim.

Amanda, gratíssimo pela dica do Haque. Inspirou um artigo para o Meio & Mensagem e estará aqui na próxima semana.

Amaury, se preciso explicar a piada, acho que foi ruim. Mas não vou explicar mesmo assim.

Beijos do amigo da vizinhança,

Forasta

Pixote Light

Em semana de Oscar, sob o domínio nas bilheterias de “Se Eu fosse Você 2”, vale a pena revisitar “Central do Brasil”. Foi o filme que coroou a retomada do cinema brasileiro: sucesso de público e de crítica, concorrente ao Oscar em duas categorias.

Revi uns pedaços do filme na TV meses atrás e mantenho a tunda abaixo. Hoje eu aliviaria e espinafrada em Walter Salles, que fez bem melhor depois, e não merecia a cutucada pessoal. “Diários de Motocicleta” é um road movie emocionante, e sugere boas chances de um “On the Road” inspirador. Mas ele não deve ter lido, muito menos ficado puto. De qualquer forma, fico bem feliz de pagar meia no Espaço Unibanco para ver meus filminhos - sou cliente desde 1991.

 

PIXOTE LIGHT

No mercado publicitário se diz que existem dois tipos de comerciais de televisão: os para ganhar prêmio em festival e os para vender o produto do anunciante. De vez em quando aparece um comercial que soma as duas funções.

Veterano da publicidade, Walter Salles planejou assim “Central do Brasil”. É uma história universal com apelo “global”. Um filme para emplacar em Berlim, Cannes e Sundance, sustentado pelo populismo estético da telenovela.

Não dá para exagerar a megalomania de um herdeiro de banco que decide ser diretor. Mas o filme provavelmente deu certo além dos mais loucos sonhos de Salles. Concorre a dois Oscars contra a fina flor do mainstream anglófono. E é fenômeno de público no Brasil. Atrai, ao grande circuito, de colegiais a vovós, de moderninhos a casais caretas. Virou um programa família. Minha mulher resumiu: “É um Pixote light”.

Se você não viu, o filme é centrado em Dora, uma professora aposentada. Ela monta barraquinha todo dia na maior estação de trem do Rio, a Central do Brasil. Oferece a transeuntes analfabetos seus serviços de escritora de cartas. Promete enviá-las aos parentes, amantes, amigos distantes. Arranca o dinheiro da peãozada e joga fora as cartas. É uma escroque.

Dora conhece e se envolve com um menino que acaba de perder a mãe. Acaba viajando a contragosto com ele aos cafundós do Nordeste, em busca do pai que o moleque jamais conheceu. No caminho, Dora redescobre sua humanidade, iluminada pela jornada ao lado da criança órfã.

Tema e abordagem miram o coração do espectador em qualquer canto do planeta. É fácil imaginar uma versão italiana dirigida por Giuseppe Tornatore, com o menininho de “Cinema  Paradiso”; japonesa em preto-e-branco com o garoto afastado dos pais pela bomba de Hiroshima; ou afro-americana e chorona, com Oprah Winfrey.

Ao mesmo tempo, “Central do Brasil” é basicamente um especial da Globo, um Caso Especial ou Terça Nobre: atores com formação teatral, verniz de centro-esquerda, trilha orquestral, muita externa e muita “emoção”.

Como qualquer especial da Globo, “Central do Brasil” tem cuidados de produção acima da média do cinema brasileiro atual. O som é audível. A iluminação é profissional. O roteiro tem começo, meio e fim. “Melhor que a média”, claro, não quer dizer grande coisa. O som é audível, mas a trilha de Antônio Pinto e Jaques Morelembaum é água com açúcar. A cinematografia é profissional, mas não vai além de “O Rei do Gado”. E, se a estrutura do argumento é decente, os diálogos são pobres (principalmente a parte do menino) e o roteiro tem buracos maiores que a BR-101.

Quanto ao elenco, Fernanda Montenegro é Dora, ou melhor, Fernanda Montenegro mesmo. Uma mulher inteligente e sofrida, marcada pela vida – você já viu “Eles Não Usam Black-Tie”, certo? A interpretação visceral (para o bem e o mal) passeia por todo o repertório do melodrama, da Madastra Malvada ao Pudim de Lágrimas.

Fernanda Montenegro trabalha bem, como dizem nossas tias. Bem melhor que a desmilinguida Gnwyneth Paltrow, concorrente mais forte ao Oscar. Não vai levar. Os atores americanos, que vão eleger a vencedora, não lêem legenda. Além do mais, como garantiram José Wilker e Arnaldo Jabor no ano passado, a Academia não sabe votar.

Temos ainda Marília Pêra em ponta-clichê como a espevitada do subúrbio; o menino Vinícius de Oliveira; Othon Bastos como um caminhoneiro evangélico que costuma dormir no acostamento da Rio-Bahia (e nunca foi assaltado, deve ser a proteção do Senhor Jesus). Mas o filme é Fernanda Montenegro e um desfile de miseráveis, cuja presença pseudo-realista pretende bancar as puras intenções sociais da produção e é outra chave de seu sucesso fora e aqui.

O miserê de “Central do Brasil” existe em um vácuo social, sem explicação nem responsáveis. Os pobres vivem como vivem porque assim é que é e sempre foi. São o sal da terra: bons selvagens intocados pela alfabetização perversa, andam com fé, sem noção do mundo que os criou.

Funcionou para o público dos festivais gringos, sempre ávido por nativos pitorescos e mundo cão. E funcionou como bálsamo e catarse para a consciência pesada da opinião pública brasileira, que é quem garante a permanência da maior parte da nação no Quarto Mundo. Órfãos do Real, do país do futuro que só existiu para muito poucos por muito pouco tempo, os espectadores de “Central do Brasil” se esbaldam em lágrimas. Como Fernanda Montenegro/Dora, dando as costas para o que não consegue enfrentar, sua humanidade, sua responsabilidade: “Tenho saudades de tudo”.

Filme e fãs se merecem.

(Caros Amigos, março de 1999)

Um caipira na corte

Os Estados Unidos nunca foram tão impressionantes quanto em 1999 - pré-estouro da bolha de internet, 9/11, crise de crédito. E nunca mais serão.

Foi bacana ter presenciado a história. Como foi emocionante estar em Praga em 1988 e ver por todo lado os cartazes divulgando o plano quinquenal, decorados com a estrela vermelha. Tempos que não voltam.

Este foi um dos últimos artigos que escrevi para a Caros Amigos. É um dos meus preferidos, porque é o tipo que mais gosto de ler e de escrever - vai do íntimo à economia à política à arte à tecnologia e tudo de volta e além em dois minutos e quando você viu já acabou de ler, zás-trás.

É difícil fazer isso todo dia. Mas estou aqui pra tentar.

Ah, a oferta do whisky continua valendo.

 

UM CAIPIRA NA CORTE

 

“Esses americanos são uns animais!”, explicou puto o chofer de táxi russo, ex-professor de fagote, ex-integrante da Orquestra Sinfônica de Minsk, levando a gente para comprar bobagem em Westwood, bairro modernoso construído sobre os antigos estúdios da 20th Century Fox.

“Só pensam em dinheiro! Não têm educação! E olha eles ali na academia! Olha a cara daquele”, entortou a boca imitando a bicha suando em bicas na esteira, barbies e bacanas com roupinha de malhação numa academia-aquário se exibindo pros transeuntes, “olha a cara dele – rá-rá-rá-rá!”

Nem 24 horas nos Estados Unidos da América do Norte e já estamos em Máquina Mortífera 5 – papos surreais com personagens bizarros em alta velocidade. Pior que o safado do russo me deixou encanado um mês.

Meu camarada Odair Braz Jr. e eu viemos para participar da E3, a maior feira de entretenimento eletrônico do planeta. A E3 é a melhor torre de observação da América 2001 que um caipira curioso poderia desejar.

Especialmente este ano, fase um da transformação dos videogames no canal central de comunicação do domicílio terráqueo médio. Em um ano, nosso consumo de música, filmes, games e Internet acontecerá em consoles baseados em DVD abaixo de 300 dólares.

Mas nem precisava estar nas internas da próxima revolução do consumo tecnológico. É só andar na rua pra sentir que o século americano vai se estender milênio adentro.

É minha quarta viagem aos Estados Unidos, primeira desde 96. Mudamos, eles e eu.

Chapa de cara como o país está mais rico e mais caro. Pra quem ganha em Real nem se fala. Especialmente vícios, cigarro, álcool, shows, café expresso. Num bar chamado Conga Room, um chapa me pagou sem susto 20 dólares por uma Corona e uma tequila Patrón.

Parece que toda a riqueza do mundo está lá. Arrisca estar mesmo. Qualquer zé ou joe investe na bolsa que não pára de subir, puxada pelas ações ligadas à tecnologia da informação. É um clima de corrida do ouro, de Tesouro da Sierra Madre: todo mundo comprando o máximo de garimpos. Quanto mais chão, maior a chance de ter ouro em algum lugar.

Só que agora o ouro é feito de bits e percepção. E os dividendos são trimestrais.

O resultado é uma exuberância maluca. Os caras não sabem o que fazer com tanto dinheiro. Qualquer iniciativa tem investidores interessados.

Qualquer sikh de turbante e barba de pirata arruma emprego sem Green Card e sem problema. Qualquer shoppingzinho de bairro parece o Museu do Prado. Qualquer minimicrossegmento do mercado está mapeado. Qualquer merda vende, e muito.

Daí o êxodo das periferias econômicas mundiais para os EUA. Os caras mais fodidos do mundo (nos dois sentidos) estão lá ou fazendo as malas.

Todos conscientes de que os Estados Unidos são o endereço certo para fazer fama e fortuna – ou no mínimo defender o doleta da stripper húngara e o leitinho das crianças que ficaram para trás.

Redmond, sede da Nintendo, escancara o processo. Em Redmond vi japonês com mulata e hindu com loira como nunca tinha visto na gringolândia. Natural: a Boeing há muito tempo traz para Redmond os melhores cérebros do mundo, independentemente de credo, cor e bobagens assim.

A Microsoft, que é dona de metade da cidade, idem e além. Em Redmond fica na cara que Bill Gates é a América encarnada. Ambos enviam sinais elétricos opostos ao nosso subconsciente estrangeiro.

A Microsoft, que é dona da metade da cidade, idem e além. Em Redmond fica na cara que Bill Gates é a América encarnada. Ambos enviam sinais elétricos opostos ao nosso subconsciente estrangeiro.

É a mesma reação instintiva aos EUA. De um lado, assombro – o país mais rico, mais poderoso, mais liberal, mais estável, mais tudo. A única megapotência, os únicos com fundos e bala para bancar uma guerra: os EUA pagaram 80 por cento da campanha da OTAN na Iugoslávia. De outro, inveja (por que eles e não nós?) e rancor (quanto do brilho americano foi arrancado do que nos pertence?).

Se você sente a contradição, é caipira – não importa se é amigo do maître do melhor restaurante etíope do Soho.

É possível que você, como eu, tenha de vez em quando a fantasia de ver a “bolha” americana estourar e os ianques caírem de cara na mesma merda em que o resto de nós vive. Uma távola rasa que desopilaria o fígado do planeta.

Mas claro que no nosso senso de responsabilidade e realismo vive a verdadeira Ameaça Fantasma. Se a bolha estoura, vai respingar em quem? Será que a gente gostaria mesmo de viver num mundo em que a América é uma potência decadente? Quem ocuparia este vácuo de poder?

Matutando e minhocando essas e outras fui ver ao vivo em Nova York o trabalho de um ídolo, Marcel Duchamp. Foi iluminador. Nunca tinha percebido que ele é o pai da Nova Economia. E portanto santo padroeiro da América 2001.

Duchamp criou há oitenta anos o conceito de ready-made, quando mandou um urinol para uma exposição de arte. A ação estabeleceu que um urinol numa galeria de arte gera um efeito estético (e de valor) diferente no espectador/consumidor do que o mesmo urinol no banheiro de um botequim.

Ready-made: a idéia de que o indivíduo (eleito ou auto-eleito) torna arte aquilo que escolhe como arte (e não aquilo que produz). Pense um pouco: se Bill Gates anunciar amanhã a compra da Editora Casa Amarela, que efeito isso teria na Caros Amigos? E no mercado editorial brasileiro? E na Microsoft? E em você? E se fosse, hmm, a Abril e não a Microsoft? (A melhor resposta em no máximo vinte linhas ganha um Johnny Black doze anos.)

“Animais!”, continuou nosso amigo russo, rindo e esbravejando e sacaneando os americanos e explicando que eles são uns brucutus toscos e obcecados por dinheiro. “E eu também! Só trabalho, durmo, como, trabalho, mando dinheiro para a família! Terrível! Barbaridade! Pior que esses cretinos acham que todo mundo gosta deles só porque eles nadam em dinheiro. Nada! Todos os países do mundo odeiam a América!”

Uns quarteirões depois, paramos em frente a uma bilheteria de cinema. Na calçada, a fina flor universitária da Terra. E um hippie gordo trajando mantos Jedi.

Relaxado, o homem de Minsk se despediu. “Bom, agora podem me levar em cana… vocês são da Imigração, não são, ou do FBI? Rá-rá-rá! Estão gravando tudo que eu disse, não é?!”

Eu estava.

(Caros Amigos, julho de 1999)

Oscar e eu

Era minha missa do galo. Eu assistia o Oscar custasse o que custasse, umas duas décadas seguidas. Não fui eu que abandonei, foi ele. Quando mudou de segunda pra domingo. Domingo à noite não vejo TV.

Perdi umas boas de lá pra cá. Me poupei umas chatices também. Mas minha principal razão para além de não ver, não acompanhar mais o Oscar - previsões antes, comentários depois - é que ele ficou carne de vaca. Hoje tem uns duzentos prêmios diferentes, todos com direito a tapete vermelho antes, superstars etc. E quem estava vestindo o quê dá mais assunto dos que os filmes.

Esse ano fui pego de emboscada. Ontem zapeava e soube da vitória de Danny Boyle, Kate Winslet, Heath Ledger, Penelope Cruz e companhia. Hei, americano não ganha mais Oscar? OK, não dá pra ser mais ianque que Sean Penn.

Ledger, vai desculpar, até Reynaldo Gianecchini mandaria bem de Coringa, o personagem é a prova de erro, e o filme é uma bobagem. Mas Danny Boyle, bacana, ninguém é valente como ele - que outro diretor se mete a fazer terror podre, musical maluco, ficção científica hardcore, humor negro, drama doído?

E minha Kate, fiquei feliz. Não vi nenhum destes filmes dela que concorriam, mas sou louco pela moça desde “Almas Gêmeas”, dezessete anitos, gordeta e letal. É sensível, esforçada, pé-no-chão como só atores ingleses sabem ser, e sexy as hell.

Quando uns meses atrás ela me provocou da capa da Vanity Fair, de puta chic, Catherine Deneuve em A Bela da Tarde, e mandou “You bet your fucking ass I want an Oscar!”, ficou na cara que o Oscar era dela. Não dá pra falar mal de uma noite  que premia Kate e Penelope Cruz, certo?

Operação Valquíria

“Operação Valquíria” é um thriller de segunda guerra, como se faziam as dúzias nos anos 60 e 70, e melhor - “O Desafio das Águias”, “O Buraco da Agulha”, “Cruz de Ferro” etc. A única novidade é que não se faz mais esse tipo de filme, ou não se fazia. Se nos últimos vários anos a Segunda Guerra só rendeu dramas lacrimosos, agora os nazistas retomam seu lugar de direito: o de vilões máximos do cinema.

Peguei o finzinho da onda, início dos 70. A chateação toda da guerra estava longe, e os vitoriosos (mais os britânicos que os americanos) criaram uma verdadeira indústria de livros, gibis, filmes, seriados etc. James Bond, para quem não leu os livros, é um veterano da marinha britânica.

Filme era toda hora. Mas eu também tinha soldadinhos da Segunda Guerra (americanos, verdes, aqueles de Toy Story), um tanque Sherman, aviões Revell (Zero!), lia Sargento Rock e gibis da LaSelva, assistia Combate! e Os Guerrilheiros (Garrison’s Gorillas, alguém lembra?) e curtia escondido os pockets do meu primo Ulisses com as peripécias eróticas de Giselle Montfort, “a espiã nua que abalou Paris”.

Foi marcante para quem viveu, e muita gente boa fez sua carreira criativa revisitando essas obsessões infantis com armamentos pesados e argumentos leves, carnificina e humor negro.  O irlandês roteirista Garth Ennis, mais conhecido por Preacher, praticamente vive de brincar de soldadinho, e manda muito bem - uma dos meus objetivos para 2009 é acabar de ler a obra completa deste proleta boca-suja, que não é pequena.

Bryan Singer, diretor de “Operação Valquíria”, está tão longe de Ennis quanto possível. É adotado, foi criado por pais judeus, é disléxico, classe média, trekkie, gay e politicamente correto. Nada disso é um problema e às vezes foi vantagem. Nos dois primeiros “X-Men”, que tratam justamente de como minorias devem reagir a perseguições, com certeza.

Singer não é lá grande coisa como diretor de ação, mas sabe trabalhar com roteiristas decentes, tem bom olho para direção de arte e fotografa gente bonita com tesão. Fez uma coisa rara: emplacou um símbolo sexual  que agrada homos e heteros - Hugh Jackman como Wolverine.

“Operação Valquíria” tem um lado raso de épico-histórico-genérico-com-Tom-Cruise, tipo “O Último Samurai”. E tem um lado homoerótico e politicamente provocante que torna o filme mais estranho, e portanto mais interessante.

O fime paga pau para a beleza, elegância e pureza de sentimentos dos super-heróis da mãe Alemanha - os milicos nazistas. Eles são fetichizados em cada take. Tanto os que querem matar Hitler como os que o protegem. Podres e disformes são os políticos dos dois lados, ou os generais que já pelegaram. 

Tom Cruise, fazendo o conde aristocrata que vira coronel da Wermacht e por fim comanda o golpe contra Hitler, dá o tom - sempre na estica, impassível e pronto para morrer, um super-homem nietschiano. A presença de Terence Stamp como líder da rebelião é lembrança constante do subtexto sexual da história, pelo menos para os coroas que assistiram “Teorema”. É a glorificação do guerreiro, do músculo, da obediência, do sacrifício. É o ubermench. É Wagner. É “As Valquírias”. É meio gay. 

Combina com o tema, claro. E como cinema é uma arte visual, e pouca diferença faz o que os atores dizem, prevalece a sensação de que  Singer é encantado com a estética do nazismo. O que talvez não fosse a intenção consciente do diretor. E talvez fosse, o que seria uma abordagem fantasticamente sofisticada, e provavelmente é viagem minha.

O problema é que um thriller tem como missão crítica agarrar pelo estômago e gelar a espinha. “Operação Valquíria” é tépido, pecado sem perdão. Somado a “Superman Returns” - com um herói passivo no limite da bundamolice - já são duas boas razões para eu não apostar mais em Brian Singer.

Agora torço para Joe Johnston fazer um Capitão América decente, e para a dupla Brad Pitt-Quentin Tarantino fazer o sangue correr em “Inglourious Basterds”. Die nazi scum!

Faça você mesmo

Eu acredito muito:

- no DNA do punk: DIY, “do it yourself”, faça você mesmo.

- no poder  turbinante / empoderante/ revolucionário da tecnologia digital.

Desde o primeiro dia que li a palavra cyberpunk, na revista Heavy Metal, 1983, me apaixonei. A vida fez instantaneamente mais sentido. Não fazia idéia que todos viveriamos no cyberspace em 2009, claro.

O Fábio citado abaixo é o Yabu. Na época, fazia uma HQ na web, das primeiras do Brasil: Combo Rangers. Fez muita coisa depois disso. Entre elas, criou As Princesas do Mar, que - incrível! impossível! inédito! - de livro fofo viraram franquia e série animada exibida mundo afora (aqui, diariamente no Discovery Kids). 

E apesar de tudo continuo encontrando gente que está esperando as coisas acontecerem. 

Vão continuar esperando.

 

FAÇA VOCÊ MESMO

Ou se transforme em uma ervilha gigante do espaço

 

NetAid é um projeto megalomaníaco. Começou com um supershow bacana em três estádios, com gente tipo Bono do U2 e David Bowie, transmitido pela Internet. O objetivo final é nada menos que mudar o mundo. Transformar o acesso à informação em um direito, e não um privilégio, e com isso acabar com a fome, ajudar refugiados, proteger o meio ambiente, ganhar a guerra contra a miséria e zerar a dívida dos países pobres com os ricos.

A fundação NetAid dá uma cara esperta e rebelde para 74 organizações diferentes. Famosas, como Médicos Sem Fronteiras e Greenpeace. Pequenas como Grassroots International, que entre outras coisas paga advogados para o MST no Maranhão.

Ou pequenas e famosas, como Drop the Debt-Jubilee 2000, que busca aliviar a dívida externa dos países em desenvolvimento. Graças aos seus esforços, o G8 cancelou 100 bilhões de dólares de dívida de países miseráveis. (E o Brasil não entra nessa? Entra. Fale com Marcos Arruda, (21) 252-0366 ou pacs@ax.apc.org.)

É facílimo descartar qualquer coisa desse gênero com um “ah, isso não resolve as coisas de verdade”. É uma atitude nojenta e cretina. NetAid é a salvação da lavoura? Não. Não existe salvação da lavoura. Não tem esse negócio de gritar Shazam e o Capitão Marvel chega para resolver tudo.

É uma iniciativa decente? É. É melhor que nada? Na certa. E as camisetas com o logo são lindinhas. Então, pronto.

A atitude complementar a “não resolve” é “não dá pra fazer”. Tudo se resolveria, todos seríamos felizes, daria pra fazer mil coisas maravilhosas se ao menos tivéssemos a) grana, b) tempo, c) o resto do mundo não fosse tão idiota ou d) qualquer outra desculpa.

Caramba, nunca nada conta com condições ideais de temperatura e pressão. Esperar tudo estar a seu favor para se mexer é garantia de imobilidade eterna. Tem algo legal, importante, interessante para fazer? Faça você.

Essa cultura do “não dá” e “não resolve” congela o sangue do nosso povo bronzeado. Caso exemplar: meu papo numa mesa de bar com estudantes de jornalismo, em Bauru, e eles:

– O que falta nessa cidade, pra começar, é uma livraria legal. Ou um sebo legal, livraria é muito caro.

– Por que vocês não fazem?

– Não dá, não tem grana.

– Olha, estou chutando, mas se cada um nessa mesa der 30 reais já, e ficar com um crédito de 40 reais pra daqui a seis meses, vocês alugam um lugar legal e compram uma porrada de livros, CDs e revistas. Ou arrumam um lugar num Centro Acadêmico aí. Divulga nos jornais, algum amigo não tem programa em alguma rádio? Começa e vê o que acontece.

– Ah, é…

E isso um bando de caras inteligentes e espertos, classe média universitária, numa cidade rica, porra. Invasores de Corpos: estamos nos transformando em ervilhas gigantes do espaço!

O Brasil precisa de duas NetAid, a que já existe e outra do espírito. Algo que transforme em show, valorize, estimule a atitude oposta: dá, sim, vamos sair fazendo, vamos correr atrás, faça você mesmo.

E tem gente com fogo no rabo. Nas bancas de São Paulo tem uma revista chamada Simples. É um projeto muito sofisticado e bem-intencionado. Outra nova revista, Velotrol, você pega de graça em bares descolados. É engraçada, bem bolada, tem ataque. Esses projetos (como a Caros Amigos) enfrentam vento contra: recessão, distribuição, alto custo gráfico, bancas superlotadas, a miopia do mercado publicitário com revistas segmentadas. Foda-se. Decidiram não esperar por um mundo perfeito e mandaram brasa.

Na Internet nem se fala. É site de tudo que é jeito, rádio na web, HQ na web, política e putaria na web. De vez em quando até se ganha dinheiro. Aos dezenove anos, um cara chamado Fábio construiu um site muito legal, sobre coisas que realmente gostava. Aos 21, recebe 10.000 reais por mês de um grande portal que comprou a exclusividade desse site. Já tem outros três sites, novas idéias na agulha. Dez paus! Quer estímulo maior para se arriscar?

Se você ainda precisa mais para se inspirar, pode tentar calcular a relação custo-benefício e o impacto institucional de A Bruxa de Blair. Ouvir o programa Garagem, segundas à meia-noite na Brasil 2000 (ou pelo webcasting). Ou pegar em locadoras boas Hype, um documentário sobre a cena musical de Seattle.

Antes de Soundgarden, Nirvana e tal, ninguém em Seattle se arriscava em lançar discos. Os selos locais faziam um compacto a cada seis meses, quinhentas cópias, e tudo bem, porque seus donos tinham outros empregos mesmo.

Até que dois caras que tinham um fanzine e vendiam fitas de bandas independentes pelo correio disseram: “Não queremos ter outros empregos, queremos viver disso, e queremos que as nossas bandas não precisem ter outros empregos, queremos elas na estrada, na Rolling Stone e na MTV”.

Não dava, claro, era um sonho maluco. Mas eles saíram fazendo, fizeram com esperteza, e foi assim que Bruce Pavitt e Jonathan Poneman deram o pontapé inicial na gravadora SubPop, no grunge, na primeira explosão punk americana, em 1 milhão de bandinhas ao redor do planeta.

Ou se espelhe em seu Girz Aronson, 83 anos, dono da G. Aronson. Imigrante russo aos quatro anos, órfão aos doze, rico aos quarenta, inimigo número um dos preços altos durante três décadas, Girz sobreviveu a tudo – até ao Plano Collor e a um sequestro. Acabou dançando na inadimplência do Real, como quase todo o resto do varejo nacional.

Sabe quem Girz Aronson responsabiliza pela concordata de sua empresa? Ele mesmo. Diz que fez besteiras, nunca foi bom para administrar. Vendendo jornal na rua, casaco de lontra para madame e ventilador para a classe C, aprendeu que não importa de quem é a culpa.

Girz fechou as portas de cabeça erguida: pagou mais do que devia a todos os funcionários. E agora? À noite passeia de bicicleta, de dia procura nos classificados novos desafios. Quem sabe um emprego em algum setor de compras por aí, “sempre fui bom para comprar e vender”.

Ele sabe: quem não sai ao mar nunca pega vento a favor.

(Caros Amigos, novembro de 1999)

O que o Google faria, parte 1

Experiência: em vez de ler um livro todo e tentar resumir aqui em três parágrafos, vou lendo e postando o que me chama mais atenção.

Justamente porque o livro começa com um chavão da internet - “Mercados são conversas”, de “The Cluetrain Manifesto”, 2000 - é que resolvi fazer isso. A idéia é começar uma conversa sobre o assunto, que pode durar semanas ou o tempo que for.

É, não é um thriller emocionante que você não consegue largar. É “What Would Google Do?”, de Jeff Jarvis, jornalista de que sou fã desde que fundou e editou a Entertainment Weekly. A revista foi fundamental para minha formação como editor: estreou em 1990, justamente quando assumi a Bizz.

A nova geração conhece mais Jarvis como o cérebro por trás do Buzzmachine.com, um dos blogs mais respeitados sobre internet e comunicação. É, enfim, um figurão da nova mídia, professor, palestrante etc.

Para começar, Jarvis diz que parece que nenhuma empresa, executivo ou instituição realmente entende como sobreviver e prosperar na era da Internet. A não ser o Google. Então, é fundamental nos perguntarmos o tempo todo: para enfrentar este ou aquele desafio, o que o Google faria?

O livro tenta identificar:

a) as novas regras da vida e dos negócios, segundo entendidas pelo Google

b) como essas leis podem ser aplicadas em diferentes empresas, indústrias e instituiçnoes

c) como o que ele chama de “Googlethink” está afetando as vidas e o futuro do que chama de “Geração Google”.

O pressuposto: há uma nova estrutura de poder no mundo, em nossa economia e sociedade, em que nós, os povos, repentinamente, estamos no comando - empoderados pelo Google.

É?

Faça o quiser, essa é a lei

De vez em quando chega um email perguntando se pode me citar em outro site, postar meu texto inteiro em outro blog etc.

Faça o que quiser. Não vou encher ninguém e fico muito feliz. Só não esquece de dizer que fui eu que escrevi. Eu não me importo de ficar sem crédito, mas pode pegar mal pra você.

Aproveito para avisar que eu também estava querendo fazer uma coisa e fiz. 

Você viu aquela barra do UOL lá no alto? 

Pois é. Os malucos lá me convidaram para o blog fazer parte do UOL. Não têm noção de nada, esses moços.

Bacana, porque automaticamente mais gente vai ter contato com o blog. Eu sou do tempo que quantidade importava.

Bacana também, porque entrando nessa nova fase, me sinto obrigado a acelerar a velocidade de publicação de textos inéditos aqui.

Pretendo, não prometo, um novo texto por dia. Não um post de duas linhas com vídeo, foto etc. Um artigo (por menor que seja) que inclua uma idéia (por pior que seja).

As relíquias continuarão, claro.

Até agora eu me sentia meio que batendo um papo com amigos, gente que me leu no passado, ou a quem fui recomendado. Agora vai chegar gente desconhecida na festa

Welcome, my friends, to the  show that never ends…

Para ler preguiçando no Carnaval

Se você pula Carnaval, pule. Se você é jovem, atenção: pode ser seu último verão.

Se não, há que ler. Recomendo “O Direito à Preguiça”, de Paul Lafargue, que defende entre outras coisas boas a jornada de três horas diárias. Leitura obrigatória, melhor digerida no balanço de uma rede.

Comunista crioulo, mestiço de francês, africano e índio caraíba, Lafargue se meteu em muitas e boas. Sangrou na Comuna de Paris, brigou com Bakunin (ninguém é perfeito) e casou com a filha de Karl Marx, Laura.

Em 1911 entregou-se ao ácido cianídrico junto com sua mulher, “antes que a impiedosa velhice… quebre minha vontade, fazendo de mim um peso para os outros e para mim mesmo”.

Com a palavra, Lafargue: “Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de toda degeneração intelectual, de toda deformação orgânica… o proletariado, traindo seus instintos, desconhecendo sua missão histórica, deixou-se perverter pelo dogma do trabalho. Duro e terrível foi seu castigo. Todas as misérias individuais e sociais nasceram de sua paixão pelo trabalho”.

E isso é só o começo do livro…


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