Catarina e Katrina
No Jornal Nacional de sexta, pretos e pobres se fodendo. Você sabia que tinha tanto preto em Santa Catarina?
Nos desastres naturais, pagam sempre os mais pobres e pretos. Nada de natural nisso.
Ecos de New Orleans.
No Jornal Nacional de sexta, pretos e pobres se fodendo. Você sabia que tinha tanto preto em Santa Catarina?
Nos desastres naturais, pagam sempre os mais pobres e pretos. Nada de natural nisso.
Ecos de New Orleans.
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Querida Angélica: Fui ver o show que você fez lá no Projeto SP. Tenho que confessar que nunca tinha visto um show seu, nem ouvi seus discos. Nem o Clube da Criança eu vejo, porque eu trabalho e não dá tempo e além disso eu não gosto nem dos desenhos que você passa e nem do Jaspion. Sabe por que eu fui ver o seu show? Porque eu sou jornalista. Escrevo sobre música e portanto todo mundo que vende muito e está se tornando uma estrela me interessa. Também fui ver seu show porque nunca entendi bem a razão do seu sucesso. Você é bonita, mas não é sexy. Não sabe cantar - sem ofensa, é só uma constatação. Tua voz é pequenininha, nas gravações ela é sempre multiplicada e melhorada. Eu ouço música para caramba, lembra, reconheço uma voz tratada quando ouço uma. Você também não dança muito bem - apesar de pular bastante como uma menininha. Aliás você fala como uma menininha, faz caretas e tudo como se fosse uma piveta. Só que você não é, né? Você já tem dezesseis anos. O John Lennon já tinha uma banda com essa idade. O Sid Vicious entrou para os Sex Pistols com dezessete. Os caras do De La Soul são pouco mais velhos que isso. Eu quando tinha dezesseis anos matava aula com meus amigos repetentes para ouvir Clash. A coisa que eu mais queria era crescer e virar dono do meu nariz o mais rápido possível. Você parece encanar que é uma versão loirinha do Peter Pan, que não queria crescer. Aí eu estava sentado lá no Projeto SP e fiquei pensando sobre você, o seu sucesso e o seu show. Não gostei muito dele, não, achei que faltava ritmo - pô, toda hora tinha interrupções para você falar com as crianças e cada vez que você ia trocar de roupa demorava um tempão e aquele cara vestido de macaco eu achei muito metido a gostosão e pentelho. Do que mais eu não gostei? Daquele cenário com umas rosas vermelhas, era muito brega. A iluminação era legal e o playback estava bem gravado, as suas músicas são super bem arranjadas, bem pop, lembram um pouco o que aqueles produtores ingleses da Kylie Minogue fazem. Também gostei das suas roupas, principalmente daquele conjuntinho de couro preto e PVC, com as meias de rede e a capa vermelha. Só não entendi por que você escolheu ele para cantar aquela versão de “if”, que eu não ouvia desde os tempos de bailinho. Também adorei aquele momento anos 50, você de peruca bolo-de-noiva e vestidinho branco (sem sutiã por baixo, notei, mas não se preocupe que não dava para ver nada). O principal problema do teu show, das tuas músicas e da tua imagem, Angélica, é que esse charme infantil vai durar muito pouco. Em três anos você já vai ser uma mulherona, e não tem nada mais ridículo que gente grande fazendo beicinho. No seu estágio atual, você está fazendo sucesso porque é bem moderna - no sentido que o Milli Vanillí é moderno. Mas, se você quiser que sua carreira tenha um futuro, tem de tomar umas providências. Primeiro, aprenda a cantar - se a Madonna conseguiu, você também consegue. É o que a Patrícia, que é esperta, fez. Dois, pára de trabalhar tanto e vive um pouco. Sei que você tem uma empresa para sustentar, mas invista um pouco no teu lazer senão você acaba maluca e vazia que nem o Michael Jackson. E três, que tal se apaixonar logo? Agarra o primeiro menino que te interessar e arrasta ele para a cama. Sem experiência não se chega a lugar nenhum - e isso incluí e exige experiência sexual e afetiva. Nada como apanhar um pouco da vida para perder o excesso de açúcar. Se você cair na vida, pode muito bem se tornar uma estrela pop de primeira. Se insistir em ser criança para sempre, vai passar como passam todas as modas. Boa sorte e beijos do teu possível futuro fã, ANDRÉ FORASTIERI (Bizz, 1990) |
Nada é mais hipnotizante que se dar bem logo de primeira. A gente se sente invulnerável. E fica impossível.
Mais danoso para sua saúde mental (e emocional e financeira) do que ser um sucesso logo na primeira tentativa, só estourar de primeira e nunca mais fazer nada tão bom.
Modéstia às picas, cheguei chegando. Meu primeiro emprego foi como repórter da Ilustrada, aos 23 anos. Em duas semanas assinava matéria. Em dois meses tinha uma coluna semanal de quadrinhos. Minhas matérias faziam um bom esparramo.
Comecei meu primeiro negócio com 28. Pra todos os efeitos encerrei minha carreira de jornalista ali. Nunca mais vivi de escrever. Tinha certeza total que ia detonar. Me fodi de cara e bonito.
De lá pra cá foi uma montanha russa – superaltos e superbaixos, sempre em alta velocidade. Nunca me arrependi – nah, me arrependi quinhentas vezes, de quinhentas coisas… e do que mais me arrependo foi quando pequei por hubris, por presunção excessiva e descuidada.
Mas aprendi muito. E nos anos grisalhos sei bem mais que no meus anos dourados.
Mais azarado foi meu contemporâneo William Bruce “Axl Rose” Bailey. Três anos mais velho que eu, a banda de Axl estourou quando eu começava (e foi a estrela da minha segunda capa da Ilustrada, ainda em 88).
Mas deu muito azar. O Guns N’Roses não só estouraram instantaneamente. Eles deram seu melhor de cara. Sua música mais poderosa, sua balada mais apaixonada: “Welcome to the Jungle” e “Sweet Child O’ Mine”.
Tudo que veio depois foi menor, pior e desnecessário. Como o novo disco de Axl, que acabo de ouvir neste instante e nunca mais ouvirei, apesar das surpresas agradáveis. Não é uma paródia de “Appetite for Destruction”, não é uma peça de marketing e tem canções quase memoráveis - uma boa, a última, a “Prostitute”. Todo mundo que estoura de cara corre o risco de virar puta de si mesmo.
Mas se a hubris é risco de maldição, pior é a certeza da rendição. O show tem que continuar, e entre se entregar à la Kurt Cobain, sou mais meu velho chapa, dona baleia branca, que depois de todos esses anos recolhido dá a cara pra bater. Welcome (back) to the jungle, man…
(encomenda do amigo Bruno do Amaral, 27/11/2008)
Junho de 93, e a capa da Bizz caiu a dias do fechamento. Nem lembro o que era. Salvação: meu chefe negocia com a gravadora do U2 uma audição do novo disco. Toca eu para o Rio no dia seguinte, bate-volta. Numa sala fechada na BMG ouvi sozinho Zooropa, duas vezes, anotando feito louco e copiando todas as informações do encarte, e voltei para São Paulo.
Saiu este texto abaixo, parido em duas tardes, capa da penúltima Bizz que editei. Foi inspirado por Neal Stephenson e pela leitura religiosa da Wired, minha bíblia na época. Usa o U2 para falar do que me interessava naquele momento e prefigura os próximos passos do autor - a saber, pedir demissão para começar minha própria revista, editora, negócio, vida adulta.
Eu não lia isso desde aquela época. Não lembro de onde tirei tanta informação. Não acaba de repente, não - é que a resenha do disco vinha num box, sob o título “Apocalipse Experimental”.
Enfim, está aqui com título e olho e tudo, que pega mais o clima.
Curioso: neste texto em que a internet é a principal personagem, nenhuma vez aparece a palavra internet. Nem web, claro. A web ainda não tinha sido criada.
God, I’m old.
ALÉM DA IMAGINAÇÃO
Bono travestido? O U2, grande bastião do “rock visceral”, produzindo hits
para discotecas? Uma banda católica, posando ao lado de modelos seminuas? O
U2 está passando por uma mutação surpreendente - mas agora Bono & Cia.
Radicalizaram definitivamente seu trabalho, com um disco ousadíssimo. André
Forastieri tenta entender o que se passa com esse mundo muito estranho e sua
maior banda de rock
Estamos no amanhecer de um novo mundo - onde estaremos todos conectados via
fibra ótica, brigando e se amando e aprendendo e votando e transmutando a
maneira como nossos cérebros funcionam e principalmente, antes de mais nada,
comprando (o shopping-orgasmo, além dos nossos mais desvairados sonhos,
agora ao alcance de seu controle remoto).
Enquanto isso, milhões apodrecerão de fome e Aids e mediocridade e analfabetismo tecnológico. Velhos conflitos, novos problemas, soluções efêmeras - cada vez mais rápido e mais na sua cara.
Um grupo de rock formado por quatro irlandeses está firmemente convencido
de que cabe a eles compor a nova trilha sonora, catalisar os beats pelos
quais todo o planeta dançará. Mais que isso, eles querem articular esse
universo fragmentado de mudanças contínuas de maneira artística e militante.
Criar pontes de compreensão e comunicação.
Estar ali, na fronteira do futuro. Surfar na Terceira Onda.
O disco Achtung Baby e sua simultânea Zoo TV Tour já tentavam estabelecer
as novas regras do novíssimo jogo. Que não basta fazer música - é preciso
participar! - já era um dado fundamental no histórico do U2 (é bom lembrar
The Commitments: a Irlanda está para a Europa como os negros blueseiros para
a América W.A.S.P.). Mas agora Bono Vox, The Edge, Larry Mullen e Adam
Clayton redefiniram seu conceito de militância.
O que está mudando o mundo, diz muita gente e eles acreditaram, não é votar
nos partidos de esquerda (left is right) nem militar nos sindicatos
(aparelhos obsoletos) nem fuzilar nossos governantes (primeiro porque eles
serão substituídos por gente tão bunda quanto e segundo porque só estão
fazendo seu trabalho: administrar aos trancos e barrancos as ruínas da
sociedade industrial).
Não, o que está mudando o mundo é - um, dois, três -
a tecnologia. Todo mundo sabe: na virada do milênio, o que passa na
televisão passa por realidade. A popularização do controle remoto tem mais
peso político que os conchavos dos engravatados - e a explosão da
interatividade fará de cada consumidor parte de uma rede global de
conhecimento, informação, atuação e consumo.
O indício mais óbvio deste novo
mundo está nas nossas caras: a MTV (uma vitrine empastelante criada única e
exclusivamente para vender discos!) se tornou um instrumento político
fundamental. Por que você acha que Clinton se elegeu?
É outro jogo, com outras regras e o divertido é que o próximo estágio do
capitalismo tem suas regras na música e na cultura pop. O U2 sacou que este
mundo novo é tão filho dos investimentos em tecnologia, que o Pentágono
bancou nos anos 80, quanto do LSD. Tão ligado ao marketing de guerra quanto
ao espírito empreendedor da cultura punk.
Economistas hardcore, samurais corporativos, futurólogos governamentais -
todos concordam numa coisa: estamos passando de uma sociedade industrial
para uma sociedade informacional, em que o principal capital será o
conhecimento. O setor estratégico da economia mundial, dizem os experts,
passa agora a ser uma interface entre telecomunicações, informática e
entretenimento. Tanto que criar uma “auto-estrada informacional” virou
prioridade do governo americano.
Que esse futuro já está às nossas portas é consenso. Não tão divulgadas são
as conseqüências nefastas que essa mudança radical trará. A recessão não vai
acabar. Quem ficar fora deste processo evolutivo/tecnológico estará
destinado ao desemprego crônico. Os pobres continuarão ficando cada vez mais
pobres, os ricos cada vez mais ricos. As rivalidades nacionais/ tribais
continuarão esquentando - a coisa vai do neonazismo incendiando turcos na
Alemanha unificada ao separatismo brasileiro. O que, mais uma vez, mexe com
o âmago do conceito U2 - a bronca, a militância, a luta contra a injustiça
(é careta? Pode ser, mas também é fundamental).
Como dizia Norman Mailer nos anos 60, “vem uma tempestade de merda por aí”.
Você pode ver isso como os últimos espasmos da civilização, ou como as dores
de parto de um mundo novo e interessante. Descobrir de que lado deste muro
você está é a grande questão político/cultural da nossa era.
Com tudo isso rolando, é apropriado que o pop - um dos pais desse mundo de
ficção científica - tente articular essa visão moderna (e modernosa) dos
anos vindouros em termos pop. Muita gente se meteu na mesma praia antes -
mais obviamente grupos de tecno, gente que faz som para rave, industriais e
eletrônicos em geral. Agora, até Billy Idol está lançando um disco de base
tecno chamado Cyberpunk.
Mas foi Achtung Baby e a Zoo TV Tour que levantaram essa bola futurista em
termos de massa. Afinal, o U2 ainda é “a maior banda de rock do mundo” (se é
a melhor ou a que vende mais não vem ao caso, mas que é a maior, ninguém
discutirá).
Daí o swing oriental de “Misterious Ways”, remixado para as pistas (duas
fronteiras da nova era interligadas: a visão multiculturalista e os garotos
chapados de designer drugs dançando a noite toda). Daí as táticas
situacionistas, o apoio ao Greenpeace (a política do amanhã está nas
organizações informais, flexíveis, não-governamentais). Daí a
auto-referência, o senso de humor, o terno dourado.
Daí a banda vestida de mulher em revistas de moda (e na capa desta
revista), a embaralhação de signos tradicionais do superstar, e daí a
monstruosa blitz de mídia em 91/92 (e agora 93, da qual fazemos
orgulhosamente parte - é bom de vez em quando estar do lado que vai ganhar).
E daí Zooropa disco e a tour - o mais ambicioso disco do U2 a mais ambiciosa
tour da história.
Sem fronteiras
Em 91/92, era a Zoo TV Tour. Zooropa 93 é uma versão muito revista e muito
melhorada. São trinta datas, começando 9 de maio em Roterdã e acabando 31 de
julho em Estocolmo.
Os menores shows são para 30 mil; os maiores, para 70 mil. Se todos os
shows lotarem, U2 terá sido visto por quase dois milhões de pessoas durante
três meses,
Para pagar os custos de cada show, é necessário que pelo menos 85% dos
ingressos tenham sido vendidos. Ao mesmo tempo, o U2 não aceitou nenhum
patrocínio corporativo, com exceção de um acordo de cobertura especial com a
MTV Internacional.
Para compensar a ausência de patrocinadores, a tour oferece um dilúvio de
merchandising de todos os tipos - bonés, camisetas, fivelas para cinto,
adesivos e até uma nota falsa de ECU (o novo dinheiro da Europa unificada).
Entre os que estão abrindo para o U2 em shows diversos estão grupos tão
variados quanto Velvet Underground, Belly, Einstürzende Neubaten, Stereo MCs
e o DJ Paul Oakenfold.
Os telões da Zooropa 93 foram especialmente desenvolvidos para a banda pela
Philips, pioneira na área de TVs de alta definição. A empresa controla a
PolyGram e através dela a Island. U2 aceitou dez por cento da propriedade da
Island, sua gravadora, em troca de royalties atrasados. U2 e Philips são,
portanto, sócios.
A programação de vídeo de cada show varia. Ela vem de três fontes: um grupo
americano que trabalha com sampleagem e colagem de vídeo, o Emergency
Broadcast Network; o produtor/diretor/músico Kevin Godley, da dupla Godley &
Creme, ex-10 cc; e de filmagens feitas com e pela platéia durante cada show.
Bono controla parcialmente o que está nos telões, via controle remoto.
O show inclui todos os grandes hits do U2, Achtung Baby e Zooropa
praticamente inteiros, uma versão de “Satellite Of Love” de Lou Reed, mais
músicas compostas pelo grupo para outros artistas, inclusive “Prodigal Son”
(que foi gravada pela banda mas não entrou no novo disco, mas estará só no
do cantor de soul americano Al Green, que Bono considera a maior influência
sobre seu estilo de cantar) e “The Wanderer” (que está em Zooropa, na voz do
cantor country e um dos inventores do rock´n´roll, Johnny Cash. A música foi
composta especialmente para Cash). Os shows sempre abrem com “Zooropa”, e
geralmente terminam com “Are You Lonesome Tonight”, o velho clássico de
Elvis.
É na última parte do show que Bono aparece como “MacPhisto” (uma piada:
Mefisto, o demônio tentador, que faz qualquer negócio em troca de uma alma -
só que irlandês). Usa terno dourado brilhante, sapatos plataforma, maquiagem
pesada e chifres vermelhos. É neste alter ego cafona, uma
paródia/auto-referência, que Bono interpreta alguns dos maiores sucessos da
banda - inclusive a mais famosa balada do U2, “With Or Without You”. Sobre o
personagem, Bono disse: “não sei de onde ele vem, nem sei para onde ele está
me levando. É excitante e amedrontador ao mesmo tempo”.
É mais um dos muitos jogos de cena de Bono, que escandalizaram/ deliciaram
os fãs do U2 nos últimos tempos. Entre os mais chamativos estiveram posar
vestido de mulher (você já viu); rebolar, apalpar e encoxar bailarinas
durante os shows desta turnê; aparecer bêbado carregando uma garrafa de
conhaque em entrevistas coletivas e fazer editoriais de moda para a Vogue ao
lado da modelo Christy Turlington, seminua.
Apesar das baixarias no decorrer da turnê, o grupo encontrou alguns de seus heróis literários. William
Burroughs - padrasto do movimento beat e uma lenda americana - participou de
um show de TV com a banda. Salman Rushdie, até hoje sob ameaça de morte por
parte dos xiitas iranianos por causa do livro Os Versos Satânicos, se
encontrou com eles num fórum sobre censura em Dublin. Charles Bukowski,
afiliado distante dos beatniks e bêbado escroto de marca maior, assistiu ao
show em Los Angeles. Gunther Grass, autor de O Tambor e um dos intelectuais
mais respeitados da Alemanha esteve com o grupo em Berlim.
No futuro próximo o U2 pode mudar de cara. Correm boatos de que Adam
Clayton pode deixar a banda (ele é o único não-crístão da banda e
está noivo da modelo Naomi Campbell). O futuro imediato da banda? Bono fará
um dueto com Frank Sinatra para seu próximo disco, produzido por Quincy
Jones. Willie Nelson e Al Green gravarão faixas especialmente compostas para
eles por Bono. Em outubro sai outro lançamento, com cinco faixas deste disco
remixadas para pista - quais, ainda não foi anunciado.
E o mais
interessante: o U2 está produzindo em acordo com a gigante dos videogames
Sega um CD-Rom - não um jogo, mas um produto interativo que une música,
vídeo, texto. Mais um passo na direção certa.
Apocalipse experimental
E depois que Zooropa 93 acabar Bono já anunciou que esta turnê só acaba
definitivamente depois que a banda tiver tocado nos cinco continentes. Resta
portanto os países do Pacífico - que provavelmente receberão uma versão um
pouco diferente da excursão ainda este ano - e América Latina.
Tanto os fãs de “Sunday Bloody Sunday” quanto os de “The Fly” vão
estranhar. A nova parceria do U2 com Brian Eno - produtor que fez o estouro
da banda de The Unforgettable Fire para frente - vai mais longe do que
qualquer supergrupo já foi.
Zooropa, o disco, é a cara de Zooropa 93, a tour - uma superprodução que
embaralha completamente o que se espera do U2 com o que o grupo espera de si
mesmo. Antes de mais nada, porque é um disco conceitual. A ambição explícita
é retratar um mundo que vive na fronteira da revolução eletrônica - e como
isso afeta o cotidiano das pessoas comuns deste planeta. Como viver num
mundo em constante transformação afeta os sonhos, as aspirações políticas,
as angústias pessoais e as expectativas espirituais do cara aí na esquina. E
ambição demais para um mero disco. Muita gente boa já gastou milhares de
páginas tentando articular essa visão, inclusive o escritor William Gibson,
o mais importante criador da ficção científica cyberpunk e segundo Bono o
grande inspirador de Zooropa.
As gravações foram realizadas em intervalos desta turnê européia. Quando o
grupo tinha uns dias livres, voltava rápido para o estúdio, em Dublin. Esse
método de composição e gravação se refletiu no feeling final do disco. E um
trabalho muito europeu, dos temas das letras aos timbres usados. O resultado
final remete imediatamente à virada dos anos 70 para os 80: o David Bowie
berlinense de Low, Lodger, Heroes: o refinamento do Roxy Music; as
experimentações de base pop do Japan. E alguma coisa difícil de definir,
talvez a angústia, do Joy Division.
Claro que Zooropa não é um xerox amarelado dessa fase do rock. O disco soa
moderníssimo: Flood e Brian Eno cuidaram disso. Flood foi o engenheiro de
som. E um dos mais importantes produtores de música eletrônica do mundo. É
´colaborador local” do selo Mute, onde produziu (e/ou remixou) quase todo
mundo que é alguém no tecnopop britânico. Seu associado mais famoso e o Depeche Mode.
Brian Eno vai um pouco mais longe. Eno é um dos grande experimentadores da história da música. Começou
no Roxy Music, no início dos 70. Trabalhou muito com Robert Fripp, outro
grande experimentador, inclusive na ´trilogia Berlim” de David Bowie. E um
dos pioneiros da música ambient - que hoje se infiltra até no maior domínio
do ritmo, a dance music. Fez o influente disco de world music ambiental (na
época, o rótulo era etnopop) My Life In The Bush Of Ghosts, com David Byrne.
Recentemente voltou ao pop com John Cale, no disco Wrong Ways Up. Continua
sendo vanguarda - seja lá o que isso quer dizer.
No meio dessa história toda, Eno achou tempo para produzir o disco que
estourou o U2 mundialmente - The Unforgettable Fire - e ainda o seguinte.
The Joshua Tree, que sedimentou definitivamente o status da banda.
Zooropa não tem nada a ver com esses discos. Demorou, mas finalmente o U2
(visceral, obcecado por ritmos americanos, tocando rock de arena com refrões
poderosos) e Brian Eno (dandy, esteta, sutil, mago de estúdio) sincronizaram
seus interesses. O resultado deste encontro é modular, monotônico,
hipnótico. Refrões são desimportantes. Quase nenhuma música permite se
cantar junto, muito menos assobiar. Ao todo, são dez faixas. A primeira é a
música-tema “Zooropa”. Imagine ouvir “Until The End Of lhe World” numa
estação de rádio que não está bem sintonizada e dá para imaginar. A música
estabelece o clima do disco todo. É épica mas contida: não tem um pingo de
paixão. Quando a guitarra fala alto, não é uma explosão: é estática
calculada. Se a bateria martela não é para ninguém dançar, e sim para
sugerir os passos sincronizados de nazistas marchando. A letra é um
amontoado de slogans publicitários.
Depois desse inferno sombrio, “Babyface” parece um alívio. Parece uma
baladinha eletrônica feita por David Bowie. Só que o romance é com uma
criança. “Devagarzinho… deixa eu desamarrar sua renda… abre a porta…
deixa eu desarrumar minha mala… você está vindo a mim (gozando sobre mim),
direto do espaço sideral.”
Uma banda famosa por ser católica cantar as delícias da pedofilia já seria
estranho o suficiente. Bem mais estranha é a faixa seguinte, “Numb´, ter
sido escolhida como primeiro single/clip. “Numb” não tem refrão, não tem
explosão, não tem atitude.
A voz de Bono está irreconhecível. A letra se limita a dizer “não”. É “não
faça/não se mexa! não pense/não ouça a banda/não viaje de trem/não sussurre
etc. etc. As palavras são repetidas baixinho, como um mantra que veio do
espaço; a base é circular; tudo que não é a voz ou a base é textura,
estática, intervenção.
“Lemon” tem mais cara de hit. Repetitiva como todo o resto do disco - aliás
a idéia de repetição e reciclagem é um dos temas fundamentais de
Zooropa -,funciona como canção de amor, como trilha para raves e homenagem
atravessada a Prince e aos new romantics. Sintetizadores e um majestoso
arranjo de cordas são cortesias de Brian Eno.
“Stay (Faraway, So Close!) tem aquela melancolia lenta de quem está na
estrada. Diz “tão longe, tão perto/para frente com a estática e o rádio, com
a TV via satélite/você pode ir a qualquer lugar/Miami, Nova Orleans,
Londres, Belfast e Berlim”.
É a coisa mais parecida com o U2 de antigamente no disco, talvez porque não
tenha a participação de Brian Eno.
Mas “Daddys Gonna Pay For Your Crashed Car” também não tem Eno e é uma das
músicas mais ousadas de Zooropa. É o U2 se reinventando como uma parceria
imaginária do My Life With The Thrill Kill Kult com Stereo MCs e
Tackhead. Contém um sample de fanfarra, tirado do disco As Canções Favoritas
De Lenin, e outro de “The City Sleeps”, música do duo industrial texano
MC900 Ft Jesus. Tem cara de sucesso de pista. O tema, disse Bono numa
entrevista, é ´heroína e dependências de todos os tipos”.
“Some Days Are Better Than The Others” se parece bastante com “The Fly”, só
que numa versão estilhaçada. Recoloca a questão básica presente em Zooropa,
e do mundo que este disco quer representar.
Como uma coisa tão melódica, tão grandiosa, tão tipicamente U2/anos 80 pode
soar tão alienígena? A pergunta não tem resposta, só reforço: “The First
Time”, uma canção de amor daquelas de tocar ao violão, acabou virando um
tema ambiental que presta homenagem atravessada a Lou Reed (”Kill Your
Sons”) com timbres de cold wave e Brian Eno ao piano.
O fim se aproxima com “Dirty Day”, homenagem ao escritor Charles Bukowski.
A letra, como o homenageado, romantiza a vida na sarjeta apresentando-a da
maneira mais realista possível. Formalmente, esta é a última música do
disco - e ele fecha repetindo as características principais que atravessam o
trabalho todo.
Resta para o final o grande momento de Zooropa. “The Wanderer” foi composta
quando Bono soube que Johnny Cash estava em Dublin. Cash é um dos
sobreviventes da era dourada do rock´n´roll, os anos 50. Era um dos
integrantes do “quarteto de um milhão de dólares”, ao lado de Jerry Lee
Lewis, Carl Perkins e Elvis Presley. Como cabia às suas raízes caipiras, se
virou para o country - country de macho, nômade, falando de coisas como dor
de cotovelo, solidão, trabalho, falta de grana, falta de amor.
É o próprio Johnny Cash que canta “The Wanderer”. E tristonho sem ser
meloso, desiludido sem perder a vergonha na cara. Uma típica canção de
cowboy para o fim do milênio. Periga ser o momento mais emocionante de
Zooropa e Bono nem está presente. Melhor assim, sem maiores frescuras.
A união de Johnny Cash e Brian Eno fecha da melhor maneira possível o que
já é um dos melhores discos do ano.
(Bizz, 93)
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Foi o que Lula deu a Serra quando o Banco do Brasil comprou a Nossa Caixa. A dois anos das próximas eleições presidenciais. Em que Serra é o candidato mais forte. Concorrendo contra o PT.
Parece que tem coisa aí? Parece uma boa história a ser investigada?
Não li em lugar nenhum nenhuma hipótese que explique este acontecimento surreal.
É pouco dinheiro? É pouco importante?
Que porcaria de jornalismo político nós temos.
O MC5 foi uma banda de Detroit que gostava de zona e barulho –de todos os tipos. Pregavam a incineração de Richard Nixon com a mesma vontade com que organizavam as orgias mais descoladas da cidade.
Em termos de subversão pura sem mistura, o MC5 competia com os mais famosos Stooges. As bandas eram parecidas: suarentas, proletárias, escrotas e primitivas. Ambas começaram garageiras e se metalizaram.
A grande diferença entre elas: o MC5 acreditava no rock como instrumento de transformação. Tanto da vida pessoal, como da comunitária. Não faziam parte de nenhuma igrejinha política. Eram anarquistas e libertários, mas positivos e engraçados. Acreditavam na polarização e na baderna como forças criativas positivas. Tudo isso já estava colocado na estréia deles, o clássico “Kick Out The Jams” (1969).
Visto que o Congresso, a Presidência, a economia e todo esse lixo institucional do Brasil estão felizmente indo para as cucuias, vale lembrar um dos últimos slogans políticos que fizeram sentido: “Dope, guns, and fucking in the streets”. Era o lema do MC5. Traduza e coloque na sua agenda.
(Folhateen, 1994)
Madonna faz sempre o mesmo show. Madonna fascina pela monotonia. Madonna canta, dança e compõe de maneira mediana. Madonna não fez uma única contribuição à música, mas encarna como quase ninguém o espírito “rocker”. Madonna é diversão garantida.
Madonna nunca diz nada inteligente, mas os intelectuais adoram. Madonna finge que é burra. Madonna joga sempre no seguro, mas foi ungida rainha do marketing. Madonna é uma piranha de filme: vulgar, durona, desbocada, mas com um coração de ouro. Madonna sabe se vender pelo melhor preço. Madonna sempre chega depois da molecada na rua, mas é louvada por estar sempre “up-to-date”. Madonna é comum, mas parece bonita e glamourosa. Madonna vive cercada de gays, mas casou com um machão. Madonna é mulher-bicha, mas eu comia. Madonna quer chocar, mas antes de mais nada quer amor. Madonna foi rejeitada pelo papai. Madonna é Elvis Presley. Madonna quer o mundo já, mas não tem visão política.
Madonna tinha tudo para estacionar nos 80. Madonna foi mais longe do que qualquer outro astro pop, sem ter ido a lugar nenhum. Palmas para a moça, que ela merece.
(Folhateen, 1994)
Eu era capaz de remixar o texto abaixo e adaptar pra Madonna mole, mole. Mas não carece.
Qual o problema de Mick rebolar até os 51 anos?
É fácil ver seu primeiro show dos Stones e decretar: “Eles ainda são a maior banda de todos os tempos” etc. É mais fácil ainda relegar os velhinhos ao papel de banda cover mais cara do mundo.
É fácil porque ambas as alternativas são verdadeiras. Especialmente a segunda, se você assistir “Voodoo Lounge” duas noites seguidas.
Não se engane: tudo que parece ser espontâneo, “visceral” e rock’n'roll no show é na verdade planejado até os minimíssimos detalhes (com um pequeno desvio-padrão: sábado não teve “Rocks Off” e “Midnight Rambler”, teve “You Can’t Always Get What You Want” e tal). Na manhã seguinte, não dá para ignorar o aspecto cabaré da coisa toda.
Nem sempre foi assim. Durante uns dez anos, os Stones realmente foram a maior banda de rock do mundo –a banda que duas gerações de pais mais detestaram
Bem que eu queria ter visto os Stones naquela época, qualquer show entre o Marquee, Altamont e a turnê de 75. Deve ter sido realmente emocionante ver uma bandinha de blues inglesa e desajeitada se tornar um perigo para a sociedade.
Os idiotas objetivos nunca entenderam essa moral toda dos Stones. Claro que eles nunca foram muito mais que uma excelente banda de bar. Mas a questão não é musical.
Os Stones eram os maiores porque eram os maiores encrenqueiros. Bandidagem, satanismo, militância, drogas, promiscuidade, viadagem –tudo que antes dos Stones queimava a fita de qualquer um, depois dos Stones se tornou obrigatório para todo candidato a rockstar.
Hoje eles estão calminhos e vivendo do passado. Pode muito bem ser que o conceito de Rolling Stones 95 seja uma aberração. Num mundo ideal, o avião teria caído com Jagger e cia. dentro em algum dia de 1969. Assim poderíamos idolatrar nossos heróis em paz, sem o constrangimento de assistir ao aparecimento das rugas e das carecas.
Ou talvez sejam mais honestos dinossauros tipo Pink Floyd, que assumem compartilhar da senilidade do seu público.
Mas se o que nossa sociedade propõe é a adolescência eterna, qual é o problema de rebolar até os 51 anos? Ninguém nunca viu Mick Jagger dizendo “hope I die before I get old”. Se a única oportunidade que o Brasil teve de ver os Stones foi agora, paciência. Nem sempre a gente consegue o que quer.
No final das contas, o que interessa sobre essa história de envelhecer é como você gastou o seu tempo. Várias bandas foram muito mais sedutoras que os Stones e nos levaram para a cama. Profetas menos diletantes que Mick Jagger nos convenceram que não havia futuro e o negócio era sair quebrando tudo. Gente sombria nos iniciou no ocultismo, gente bêbada propôs que cair pela sarjeta era a única saída, gente cínica defendeu que ficar rico era a melhor vingança.
Mas ninguém fez tudo isso, ao mesmo tempo, e tão bem. Só os Rolling Stones, a maior banda de rock de todos os tempos.
(Folhateen, 1995)
A editora do Folhateen, Noelly Russo, me ligou na sexta de manhã e avisou: Kurt Cobain se matou. Vamos trocar a capa. Você não quer escrever? Pra hoje, pra já. Saiu isso.
Kurt Cobain se matou. Isso não é romântico. Não é um momento fundamental da história do rock’n'roll. Não é charmoso, não é legal, não é engraçado e não vai mudar a vida de uma geração. É, pura e simplesmente, uma merda.
Você pode ser realista e dizer que era carta marcada. Que se não fosse por uma bala agora, ia ser por heroína amanhã. Ou até que Cobain ia se autodestruir com mais sutileza: tornando-se cada vez menos criativo e menos relevante. É comum, no rock e na vida.
Seria uma conclusão bem lógica se você tivesse entrevistado Kurt durante o Hollywood Rock de 91. Ele era magro e mirrado. Parecia sujo, parecia triste, e seus olhos estavam mortos. Uma vez ou outra durante os quarenta minutos que conversamos, parecia que tinha alguém vivo ali. Mas a impressão passava rápido.
Só que realismo não é “rocker”. Rock é justamente sobre a possibilidade de mudar tudo. Mudar a si mesmo e mudar o mundo –viver perigosamente, no melhor sentido do termo. Quem morre perde tudo o que era e tudo o que viria a ser. Quem se mata faz isso de propósito.
E ninguém diga que Cobain não sabia o que estava fazendo quando deu um tiro na cabeça. O safado sabia exatamente no que ia dar sua atitude, chapado de heroína ou não. Ele estava “deixando a vida para entrar na história”. Duvido que num microssegundo ele não tenha pensado, “agora vai ser Hendrix, Lennon, Morrison, eu e outros menos cotados”.
Suicídio é sempre um momento de supremo egoísmo. Dessa vez foi, também, um ato de traição.
Porque é bem possível que Kurt Cobain já tivesse rendido tudo que tinha para render, mas isso não vem muito ao caso. Nem vem muito ao caso se o Nirvana era uma grande banda ou não, se foi por causa deles que que o rock alternativo explodiu ou não, se Cobain era realmente um cara telentoso ou só mais um moleque caipira com uma guitarra. Enfim, nem vem muito ao caso pensar na filha que nunca vai conhecer o pai, na família, nos companheiros de banda e tudo.
Fico só pensando nos garotos em que Kurt não pensou quando se matou. Nos milhares de garotos pelo mundo inteiro que pegaram na guitarra e caíram na estrada e na vida por causa de “Smells Like Teen Spirit”. Nos garotos que nunca mais vão ouvir um disco novo do Nirvana.
(Folhateen, 94)
De uns tempos para cá está pintando um povo negro em São Paulo que se diz da Nação do Islã. Como rap está ficando popular paca –ando vendo um monte de branco querendo ser preto nos últimos tempos– acho bom deixar bem claro do que se trata. Resumindo bastante, a Nação do Islã é uma divisão demente dos muçulmanos negros americanos. É radicalmente contra a miscinegação, pregando que branco por definição não presta –especialmente judeus. O líder máximo dos caras é o reverendo Louis Farrakhan, que muita gente acha uma besta quadrada. Ele é obcecado por discos voadores e pela fundação de um país próprio só para os negros no meio dos Estados Unidos.
Até aí tudo bem. Está cheio de religiões bizarras pelo mundo, e dá até para argumentar que o papa é uma mula. Depende do que você acha do mundo em que vive. Também está cheio de grupos que pregam o preconceito como algo que vem dos céus.
O buraco, como de costume, é mais embaixo. Sempre que as coisas se enrolam, a primeira saída do ser humano é apelar para algo primitivo. Já disse um gênio aí que “toda questão complexa tem uma solução simples e errada”. Há profundas razões antropológicas para o aparecimento de uma coisa como a Nação do Islã –é uma reação ao “embranquecimento” da classe média negra americana, tem a ver com a redescoberta das raízes culturais africanas etc. etc.
Dane-se. Também tem profundas razões para a faxina étnica na Bósnia, para os rolos na África do Sul, para os massacres cotidianos no Brasil e tal. Nem por isso vamos achar tudo muito natural e bacana. Respeitar tudo que todo mundo “oprimido” faz é coisa de débil-mental.
Esperávamos bem mais desses anos 90. Mas é da natureza do século essa obsessão com a velocidade dos acontecimentos. “Eu quero tudo e eu quero agora” é o lema não-dito da nossa civilização. Quando tinha doze anos, eu tinha certeza que até os 40 faria uma viagem turística à Lua, senão Marte.
Por isso, e porque essa década está meio confusa mesmo, é que já tem gente querendo acabar o jogo e começar outro. A coisa mais interessante e preocupante que ouvi a respeito da morte de Kurt Cobain foi de um cara de uma banda: “Para mim, a década de 90 acabou”.
Como toda década que se preza, a de 90 começou e terminará sem obedecer a anos que acabem em zero. A década de 90 como conceito está só começando a deslanchar. Desconfio que a coisa vai esquentar mesmo depois de 95. Não por causa de qualquer possível presidente brasileiro (até quando vamos ficar esperando esses salvadores da pátria resolverem nossos problemas?) e sim porque a contagem regressiva para o ano 2000 vai impor um senso de fim e de recomeço. Vai ser a hora de se livrar das velhas amarras e dos velhos problemas, e começar a equacionar uma série de novos embaços. E adivinhe para qual geração essa trabalheira vai sobrar?
Estamos no começo de uma aventura. Não sei e ninguém sabe exatamente como lidar com esses novos desafios. Mas não é simplificando os problemas complexos. Não é excluindo da aventura quem é diferente da gente. E, não é abandonando o jogo no começo do primeiro tempo.
(Folhateen, 94)