Quem inundou São Paulo?

Das oito mil pessoas que fazem a limpeza das ruas de São Paulo, 1600 foram recentemente demitidas.

O Sindicato que reúne as empresas que prestam os serviços de conservação e limpeza da cidade afirma que até o final de setembro, mais 1400 devem ser demitidas, três mil no total. Duas reportagens publicadas hoje ligam a inundação que parou São Paulo nesta terça-feira com a ausência de manutenção. O lixo tampou as bocas de lobo, a água subiu.

O Sindicato questiona o motivo das demissões junto ao Ministério Público. A prefeitura diz que apesar do corte de pessoas, o trabalho continuará sendo feito como era. 

Você se sente tratado como idiota de vez em quando?

A reportagem da Folha está aqui. A do Valor é fechada para assinantes.

Gilberto Kassab piora o que era ruim. A limpeza de São Paulo sempre foi e continua sendo uma porcaria. Oito mil pessoas não dá nem para o cheiro, em uma cidade do tamanho de São Paulo. Muito menos cinco mil. 

Me irrita gente defendendo coleta seletiva. Não serve pra quase nada e praticamente não existe em São Paulo. O que aliás é muito compreensível, visto que grande parte da cidade nem tem recolhimento de lixo.

Em muitos lugares, o lixo cuidadosamente separado nos prédios dos bairros descolados são todos misturados na ponta. Se cada um fizer a sua parte a cidade continua a mesma droga, se o estado não fizer a parte dele e não fiscalizar para que as empresas façam a parte delas. O último momento em que a cidade ficou mais ou menos apresentável foi nas semanas anteriores à última eleição. 

No bairro em que eu moro, Sumarezinho - mas pode chamar de Vila Madalena - tem lixo acumulado em vários lugares. Pertencemos, se a informação te interessa, à Subprefeitura da Lapa.

Em alguns bairros é pior. O lixo está se empilhando. Ah, e só para lembrar: o fumo foi proibido mas o estado não instalou cinzeiros. Então agora toda calçada está cheia de bitucas. Que ajudam a entupir os esgotos. 

Uns dias atrás eu estava na região da Berrini. Se você não mora em São Paulo, é a área mais moderna da cidade, um maciço de prédios supermodernos abrigando superempresas. O marco visual é a ponte estaiada. O prédio mais famoso foi apelidado de Robocop.  Parece, sei lá, Shanghai dez anos atrás.

Voltei de trem, da CPTM. Trem recém-entregue e lotado, de populares, ninguém de terno, uma da tarde. Fui rapidinho da Berrini à Cidade Universitária, mais perto do meu trabalho, no total cinco estações que bordejam o bairro mais rico de São Paulo, os Jardins: Vila Olímpia, Hebraica, Pinheiros.

Foi indolor. Duro foram os dez minutos de espera. Porque a linha está na margem do Rio Pinheiros. Que cheira bosta. A marginal é um esgoto a céu aberto. 

Aqui, a maior modernidade. Ao lado, o maior atraso. Chavão brasileiro, certo?

É o que parece, mas está errado. A ponte estaiada, os megaprédios da Berrini, o trem novinho, a Daslu, o Shopping Cidade Jardim - nada disso são artefatos contemporâneos. Pelo contrário. Bunkers de luxo circundados de miséria e imundície são monumentos ao século 20, fora de lugar no século 21. 

A ironia é que quando a prefeitura não limpa esgotos e bocas de lobo, a água sobe para todos. E os bacanas também ficam com seus carrões blindados chafurdando no lodo, e as big empresas ficam sem energia e sem telefone e sem internet e tudo mais.

É prejuízo. Mas nenhum rico perdeu filho ontem. Só morreram duas crianças da zona leste. E tem três crianças de Osasco que estão desaparecidas. De Osasco, não: de um lugar chamado Morro do Socó. Se forem encontradas, terão uma notícia muito triste: a mãe das crianças morreu no desabamento.

Não são mortes acidentais. O crime foi premeditado.

O blog do Lula foi clonado

O Fabricio, que sempre dá uma força para animar este blog, mandou uma boa:

 

“Ei Forastieri! Quero comentar sobre uma grande demonstração de força da liberdade da Internet na véspera de serem criadas as inacreditáveis restrições eleitorais à rede.

A internet venceu os burocratas do Planalto.

O blog do Planalto, muito criticado com justiça por não possuir espaço para comentários, foi clonado no endereço http://planalto.blog.br/ e aí com espaço para comentários!

E o mais interessante: a iniciativa é legal, pois o blog original é publicado com licença Creative Commons.”

Eu fui lá testar e funciona bem. Botei lá um post vendendo meu peixe. Mas achei que o povo ia querer saber como anda sendo gasto o dinheiro de publicidade do governo federal. 

Dou os parabéns para os caras que clonaram o blog do Lula. E é legal ainda por cima. Sensacional.

Quanto mais arame farpado eles colocam nos muros, mais a gente inventa jeito de pular. Que delícia viver num planeta hacker.

Vou repetir até a ficha cair: resistir ao progresso é fútil.

Eu quero ser o publicitário do Lula

Você sabe quanto o governo federal gastou na última temporada com publicidade? R$ 1,56 bilhões. 

O levantamento inédito do Meio & Mensagem soma contas da administração direta e indireta, incluindo 44 licitações concluídas desde 2004. Surpresa: 82% da grana fica concentrado em quinze empresas.

As cinco primeiras são Artplan, Master, Propeg, Quê e NovaS/B. Que não são tão conhecidas do público em geral. Outras conhecidas, tipo DM9, DPZ, Giovanni, McCann etc. estão na lista, mas pegaram só umas rebarbinhas de verba.  E algumas agências famosas têm, como princípio, não atender contas públicas, como a W/, AlmapBBDO, Neogama/BBH e Talent.

Achei que você gostaria de ter essas informações.

Agora, quanto eu acho que deveria ser a verba de publicidade do governo federal: zero reais.

Vale  para governos estaduais e municipais também.

Rádio e TV são concessões públicas. Não há razão para pagar anúncio.

Revistas e jornais já são beneficiados por isenções de impostos, pelas suas características “culturais”, da mesma maneira que os livros. Igualmente não há razão para pagar anúncio.

Outdoor? Com tanta via pública e beira de estrada pertencente ao governo? 

E na internet, bem, nem precisa falar.

Tem um pequeno problema nesse meu plano. Que é: cortando essa verba toda de publicidade governamental, muitas empresas de comunicação vão sofrer. Quiçá quebrar. Por isso, meu projeto causará grande desemprego não só no meio publicitário, mas entre os jornalistas também. Peço perdão aos colegas, mas alguém tem que pagar o pato.

Uns meses atrás, meus velhos colegas de Folha, os Fernandos Rodrigues e Barros e Silva, deram uma bela cutucada no governo federal e popularizaram o termo “bolsa-mídia”. A reportagem de Fernando Rodrigues explicava como o governo “adotou uma política radical e sistemática de pulverização da verba publicitária destinada a promover o governo. Em 2003, a Presidência anunciava em 499 veículos; em 2009, foram 2.597 os contemplados -um aumento de 961%.”

Eu por princípio acho pulverizar sensacional. Porque os grandes veículos já são fortes demais. E porque estão todos do mesmo lado defendendo as mesmas coisas com o mesmo discurso. Tem que dar grana para quem não tem e para quem está falando coisas diferentes. Diversidade é riqueza.

Meus camaradas acharam ruim e têm boas razões. A principal: muitos desses veículos menores são de propriedade de, adivinha, deputados, prefeitos etc.

Essa pulverização da verba é uma maneira de enfraquecer os grandes grupos de comunicação? Sem dúvida. De influenciar politicamente? Sem dúvida. É ilegal? Não. É imoral? Você decide.

Mas você há de concordar que nunca foi do interesse de Lula ou do PT que a opinião pública nacional permanecesse tão dependente da Globo, Folha, Estadão e Abril. São empresas que jamais esconderam suas simpatias e antipatias. Não é burro, nosso presidente.

Lembro bem de um encontro fatídico em Brasília entre a Secretaria de Comunicação e representantes da ANJ, Abert e Aner - as associações de donos de jornais, de TV aberta e de revistas. Foi logo depois da primeira eleição de Lula. Na época eu participava da Aner, representando a Conrad.
No encontro, foi comunicado que assim como a liberdade de expressão era absoluta, também era absoluta a liberdade do governo colocar publicidade onde  bem entendesse. Vida simples: bateu, levou. Ouvi que os petistas, então recém-chegados ao poder, agora estavam se vingando, dando o troco e tal. Estavam, ué.
Mas mais que isso: estavam usando o dinheiro público para influenciar a opinião pública. Que é o que todo governo faz. E que é uma pouca vergonha. Claro que todo governo quer vender seu peixe, mas não com a minha grana, meu chapa.
Eu não sou contra o “bolsa mídia”. Eu sou por outra campanha: “Publicidade Zero”. 
Muito bem: o governo tem como veicular suas campanhas todas sem gastar um centavo com mídia. Mas tem a questão da criação das campanhas. Alguém tem que produzir as peças. Isso custa, certo?
Bem, para mostrar aquele Brasil sorridente e interracial, gente que faz e faz sorrindo, e assinar “Um País de Todos”, não precisa gastar muito. Eu faço. Convoco uns amigos aí do ramo e acho que bolamos umas campanhas tão boas (ou tão medianas) quando as que costumamos ver por aí.

Eu não sou publicitário, mas me disponho a fazer o serviço na faixa. Coisa que publicitário nenhum faria. Só jornalista para ter uma idéia dessas: trabalhar de graça.

Minha condição é que o dinheiro que iria para publicidade vá para uma coisa útil. Tipo, sei lá, torrar em sorvete para a criançada. Ou botar esgoto e água limpa nas cidades de maior índice de mortalidade infantil do país. Algo que pareça necessário ou pelo menos divertido. Duas coisas que os anúncios dos governos nunca são.

Você tem um bom destino para essa grana toda?  Me mande sua sugestão. A melhor ganha um livro da minha biblioteca. Escolho um hoje e conto qual é amanhã. Que tal?

Veja, para mim não é nenhuma alegria me candidatar ao cargo de publicitário-mor do governo. Eu nunca quis trabalhar para qualquer governo. Muito menos trabalhar falando bem de político.

Hay gobierno, soy contra. É da minha natureza: sou otimista mas espírito de porco. Se o diabo pisca um olho e a Marina Silva se elege, vou baixar o sarrafo nela também. E começo cutucando já: quando expulsarás o Zequinha Sarney do PV, darling? Dize-me com quem andas e te direi quem és.

Mas enfim, tamos aí. Se for para dar destino mais nobre para esses bilhões todos, fico feliz de fazer a minha parte. Lula, eu quero ser o seu publicitário!

O Senado quer censurar a internet. Nós não vamos deixar

É pior que inocentar o Sarney.

O Senado debate um projeto de lei que restringe, e muito, o uso de internet em campanha eleitoral. Já foi aprovado na Câmara. Fernando Rodrigues explica muito melhor do que eu seria capaz em seu blog.

De um lado, é ridículo. Tapar o sol com peneira. Como vivo repetindo aqui: resistir ao avanço tecnológico é fútil. Se milhares de anos de tabu, pressão religiosa e social não impediram a mulherada de sair transando assim que apareceu a pílula…

De outro, é terrível. Porque por mais que seja impossível vigiar todos os sites, blogs e tal, essa lei restringiria muito a possibilidade de uma cobertura jornalística vigorosa por parte dos jornalistas que escrevem na internet.

Que é todo mundo que escreve na internet. Se você está escrevendo num blog, é jornalista. “Journal” quer dizer diário. “Log” também. Você não tinha percebido?

A lei também limita muito o uso da internet para você fazer campanha. Ora, o que elegeu Obama foi o uso inteligente da internet. Obra de um cara de 25 anos, Chris Hughes, co-fundador da rede social Facebook.

Chris bolou uma coisa chamada My.BarackObama.com, ou MyBO. Através dele os apoiadores de Obama planejavam eventos, arrecadavam fundos, e faziam todas as coisas que as pessoas normalmente fazem em redes sociais.

Ao final da campanha, o MyBO tinha mais de dois milhões de perfis. Tinham planejado 200 mil eventos offline. Eram 400 mil blogs. E juntos, esses voluntários levantaram trinta milhões de dólares.

Obama ganhou por pouco de McCain. Sem esse voluntariado empoderado pelas ferramentas da internet, provavelmente teria perdido.

Eu já vaticinei aqui que o segundo turno será entre Marina Silva e alguém, duas semanas atrás. De lá para cá ela deixou o PT, praticamente assumiu a candidatura pelo PV, e botou para costurar seu programa gente como José Eli da Veiga, da USP, um dos bambas da sustentabilidade; e o super-mega-bestseller psiquiatra Augusto Cury, que manja a alma brasileira como poucos.

Muitas pessoas na internet falavam sobre Marina, duas semanas atrás (que eu saiba, só eu cravei a moça no segundo turno; alguém mais se arriscou?). Semana seguinte Marina era capa das revistas semanais, jornais etc.

Eu preciso deixar claro: não estou fazendo campanha por Marina. Estou fazendo uma forcinha para que Marina participe da campanha. E acho, de verdade, que parte fundamental da campanha de Marina passa pelo uso de ferramentas digitais. A serem usadas na internet e no celular.

Aliás, não sou assim um Chris Hughes, mas deixo de graça uma idéia para Marina arrecadar fundos. É via torpedo. Mande um SMS para o número tal para doar um real, dois reais, cinco reais. Tipo Criança Esperança. Com contador ao vivo, disponível no website. 

Essas ferramentas, aliás, estão disponíveis para o político que as quiser utilizar. Basta ele conseguir eletrizar voluntários em número suficiente, para dar certo. Fácil assim…

Marina tem suas qualidades e defeitos, mas são qualidades e defeitos diferentes dos de Serra e Dilma. Andei falando que um segundo turno entre os dois tinha que ser evitado a qualquer custo, porque eles são 90% iguais e isso tornaria a campanha bocejante e medíocre. 

Pois pela nova lei, qualquer um dos dois poderia pedir direto de resposta no meu blog. Que teria que subir em até 48 horas aqui. E ficar por duas vezes  mais tempo que o post original.

Só pra você ter uma idéia do que esta lei é maluca. Aliás, que onda de lei de gente se metendo na nossa vida. Não pode fumar, não pode beber, não pode escrever o que quiser na interent, não pode isso, não pode aquilo. O Estadão não pode falar do Sarney. E por aí vai.

Daqui a pouco os políticos vão querer regular nossa vida sexual, o que estamos lendo e sobre o que estamos conversando. O Serra falou esses dias no rádio que se pudesse, proibia a coxinha.  É, aquelas de frango. Porque faz mal para a saúde.

Eu juro que não inventei isso.

Claro que os principais alvos desto projeto de lei autoritário não seria a maioria de nós, e sim jornalistas políticos profissionais como o Fernando Rodrigues. Eu poderia muito bem ser ignorado, e você, blogueiro amigo, também.

Só que na hora que a home do UOL linka para um post meu, eu (e qualquer um) automaticamente passo a ter a audiência do Fernando. Ou na hora que alguns blogueiros muito influentes linkam para cá. O que acontece de vez em quando. Comigo e com todo mundo.

O Brasil é dividido faz 509 anos entre os que podem tudo e os que não podem nada. Estamos dando os primeiros passos para mudar isso. Muito lentamente, como demonstra o episódio Sarney.

A internet nos torna, a cada um, mais poderosos. O Senado brasileiro quer nos tirar este poder. Não vamos deixar.

Ciro Gomes: Marina implode candidatura de Dilma

Ciro Gomes é uma espécie de Lobão da política. Não sou tão chegado na música, mas reconheço que manda muito bem nas entrevistas. A de ontem no Valor Econômico é educativa.

Ciro é bom de análise, bom de enrolação e bom de insight. Disse o que botei aí no título, por exemplo. Ele foi colega de ministério das duas. Deve saber do que está falando.

Também diz, por exemplo, que Aécio candidato, com Serra candidato a governador, é garantia de vitória da oposição. O sul já é meio antipetista, Aécio entraria forte no Nordeste, traz Minas, Serra traz São Paulo, e acabou o assunto.

Deixei Aécio de fora do texto em que garanto que o segundo turno incluirá Marina Silva - se ela for candidata, claro. Foi de propósito. Porque Aécio bagunça tudo. Não entendo Aécio. Quem sabe daqui uns dias.

Também acho que o Ciro Gomes não vai ser candidato a governador de São Paulo. Vai ser candidato a presidente da república.

Podemos ter um cenário em que as candidaturas seriam:

- Serra

- Marina

- Dilma, pelo governo

- Ciro, pelo governo 

- e outros que nem imaginamos. Porque se a eleição não for claramente demarcada entre situação e oposição, Dilma x Serra, arrisca entrar um monte de gente para marcar posição, candidaturas próprias de partidos diversos. O que tem consequências difíceis de prever. 

E esse é meu ponto: a campanha presidencial de 2010 precisa de imprevisibilidade, porque para manter as coisas como estão já temos o Congresso. Uma campanha Dilma x Serra me dá bocejos, só de pensar, de tão parecidos que eles são, inclusive no estilo mandão, modelito diretor de escola.

Eu não entendo nada de política, mas entendo que entrada de Marina torna a coisa toda bem mais interessante. E não é isso que queremos, um mundo mais interessante?

Marina no segundo turno: alguns detalhes (e um vice?)

Olá amigos,

obrigado pelos comentários.

Pontuando:

- ser evangélica é vantagem eleitoral
- nenhum candidato concorrente terá coragem de meter o pau em Marina
- mídia digital não é só internet; é também celular. No Brasil tem mais de cem milhões de celulares ativos, cobrindo todas as classes. Se Marina mobiliza gente esperta que sabe usar celular para marketing eleitoral (e isso até onde eu sei não foi ainda regulamentado), pode impactar todas as classes com custo irrisório e dane-se a campanha na tevê (uma reedição do “tostão contra o milhão”?)
- nada impede que ela publique sua própria versão, utópica e heróica, mas tranquilizante, da “Carta aos Brasileiros”
- o que seria Marina eleita é assunto que não toquei no meu post; estou falando aqui da campanha.
O mapa para a campanha de Marina está pronto; é o de Obama, com as devidas adaptações, que não são poucas mas não são nada impossíveis. Os planos de batalha de Dilma e Serra ficaram instantaneamente obsoletos com a possibilidade de Marina entrar no jogo - o que, se acontecer, vai zerar o placar, e se não acontecer, vai gerar um vácuo de consequências imprevisíveis.
E finalmente: já me chamaram de muita coisa, mas de mídia tucana é a primeira vez. Quem já leu este blog, sabe que eu não voto.

Ah: quase todos os pontos fracos de Marina podem ser compensados com a escolha de um vice que a complemente - que seja seu contrário em muitas coisas, mas sua cara metade no que importa. Do partido que for. Pode até ser do PV.

Com a palavra, Fernando Gabeira.

O segundo turno será entre Marina e alguém

Serra e Dilma concorrem na mesma faixa, com o mesmo programa, o mesmo papo e os mesmos apoiadores. Ou 90% iguais em cada uma dessas coisas. O que faz diferença. Mas pouca.

Dilma é Hillary Clinton, a ungida pela cúpula do partido. Mas os apoiadores do partido, a base eleitoral do partido, e os independentes - a maioria - acabaram escolhendo Obama.

Não interessa se Marina concorrerá pelo PV - uma agremiação tão heterogênea quanto o PMDB - ou pelo Partido das Candidaturas Surpreendentes. O que importa é ela. E algum tempo de TV.

Mas não precisa muita TV não.

Porque a candidatura de Marina garante participação de novos players. Gente que sabe mexer com internet, com redes sociais, com marketing viral.  Que não vai ser voluntária para turbinar a campanha de Dilma ou Serra. Mas tem grandes chances de se apaixonar por uma candidatura com perfumes de utopia.

Sem seus geninhos da internet Obama não tinha captado tanto recurso, não tinha eletrizado, não tinha incomodado. E internet, hoje, inclui celular, mídia com penetração comparável à TV junto à população brasileira. Se Marina se conectar com gente que sabe usar as armas digitais do século 21, a coisa pode pegar fogo. Se tratar a tecnologia como inimigo ou como aliado secundário, perderá uma chance única.

Com as qualidades e defeitos que você queira ver neles, é inquestionável que Serra e Dilma são veteranos das lutas políticas do século 20.  Marina pode não saber jogar o jogo do business as usual. Mas ninguém dirá que não é uma guerreira global do século 21. 

Marina tem o clássico apelo  “um brasileiro igualzinho a você” de Lula. Ficou seis anos ao lado de Lula. E portanto é tão herdeira natural quanto Dilma. Aliás, pelo histórico no partido, muito mais. 

Marina saiu por princípios e brigando com Dilma. Pode falar de boca cheia “eu não me aliei com o Collor e o Sarney”.  Aliás, sobre Dilma e Marina: pesquisa rápida em São Paulo com quatro representantes “do povo” esta semana (empregada, faxineira, vigia de rua, enfermeira) deu empate entre as duas. Nenhum dos quatro jamais tinham ouvido falar nem de uma, nem de outra. 

O que me disseram essa semana sobre Marina: ela é muito brava. Ela é muito inocente. Ela não teria o apoio da grande indústria, da agroindústria, da classe média. Ela não tem apoio da cúpula do PT. Ela, eleita, teria dificuldade para garantir uma maioria no Congresso. 

Para a maioria dos brasileiros, desconfio que nada disso são deméritos. Pelo contrário: são qualidades.

A possibilidade da candidatura de Marina instantaneamente preencheu uma lacuna.

Se por acaso ela decidir não concorrer, alguém terá que ocupar este espaço. Não vejo ninguém à altura. Mas eu também não tinha visto Marina antes dela aparecer.

O essencial é invisível.

Hoje São Paulo será menos livre

Eu acho que na placa de cada bar de São Paulo deveria ter uma plaquinha. Assim:

- aqui se fuma maconha

- aqui se bebe pelado

- aqui fazemos orgia

- aqui não servimos carne

- aqui toca Djavan

- aqui é GLS

- aqui é para evangélico

- e, aliás, deveríamos mudar a lei para permitir o uso de drogas terríveis tipo heroína e crack, em estabelecimentos com as devidas plaquinhas

- e por aí vai.

Informação transparente. Em todos os guias de jornal e da internet.

Entra quem quer. Trabalha lá quem quer. 

Pode até ter uns alvarás diferentes, pagar impostos de maneira diferente.

É assim que funciona uma sociedade livre.

Coisa que, sabemos, não existe.

Mas podemos ser um pouco mais livres ou um pouco menos livres.

A nova lei antifumo faz São Paulo menos livre.

Porque, veja, não existem espaços públicos. Existem espaços mais públicos ou menos.

A rua é um espaço muito público.

O metrô, menos. Só entra quem paga. 

Um hospital público, menos ainda. Só entra doente e acompanhante. E tem regras para tudo.

Um bar é muito, muito menos público. Tem dono. E só pode ficar lá quem estiver consumindo.

E mais: a questão da fumaça prejudicar os garçons é, claro, cortina de fumaça.

Porque pela mesma lógica, os garçons não poderiam trabalhar em casas de show, porque o som muito alto vai prejudicar a audição. Ou os marronzinhos não poderiam ficar aspirando gás carbônico nos grandes cruzamentos. 

Cigarro faz mal? Faz. Outras coisas também fazem. É decisão do indivíduo fumar ou não. 

Se houver consenso de que o cigarro deve ser proibido, que se proíba sua fabricação e comercialização. Dá pra começar tirando os subsídios dos plantadores de tabaco e aumentando vinte vezes o preço do maço.

Mas não. É mais fácil fazer de conta que estamos fazendo algo de verdade. 

Muitos amigos acharam a lei civilizada. Tem roqueiro fazendo propaganda a favor. E blogueiro achando que é bonito ir fumar lá fora.

Esta lei é autoritária. E ponto final.

O destino justo para Sarney

Eu fiquei fã do PT por causa do Sarney. Sério. Foi em 1985. Depois de todo o fuzuê da campanha pelas Diretas - que, estava na cara, não ia dar em nada - conchavo daqui, conchavo dali, fecharam como chapa “da oposição” Tancredo Neves para presidente e José Sarney para vice.

No dia das eleições indiretas, o PT se recusou a participar. O argumento era de que participar do Colégio Eleitoral legitimava as indiretas. É claro que a composição da chapa não ajudava. Tancredo era conservador, mas limpo. Sarney foi presidente da Arena e do PDS. Fez parte do regime militar e se beneficiou muito com isso.

Dois deputados rebeldes, Bete Mendes e Airton Soares, foram expulsos do partido por votar em Tancredo-Sarney. Achei sensacional. Eu tinha 19 anos quando isso aconteceu. Se fosse eu no congresso, não votava no Colégio Eleitoral nem a pau. Hoje tenho 43. Não mudei de posição.

Tancredo morreu, Sarney assumiu - devia ter sido Ulisses Guimarães, que fraquejou; história para outro dia - fez o governo que fez e entregou o Brasil nas mãos de Fernando Collor. E eu fiquei, tá vendo? Tá vendo? É isso que dá fazer acordo com esses caras.

Quando o PSDB fez acordo com o PFL, falei para os amigos tucanos: tá vendo? É a mesma coisa de sempre. Quem chega no poder faz instantaneamente acordo com os filhotes da ditadura.

No intervalo, votei no PT quase exclusivamente, eleição após eleição, até finalmente Lula se eleger. Quando Lula chegou lá, naturalmente escolheu como aliados justamente a escumalha de sempre. É por essas e por outras que não voto mais.

Nosso presidente é um homem pragmático. Deve ter aprendido negociando com os patrões, no tempo do sindicalismo: você não pode sempre escolher com quem vai fazer negócios.

Sou vivido o suficiente para entender isso. Sou ingênuo o bastante para acreditar que você precisa estabelecer alguns limites. Internacionalmente, o Brasil anda apoiando estrupícios como o governo iraniano. Da mesma maneira, Sarney e família estão além do aceitável. Não são nem vilões do século 21, são vilões da Idade Média, senhores feudais, que tratam o Maranhão como gleba e todos os brasileiros como servos.

A imprensa brasileira bateu em Sarney de leve, supostamente porque era o primeiro presidente civil depois de vinte anos de ditadura. Depois, deu mole. Aliás, assim que ele deixou o governo - com inflação de 70% ao mês - ganhou uma coluna na Folha de S. Paulo.

Agora está todo mundo caindo de pau. É uma maneira indireta de bater em Lula, e no PT. Nem tão indireta. Sarney sempre apoiou o governo, qualquer governo, e sempre se deu bem com isso. Apóia hoje Lula, que o defende, e que quer Roseana Sarney forte no Maranhão como palanque para dona Dilma. Se Dilma perde, o clã Sarney apoiará o governo Serra. E tudo continuará como sempre. Maluf não está por aí, soltinho da silva?

Bom, não aceito. As investigações têm que ir fundo, até o fundo do poço de podreiras. Para mim, só pelo que já se apurou, o destino justo para Sarney é morrer na cadeia. É maldade minha?  Bernard Madoff deu muito menos prejuízo para os americanos que Sarney para os brasileiros e terá exatamente esse destino.

Agora quero ver sangue…

Eu tenho vergonha de ser brasileiro

A cada duas horas, um adolescente é assassinado no Brasil.

Serão uns quatro mil teens entre doze e dezoito anos assassinados este ano.

A maioria, negros.

A maioria absoluta, garotos - doze para cada menina.

O Homicídio é a maior causa de morte de adolescentes no Brasil, 45% do total.

São os resultados do estudo IHA (Índice de Homicídios na Adolescência), realizado em 267 cidades com mais de 100 mil habitantes e divulgado pela Unicef e pelo governo federal.

Seria razão para a demissão imediata do ministro da justiça. De todos os secretários de segurança de todos os estados. E de todos os responsáveis pela segurança em cada uma das cidades, começando pela campeã, Foz do Iguaçu - 9,74 adolescentes assassinados para cada mil, no ano de 2006.

Isso, para começar o assunto.

É uma campanha de extermínio. Porque a maioria das mortes são por arma de fogo.

E cheira a apartheid. Porque os teens brancos e abonados são minoria ínfima, desconfio, entre o total de vítimas.

No dia que este estudo foi divulgado, ontem, o assunto dos portais e dos jornais era gripe suína e Sarney. Essa mortandade foi assunto de rodapé.

Tem dia que eu tenho vergonha de ser jornalista.

E tem muitos, muitos dias que eu tenho vergonha de ser brasileiro.


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