Patrick Swayze: nada é dourado pra sempre

Patrick Swayze era um texano de 57 anos, ex-alcoólatra, bailarino clássico, patinador no gelo, ginasta, ator e cantor. Ele estava com a mesma mulher desde 1970 e gostava de pilotar aviões e criar cavalos árabes. Morreu ontem de câncer de pâncreas, um adeus dolorido.

Patrick será sempre lembrado por seus rodopios em Dirty Dancing e pelo fantasma apaixonado em Ghost. Mas não por mim.

Eu vou lembrar de Patrick Swayze de cabelo oxigenado como o surfista assaltante de Point Break, se entregando à onda perfeita. Como  Jed, líder dos Wolverines, a tropa de adolescentes que dá trabalho para os invasores soviéticos em Red Dawn.

E inevitavelmente como Darrel, irmão de Ponyboy e Soda, o irmão mais velho que todo garoto queria ter.

Ponyboy era C. Thomas Howell. Soda era Rob Lowe. Eles faziam parte de uma gangue de moleques duros e durões em Tulsa, Oklahoma, no início dos anos 60. Da turma também faziam parte Two-Bit (Emilio Estevez), Johnny (Ralph Macchio), Dallas (Matt Dillon) e Steve (Tom Cruise). 

Eles eram, são, The Outsiders, o lado colorido de um épico teen filmado em 1983 por Francis Ford Coppola. O lado B, Rumblefish, veio logo depois e colocou mais dois garotos sob o holofote: Nicolas Cage e Mickey Rourke.

Eu tinha dezoito anos quando estes filmes apareceram no Brasil, sob os nomes Vidas Sem Rumo e O Selvagem da Motocicleta. Eram herdeiros mais que dignos de Esplendor na Relva, Buster e Billie e tantos outros dramas hormonais favoritos das sessões coruja da minha adolescência. 

Mas esses caras eram da minha idade. Eram da minha geração ou pareciam ser. Isso fez toda diferença.

Se você assistir agora pela primeira vez e achar que a história é coisa de adolescente, saiba que é mesmo. O filme foi baseado em um livro escrito por Susan Hinton quando ela tinha catorze anos e publicado quando ela tinha dezesseis.

Eu queria que todas as pessoas de dezesseis anos do mundo assistissem esses dois filmes.

Vi e revi The Outsiders e Rumblefish muitas vezes. Os dois filmes nunca foram unanimidade nem fizeram grande sucesso, mas foram muito falados e cultuados na época. Depois cresci e esqueci deles. Não assisto faz mais de vinte anos.  Mas se Darrel morreu, está na hora de voltar a reencontrar a velha gangue. 

Na época, Ponyboy não entendia seu poema predileto, Nothing Gold Can Stay, de Robert Frost. Nem eu.

Hoje estou mais perto.

 

Nothing Gold Can Stay

Por Robert Frost

 

Nature’s first green is gold

Her hardest hue to hold

Her early leaf’s a flower;

But only so an hour.

Then leaf subsides to leaf.

So Eden sank to grief,

So dawn goes down to day.

Nothing gold can stay.

Aprendendo a ser jornalista na Praça da Sé

Sexta de manhã no Poupatempo da Praça da Sé, uma semana atrás. Perdi faz dois meses minha carteira, cartões, grana, foto do filho, RG e carteira de motorista. A bobeada me valeu duas visitas ao centro de São Paulo, ambas - surpresa! - prazerosas.

Na primeira levei Tomás e juntos fizemos as identidades. Vai pra cá, pega uma fila, pega outra, toca piano - tudo fica mais leve e todo mundo fica mais simpático quando tem um moleque de cinco anos com você. Foi bem rápido. E ainda sobrou tempo para um turismo básico pelas redondezas. O moleque foi conhecer a Praça e a Sé. Eu não lembrava de nada, então foi como a primeira vez para mim.

Foi a primeira igreja em que ele entrou na vida. Achou bem interessante. Eu que já entrei em um monte não me impressionei tanto. Me perguntou o que o guerreiro medieval que ilustra uma parede em um mosaico esquisito, com barba de Rei Arthur e espada na mão, tem a ver com São Paulo, a cidade. Eu não soube responder.

Na segunda visita, uma semana atrás, fui sozinho e portanto preparado para uma empacada radical. Levei agenda, revista e livro. Um homem prevenido vale por dois e não se entedia fácil. Foi providencial. A visitinha durou três horas.

Não tenho um A para reclamar dos funcionários do Poupatempo. O povo é rápido e eficiente. O processo é que é surreal. Para que preciso ir até lá para tirar a segunda via da carteira de motorista, considerando que não é preciso assinar nada nem tirar a impressão digital? Deveria ser possível fazer por carta. Até porque foi por Fedex que eu recebi ontem a minha nova. Graças à Valderez, que compartilha com minha mãe nome e gentileza.

Mas sabe que a demora acabou sendo boa?

Porque no tempo que passei lá, estava offline total. Então, consegui ler uma coisa que eu precisava ler, por razões de trabalho, e estava empurrando com a barriga. Foi útil. E porque quando acabou a peregrinação, decidi que estava merecendo um agradinho e acabei garimpando um agradão.

Na saída estava um sol gostoso de inverno, céu azul e brisa estimulante. Fui dar uma banda pela Rua do Carmo. É um prédio mais bonito que o outro - o da Escola Fazendária devia ser tombado, se já não é - e uma loja mais maluca que a outra - uma portinha só vende essências, outra só tem folhinhas e calendários…

A praça na frente da Igreja do Carmo estava cheia de barraquinhas. Tinha roupa, sapato, bibelôs estrambóticos, um peruano desafinando uns boleros, DVD pirata e badulaques evangélicos. Minha favorita se dedica a apontadores feitos de metal, em formas diversas - Torre Eiffel, Ópera de Sidney, veículos variados. Comprei um em formato de avião-radar Awac para dar de presente para o meu filho.

Desesperado de fome e a dois metrôs de distância do meu trabalho, chequei as opções mais rápidas em volta da Sé. Foi a primeira vez que entrei em um Giraffas. Comi um Tri Giraffão, cheese salada, batata frita e Coca Zero, treze reais, 1118 calorias segundo avisa o próprio  Giraffas, num aviso pregado na parede.

Demorou um pouco mais do que fast food normal - “é que é feito tudo na hora”, explicou a moreninha de aparelho. E por isso é mais gostoso, entoa o slogan da rede. É mesmo. Melhor que um Big Mac, que não como faz uns vinte anos e nunca mais comerei.

O Giraffas surpreende pela convivência pacífica entre fast food gringa e slow food brazuca. Porque, você sabe, um almoção brasileiro é demorado pra fazer e demorado pra digerir. As mocinhas vão educadamente enchendo as bandejas, essa tem filé de frango, arroz e feijão; essa hamburguer; essa bife; aquela nuggets. 

Me deu idéia para uma rede de fast food diferente, chamada Padaria’s. Que seria como uma típica padaria paulistana. Onde você pode comer comida a quilo no almoço, mas também esfiha, pizza, cheese salada, pão com manteiga etc. Se algum empreendedor milionário quiser investir, mande meus royalties.

Empanturrado com meu Tri Giraffão, fui atrás do meu agradinho. Livros, que mais? O sebo virando a esquina era pequerrucho. Encontrei edições originais de dois livros obrigatórios de Paulo Francis, O Afeto que se Encerra e Nu e Cru. O primeiro é de memórias e chave na minha vida. O segundo, uma coletânea de artigos preciosos. Comprei para dar de presente para uma jornalista amiga e jovem. Se fosse milionário, dava os dois para cada calouro de jornalismo do país.

Perguntei pro moço que espanava um livros velhos, tem livro em inglês aqui? Tem, subindo a escada. Cheio de batata frita e com hora para trabalhar, relutei uns segundinhos, mas encarei.

Era só uma estante. Livro sobre Ilhas do Pacífico, livros técnicos, Morris West. Lá embaixo, a surpresa: The Economist Style Guide, letras prateadas sobre a capa preta e dura.

O livro é uma versão expandida do manual que os profissionais da The Economist usavam em 1986. Minha versão é a atualizada, de 1993. Você pode e deve discordar do conservadorismo polido advogado pela revista. Mas não há nada parecido no planeta em termos de análise concisa e coloquial, semana após semana, desde priscas eras - 1843.

Não estrago o prazer de quem decidir comprar, entregando o ouro sobre os verbetes. Só digo que além de utilíssimo para quem queira escrever bem em inglês ou qualquer língua, é uma delícia de ler.

Deve ser porque eles seguem o conselho do autor de 1984, que citam de cara na introdução. Vão me perdoar a tradução tosca:

“As Seis Regras para escrever bem de George Orwell:

1. Nunca use uma metáfora ou qualquer figura de linguagem que você não está  habituado a ver impressa.

2. Nunca use uma palavra longa se a curta resolve.

3. Se for possível cortar uma palavra, corte sempre.

4. Nunca use o passivo se pode usar o ativo.

5. Nunca use uma frase estrangeira, palavra científica ou jargão se você conseguir imaginar um equivalente coloquial.

6. Quebre qualquer uma dessas regras se a alternativa for escrever algo pavoroso.”

O Economist Style Guide emenda a dica de Henry Hazlitt, lenda do jornalismo  americano: “escrever de maneira genuína é escrever como qualquer um fala - qualquer um que tenha perfeito comando das palavras, e que discurse com facilidade, força e perspicácia, abandonando qualquer floreio pedante”.

Alguma disposição de sair às ruas, alguma capacidade de observação, algum respeito pelas lições de quem fez antes e melhor - o que mais você precisa para se intitular jornalista?

Gibi é paixão que não tem razão (ou: porque não vou ao HQ Mix)

Hoje tem HQ Mix, o grande prêmio brasileiro dos quadrinhos. Um abraço pros muitos amigos que vão. E pros inimigos, poucos: aqui se faz, aqui se paga.

Eu vou ver vinte minutos de Avatar, o novo filme de James Cameron. Mas não ia pro HQ Mix de qualquer jeito, que não publico mais quadrinhos - vade retro, tesconjuro coisa do demo. Já tive dor de cabeça demais com isso. Daqui para frente, HQ é como cachaça - não é porque consumo que tenho que produzir.

E não sou colunista de quadrinhos desde, hmm, 1990. Achei uns textos meus velhos outro dia, uma hora posto aqui. Duro é lembrar de coisas que eu tinha e perdi. Como aquela coleção de cards de ditadores trogloditas, Friendly Dictators, por Alan Moore & Bill Sienkiewicz. Alguém faz idéia onde acho isso?

Mas continuo lendo. E lendo sobre. Vou morrer lendo gibi. 

Acabou de chegar aqui um pacotinho da Midtown Comics, com Captain America Reborn, Jonah Hex e Astro City. Pouco para o fim de semana. Mas tem uns mangás que eu não peguei ainda, marcando em casa. 

Hoje o Paulo Ramos, no blog dos quadrinhos, confirmou o que eu já sabia mas não podia falar: que a Panini é a nova licenciada dos selos Vertigo e Wildstorm, da DC. Fico feliz pelos leitores brasileiros, que terão acesso a tanta coisa boa. É a Panini dando mais um passo na direção certa, que é a de monopolizar completamente o mercado brasileiro de quadrinhos. O que falta para a Panini? Entrar rasgando em livrarias. Agora, eles têm o produto certo para isso.

A licença era anteriormente da Pixel. Que co-fundei, onde fui sócio e diretor editorial. Demorou uns seis meses negociando para a gente conseguir fechar essa parada, na época. Cara, como eu trabalhei nisso. Eu e a torcida do Corinthians, claro, Odair Braz Jr. e Cassius Medauar e Marcelo Ramos e tanta gente de comercial e marketing e financeiro e o diabo.

Para nada. Para ter tanta chateação e prejuízo que era para nunca mais olhar para um balão na vida.

Mas apesar de não querer mais ter nada a ver com o negócio dos quadrinhos, continuo lendo.

Paixão não tem razão.

Quem escreve melhor sobre cinema que Ruy Castro?

Ruy Castro é caipira de Caratinga, eu de Piracicaba. Dezessete anos nos separam, o que para a segunda metade do Século 20 foi muito. Ele é fã de jazz e bossa nova, eu de rock. Ele é filho de Hollywood, eu da TV; dos muitos filmes que ele viu na telona, peguei uma parcelinha nas sessões da tarde e coruja. Mas tenho uma dívida de gratidão com o cara, embora nunca tenha visto na vida.

Ruy, fora escrever excepcionalmente bem, é fã de todas as pessoas certas em jornalismo cultural, e vários foi ele que me apresentou. Sempre li e admirei seu à vontade com as palavras; baila com pontos, vírgulas e sentidos como Fred Astaire com cadeiras e abajures.

Ano passado, a paixão convicta de um amigo por bossa nova me levou a ler e curtir “Chega De Saudade: A história e as histórias da Bossa Nova”. Considerando que João Gilberto me faz dormir, você imagine quanto respeito o amigo e Ruy.

Meses atrás, eu matutava se fazia algum sentido iniciar um site e uma revista de cinema a esta altura do campeonato. Para me decidir comprei um monte de livros. Entre eles, “Um Filme é Para Sempre”, 60 artigos sobre cinema que Ruy Castro escreveu em trinta anos, de 75 a 2006. Só comecei a ler sábado passado e quase acabei no mesmo dia. Quando vi, era madrugada.

Ler esses textos um após o outro aumentou minha admiração. Especialmente porque imagino como eles tenham sido produzidos - em um, dois dias, na correria habitual das redações. Mesmo que ele e a organizadora Heloísa Seixas tenham dado uma penteada nos artigos para editar o livro.

Não são críticas. São perfis, obituários, resenhas de livros, comentários sobre comentários de DVDs. Recheados de dados, mas leves como um suflê. Soam como os melhores papos de bar que você nunca teve com seus amigos que mais adoram cinema (“pense na quantidade de empregos que Busby Berkeley arranjou em plena depressão para todas as garotas que dessem no coro”).

De cada artigo você leva algo para o resto da vida. Às vezes preferia não. Como saber que Marlon Brando traiu a mulher com uma pata em um bordel de animais (!) em Tóquio, enquanto filmava Sayonara. Meu trecho favorito é quando ele começa uma explicação sobre a lenda de James Dean com a frase  “imagine Super-Homem morrendo em Pequenópolis”.

Dá vontade de ligar para Ruy e agradecer pessoalmente. Não conheço e não tenho o telefone, então meu obrigado é público: seu livro é para sempre, meu amigo.

O livro vai acabar e já era hora

Números reveladores da Fipe/USP, Sindicato Nacional dos Editores de Livros e Câmara Brasileira do Livro:

- o faturamento total do setor em 2008 (não incluídas as vendas para o governo) foi de R$ 2,4 bilhões

- o valor da venda para o governo alcançou em 2008 R$ 869,3 milhões, 20% a mais que em 2007; o número total de exemplares caiu 5,6%, para 121,7 milhões

- entre 2004 e 2008, o preço médio do livro caiu de R$ 12,68 para R$ 9,29

- pela primeira vez na história, em 2008 o mercado ultrapassou a marca dos 50 mil lançamentos.

Agora, quer saber como o brasileiro lê? Está aqui:

Livros didáticos: 73,5 milhões de unidades

Obras gerais: 63,5 milhões

Religiosos: 50,3 milhões

Técnicos-científicos: 24,2 milhões.

E não tem número de 2009? Tem: as vendas de livros caíram 10% no segundo trimestre de 2009, com relação ao mesmo período de 2008.

Agora, lustro minha bola de cristal e prevejo: não sobe mais.

Daqui para frente, é ladeira abaixo.

Porque as pessoas não lêem mais. Tem muitas outras coisas divertidas para fazer. Inclusive escrever em tantos blogs, twitters e tal.

Porque quem lê, lê de maneira diferente - quebrado, online, múltiplas vezes.

A leitora de Crepúsculo lê, hmm, Crepúsculo dez vezes. E lê tudo sobre o Robert Pattinson que encontrar online.

O leitor de livros de gestão (autoajuda para homem) pode assistir a Management TV ou receber os RSS do Seth Godin, do Max Gehringer, da turma dos Freakonomics. A leitora de livros de autoajuda tem zilhões de programas na tevê que resolvem muito bem. E por aí vai.

As pessoas não lêem nem mais revista de fofoca, vão ler livros?

Mas tem uma questão maior.

É a área de didáticos, paradidáticos e técnico/científicos. Quase metade do total de livros vendidos em 2008.

Com a chegada de um computador por aluno - ele chegará, não hoje nem amanhã, mas o processo já começou e não tem volta - não existe nenhuma justificativa para jogar essa dinheirama fora imprimindo 100 milhões de exemplares.

Nem justificativa econômica, muitíssimo menos ambiental.

“É absurdo e caro usar livros tradicionais quando a informação hoje está disponível em forma eletrônica. Ainda mais quando nossas escolas tem pouco dinheiro. Precisamos fazer tudo que pudermos para ajudar os educadores e liberar os investimentos para que as escolas possam fazer muito, com seus poucos recursos… As crianças hoje se sentem tão confortáveis com aparelhos eletrônicos quanto eu ficava com meus lápis de giz. Chega de tentar educar as crianças da mesma maneira que há anos atrás.”

Foi o que disse o governador da California, Arnold Schwarzenegger, anunciando em junho seu plano para abolir o uso de livros nas escolas do estado. Eles serão substituídos por notebooks dedicados à leitura, na linha do Kindle e de tantos outros. Economia para a Califórnia: US$ 350 milhões.

Faltou dizer que neste cenário utópico - que já chegou - quem serão exterminadas são as grandes editoras.

Hoje, dez grandes grupos editoriais e dez grandes grupos de varejo dão as cartas no mercado editorial nacional - e o número já é bondade minha. Todas as grandes editoras, e muitas pequenas, vivem de vender para o governo. O que passa como livro paradidático é, basicamente, qualquer coisa.

A substituição pela leitura digital nas escolas vai bater como um tufão na cadeia produtiva toda - editores, gráficas, indústria de papel. E na ponta, vai levar as livrarias pelos ares. Porque sem a venda para o governo, as editoras são inviáveis; e portanto os livros que NÃO são vendidos para o governo, também.

O que vai acontecer, na minha imodesta opinião: sobrarão livros extremamente baratos, dirigidos à população acima de 40, não nativa do mundo digital. E na outra ponta livros extremamente caros, lindos, premium, perfumados, impressos na China, para colecionadores. O grosso do mercado será digital.

Este futuro é próximo? Já estamos nessa trilha. É desejável? Resistir é fútil. Não encontro argumentos para a defesa do livro em papel. Imprimir livros é emburrecer a molecada, desperdiçar recursos importantes e ambientalmente indefensável.

Agora: eu não entendo nada de política, e de tantas outras coisas, então acho bem compreensível quando em algum Comentário usam o argumento “você não entende nada disso”.  Embora eu me sinta completamente no direito de opinar sobre o que não compreendo. Aliás, este é o eixo central da minha carreira jornalística, como demonstra esse blog.

Mas neste caso não procede. Porque fui sócio de duas editoras que publicaram livros, entre 200 e 2008: a Conrad e a Pixel. Sei como o nosso mercado (não) funciona, por dentro. E tenho as cicatrizes para provar. Perdi rios de dinheiro e oceanos de tempo.

Ganhei um catálogo que tem meu nome no expediente, do qual me orgulho. Ocupa um espaço razoável na minha biblioteca. Foi pouco pelo estrago que causou. Mas agora chega. Chega de livro para mim e para todo mundo.

E para quebrar de vez esse meu vício em livros de papel, comprei um Kindle. Só não consigo fazer o danado funcionar. Alguém me ajuda?

Estou ficando cego, prefiro ficar surdo

Enxergo cada vez menos. Meus olhos estão vermelhos e ardendo no final de cada dia. Hoje acordei com tudo embaçado.

Meu problema é enxergar de perto. Ou seja, complica para ler e escrever. Que é o que eu faço 90% do tempo em que estou acordado.

Uso óculos faz muito tempo, mas como não ando pela rua de óculos, nem guio, nem precisava ficar com ele o tempo todo na cara antes, não me sinto como “um cara de óculos.”

Meus óculos atuais têm essa vantagem - serve para ver melhor de perto - e esse problema que me atrapalha quando olho para longe. Resultado que fico o tempo todo em umas posições estranhas, pescoço esticado para cá, para lá, olhando por cima do óculos etc.

Acabei de marcar nova visita ao oftalmologista. Estão cada vez mais frequentes. Pelo andar da carruagem, acho que vou mudar o tipo de lente para bifocal. Ê, derrota.

Mas faço o que meu oftalmologista manda. Ele é, como diz o cara lá, um cool customer. Um libanês elegante, com os movimentos deliberados de um ourives. Visita a família no Líbano todo ano. Sou louco para ir para lá - tive um tio sírio, meu melhor amigo de infância é meio libanês e sou louco pela cultura e pela comida do Oriente Médio. Uns tempos atrás, perguntei se já tinha passado por algum aperto - afinal, é uma região de que só ouvimos falar quando acontece coisa ruim por ali. Ele “não, é tranquilo, Israel só bombardeia uma vez por ano. Sempre antes da temporada de férias, para atrapalhar o turismo no Líbano.”

Ficar cego mesmo é meu pesadelo. Prefiro ficar surdo. Quer dizer, prefiro morrer aos 120 anos de idade de ataque cardíaco fulminante, com saúde de atleta olímpico, depois de uma maratona de sexo ardente. Mas desde que li “Meu Último Suspiro”, decidi que vou ter que escolher entre cegueira e surdez.

Na sua autobiografia, o cineasta espanhol Luis Buñuel, surdo e broxa, canta as vantagens de ser surdo e broxa. Buñuel desanca os cegos, que acusa de maucaratismo e pior. Conta que passeava com o roteirista Jean-Claude Carriére por um parque em Barcelona e viu um dois cegos masturbando um ao outro, onde já se viu.

Buñuel também fala do surrealismo, do amor, da amizade com Dali, da vida e da morte. E dos prazeres terrenos, que são beber e fumar. Dá inclusive sua receita do martini perfeito, em que o vermute entra da mesma maneira que a semente de Deus atravessou o hímen de Maria.

Se isso não faz você ficar com vontade de ler o livro, não sei mais o que fazer. Aliás escrever isso me deu vontade de ler “Meu Último Suspiro” de novo, depois de todos esses anos. Preciso dos meus olhos!

Vou para o bifocal, então, ou para a operação ou o que for. Como Buñuel, prefiro ficar surdo. Viver sem ouvir a voz do meu filho seria triste. Viver sem ler, impossível.

Como fazer amigos e influenciar pessoas, por Neil Gaiman

Anos atrás, a Conrad, editora de que eu era sócio, patrocinou a vinda ao Brasil de Neil Gaiman. Para quem não conhece, ele é o único popstar do mundo dos quadrinhos. Alan Moore é rockstar, sei, mas Neil é diferente - atrai as garotas.

Ele criou uma série chamada Sandman, muito importante e popular por vários motivos, um dos quais é que é muito legal. Depois emplacou como escritor de romances - Deuses Americanos e Anansi Boys entraram direto na lista dos mais vendidos do New York Times - e principalmente livros para crianças e pré-adolescentes, como Coraline, recentemente transformado em um desenho animado muito assustador.

Pois então: sessão de leitura e autógrafos na livraria Fnac de Pinheiros. A fila ia do auditório, descia vários níveis de escada rolante, saía para a rua e dobrava o quarteirão. Muita gente de preto. Muitas garotas góticas. A moça da Fnac disse que tinha mais gente do que quando BB King tocou lá.

O evento foi para lá de um sucesso. Porque Neil não só leu um trecho de American Gods, e ele lê muito bem. Ele autografou todos os livros e revistas de todas as pessoas. E fez um desenhinho bacana em cada um. E conversou. E tirou fotos. O evento era para durar duas horas. Durou, sei lá, umas cinco.

Levamos ele para tomar um chopp no Filial depois. Estava totalmente afônico, de tanto conversar com os fãs. Dia seguinte, foi para a Conrad de manhã. Adivinha: mais autógrafos, mais papo (rouco). Gênio da autopromoção? Sim. Com toda a espontaneidade, dedicação e simpatia do mundo? Sim.

Não admiro tanto Neil Gaiman como, digamos, Alan Moore. Alan está em outro universo. Neil, sinto, é da minha turma. Eu tenho lá minhas diferenças com alguns livros, contos, quadrinhos que ele escreveu. Mas são diferenças que você tem com um amigo. Acho que todo mundo que acompanha a carreira de Neil se sente assim. Com o tempo, fui comprando tudo que ele escreveu. Ainda falta alguma coisa, raridades. Chego lá.

Todo mundo que trabalha com comunicação - aliás, todo mundo que trabalha com qualquer coisa - tem muito a aprender com a atitude de Neil Gaiman com seus leitores.

Antes do evento da Fnac, quem estava na fila era fã de Neil Gaiman. Sua mágica nos converteu em seguidores.

Dez regras para escrever um romance

Uma coisa é o que você acha ou diz que gosta.

Outra é o que você gosta de verdade.

Eu, por exemplo, não gosto de teatro.

Sei disso porque não assisto uma peça tem uns vinte anos.

Não tenho nada contra teatro. Não me orgulho disso. Só reconheço a realidade. Se eu gostasse mesmo de teatro, ia.

Da mesma maneira, não gosto de romances brasileiros, romances franceses, romances escritos por mulheres etc. Nada contra. Na prática, 90% dos romances e peças que eu li na vida foram escritos por um homem originalmente em inglês. Um dia eu falo dos 10%.

Hoje o assunto é meu autor favorito. Sei que é porque não tem outro autor que eu tenha lido mais.

Elmore Leonard lutou no Pacífico Sul. Vive de escrever desde os anos 50. Começou com faroestes. Passou para policiais. Muitos viraram filmes, alguns bons - Jackie Brown, Get Shorty. Muitos ganharem prêmios. O primeiro livro dele que eu li, City Primeval, tinha atrás a chamadinha: “the best thriller writer alive”. Lá se vão 26 anos e o velho, 83 anos, continua na ativa e cheio de fãs. Martin Amis, um deles, explicou: “Leonard faz Raymond Chandler parecer tosco.”

Paulo Francis me apresentou e sou fiel. São 35 livros dele que eu li até agora:

Mr. Majestyk (1974)

Fifty-Two Pickup (1974)

Swag (1976)

Unknown Man No. 89 (1977)

The Hunted (1977)

The Switch (1978)

Gunsights (1979)

City Primeval (1980)

Gold Coast (1980)

Split Images (1981)

Cat Chaser (1982)

Stick (1983)

LaBrava (1983)

Glitz (1985)

Bandits (1987)

Touch (1987)

Freaky Deaky (1988)

Killshot (1989)

Get Shorty (1990)

Maximum Bob (1991)

Rum Punch (1992)

Pronto (1993)

Riding the Rap (1995)

Out of Sight (1996)

Cuba Libre (1998)

Tonto Woman (1998)

Be Cool (1999)

Pagan Babies (2000)

Fire in the Hole (2001)

When the Women Come Out to Dance (2002)

Tishomingo Blues (2002)

A Coyote’s in the House (2003)

Mr. Paradise (2004)

The Hot Kid (2005)

Up in Honey’s Room (2007)

O novo, Road Dogs, está no correio chegando.

Mesmo em épocas que paro totalmente de ler ficção, leio o novo Elmore Leonard assim que sai.

Por essas e outras é que o único livro autografado (tirando os de autores amigos, claro) que tenho em casa é dele.

Chama-se Elmore Leonard’s 10 Rules of Writing. Tem pouco texto e umas ilustrações bico de pena, modelito New Yorker, do Joe Ciardello.

As regras são:

1. Nunca comece um livro falando sobre o tempo.

2. Evite prólogos.

3. Nunca use nenhum verbo para carregar o diálogo que não seja “dizer” (tipo, “ele disse” em vez de “ele justificou”, “afirmou”, “disparou” etc.)

4. Nunca use um advérbio junto com “disse” (como em “disse ele seriamente”).

5. Mantenha seus pontos de exclamação  sobre controle.

6. Nunca use as palavras “suddenly” ou “all hell broke loose”.

7. Use pouco gírias e dialetos regionais.

8. Evite descrições detalhadas de personagens.

9. Não detalhe muito coisas e lugares.

10. Tente deixar de fora a parte que os leitores tendem a pular.

A mais importante ficou para fechar.

“Se soa como algo escrito, eu reescrevo.

E se a gramática está atrapalhando, passe por cima dela.

Não posso permitir que o que aprendi na escola atrapalhe o som e o ritmo da narrativa.

É minha tentativa de permanecer invisível e não distrair o leitor da história com um texto óbvio.

Como dizia Joseph Conrad,  as palavras não podem bloquear o que você tem a dizer”.

É de pedir autógrafo ou não é?

Gibi não é pra criança

Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança.

É inacreditável que em 2009 eu precise repetir isso quinhentas vezes para ver se entra na cabeça desse povo burro.

Gibi é para todo mundo. Como qualquer livro. É uma forma de expressão. Uma arte, se você quiser. Tem gente que nem chama de gibi ou de HQ, chama de “arte sequencial” ou “romance gráfico”, graphic novel. Pode ser tão sublime ou idiota como, digamos, um filme. Pode ser pra nenê ou pra gente muito madura, como uma peça de teatro.

Antigamente, a maioria era apropriada para crianças pequenas. Hoje, a maioria não é.

Vai na banca conferir. Tem uns 200 títulos diferentes lá. Nem 20% disso apropriados para criança.

Como cinema. Ou literatura. Ou peças de teatro. Tá claro?

Agora, se você for nesse instante numa grande livraria brasileira, vai encontrar quadrinhos para criança e quadrinhos eróticos e quadrinhos políticos e quadrinhos de todo jeito, tema e formato todos juntos numa estante marcada “Quadrinhos.” Se marcar, vizinha da estante de “Infantis”.

Não tem nenhum sentido juntar Guido Crepax e Alan Moore e Allan Sieber e Osamu Tezuka e Flávio Colin e Wander Antunes e Hugo Pratt e Marcelo Gaú e Bryan Talbot e Takehiro Inoue na mesma estante. Sei porque publiquei todos eles, na Conrad ou na Pixel.

Qualquer adulto pode e deve ler Dragon Ball ou Tio Patinhas. Como pode assistir Wall-E. O contrário não é verdadeiro. Meu filho não pode assistir Apocalypse Now, que é um dos melhores filmes que eu já vi. Ele tem cinco anos. É muito pesado. Não é hora. Também não pode assistir O Triunfo da Vontade, que não tem palavrão nem mulher pelada. Porque é propaganda nazista. Tomás não está pronto.

Esse escândalo por conta do livro “Dez na Área, Um na banheira e Ninguém no gol” é um escândalo mesmo, por várias razões.

Primeiro, porque a barbeiragem é do governo. Esse livro não foi escrito nem ilustrado para crianças de nove anos. Quem botou o livro na mão da molecada que se responsabilize. Não foram os editores, organizadores ou autores - um time de primeiríssima que orgulharia qualquer indústria de HQ do planeta.

Tenho e li o livro - apesar do meu reconhecido horror por futebol - justamente por causa disso. Que eu me lembre, acho que deveria ser indicado para adolescentes, o que pela lei brasileira significa os mais velhos de doze anos.

Dito isso, se alguma criança de nove anos ler, não vai ter suas retinas derretidas nem seus valores entorpecidos. Não vai virar bandido nem psicopata. Qualquer programa tipo “A turma do Didi”, aprovado pela família brasileira nos almoços de domingão, tem gozação com homossexual, preto, mulher, macho, nordestino. Sarro se tira em cima de alguém.

Um dia desses, uma mãe burra vai dar o Buda de Ozamu Tesuka - meu mangá predileto de todos os tempos, terno e inteligente - para seu filhinho de sete anos. E quando ver que o gibi, além de uma mensagem inesquecível, tem moças com peito de fora, guerra e morte e sangue, vai processar a livraria, a editora, o autor etc. E um bando de políticos demagogos vão pegar uma carona para posar de defensor da moral.

Escândalo é o governo entrar com bilhões de reais de dinheiro público para ser sócio de empresas falidas enquanto tem gente morrendo em enchente. Mau gosto é deixar a cidade de São Paulo largada, como está.

Aliás, liberdade de expressão é sempre a liberdade de expressarem o que eu não gosto, não suporto, não aturo, acho errado e de mau gosto. Quem não entendeu isso não sabe o que é democracia. O que significa que 90% dos brasileiros não sabe o que é democracia. E esses caras têm filhos na escola, frequentam bancas e livrarias etc. Eu preferia que eles fossem desintegrados por raios atômicos marcianos - seria um país mais agradável - mas não tenho esperança que isso vá acontecer tão cedo.

Às vezes eu acho que a indústria de HQ brasileira precisa de um sistema de classificação, como os games e os filmes. É triste, perigoso e um tanto emburrecedor, mas talvez seja o jeito. Não na linha do Comics Code americano, tesconjuro; talvez  dois ratings, sempre sugeridos pelo próprio editor. Para Todas as Idades, Sugerido para Maiores de 12 anos. E tá bom.

Acima de 13 qualquer um deveria estar livre para ler o que bem entender, de Sade a Shakespeare; e ver qualquer coisa, inclusive pornografia e terror hardcore; e de fato os teens já fazem isso, porque quem tem acesso à internet tem acesso a tudo. Contra o avanço da tecnologia leis obsoletas nada podem.

O escândalo final, e muito escandaloso para mim, é o tom de indignação da grande imprensa - Ó, nossas pobres criancinhas, expostas a esse lixo etc. Às vezes tenho nojo de ser jornalista.

E às vezes tenho orgulho. Por exemplo, lendo o blog do Paulo Ramos, que fez a melhor cobertura do caso. O mesmo Paulo já twittou a principal consequência do “escândalo” - estão subindo as vendas do livro em livrarias. Para alguma coisa, tanto escândalo tem que servir…

O novo século de Alan Moore

Meu autor predileto tem um livrinho novo quase na praça. É “Century”, primeiro de três álbuns que juntos compõem o volume três de “League of Extraordinary Gentlemen.” Está encomendado na Amazon.

Ainda não reli o trabalho anterior de Moore, “The Black Dossier”, que leva a Liga aos anos 50, com direito a encontros com tipos como Ubu Rei e Jack Kerouac.

Porque não digeri a primeira leitura. É denso demais. Tem referências demais. É doido demais.

O novo deve ser isso tudo e mais. É a primeira aventura da Liga fora da editora DC Comics. Sai pela mesma Top Shelf que publicou “Garotas Perdidas”, delírio pornográfico aqui no Brasil muito bem editado pela Devir. Liberdade absoluta, portanto, e sem instrusões corporativas.

“Century” atravessa um século e inclui Bertold Brecht, Orlando, Jerry Cornelius, heterônimos de Aleister Crowley, o monolito de 2001, Dan Dare, Iain Sinclair e o seriado “24”. E isso pra começar.

Essa lista me deixa desesperado para ler logo. Nem sei mais o que dizer.

Então passo a palavra para o mago de Northampton:

“Century is set in a fully realized, three-dimensional fiction world in which all the fictional worlds are included. It’s kind of like the Unified Field Theory of Fiction. We’ve got this fully realized three-dimensional world of fiction that includes potentially all of the worlds of fiction, and yet it’s surprising or perhaps not surprising how much that planet of fiction mirrors our own. It’s a distorted mirror, perhaps, but it’s our Dreamtime.

When you think about the “idea space” of fiction or the continuum of fiction, do you see the fictional world as running parallel to our world, because it’s our world that creates the fictions?

Yes. It’s like the Dreamtime in that our hopes, our fears, the things that we express in dreams, as a culture we express through our fiction, particularly our fantastic fictions. And it’s really interesting. It is actually saying something about our world, not purely a literary exercise. It is a fabulous literary game, but I’m starting to realize after the fact, as usual, that it’s more than that because of the interconnected nature of the world of fiction and our material world, that they’re interdependent on each other… Yes, it is real flesh-and-blood people who create these fictional beings, but the fictional beings create us as well. It’s not as straightforward as it looks, yet we’ve found in “Century” particularly, that in documenting the Dreamtime of these three disparate periods, taking in roughly a century, that we are commenting inevitably about what is happening to our culture during that century. We can see a kind of deterioration, I’m not sure that’s the word, or a fragmentation of the dreamtime. That is kind of ongoing, and in this final one that I’m just starting to write at the moment, set in 2009, it’s making a great deal of the central character’s complete disorientation in the culture landscape of 2009.”

A entrevista inteira está no meu site favorito de quadrinhos, o Comic Book Resources. Leitura inspiradora para o feriadão; e se você não entender metade das referências literárias, somos dois; relaxe; isso é parte da graça e da magia de mr. Moore.


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