O ESTUDO NÃO COMPENSA

 

O Brasil precisa de educação. Já o jovem brasileiro precisa é de dinheiro mesmo

 

Todos os experts concordam: o Brasil precisa é de educação. Há dez dias, um professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) afirmou que as diferenças educacionais explicam 40% das diferenças de renda entre os brasileiros. Para cada ano na escola a renda futura do estudante seria 16% maior.

Quer dizer que quem estuda mais ganha mais? Não. A FGV prova que quem estudou (no passado) ganha mais (hoje) do que quem não estudou. O resto é empulhação eleitoral e marketing de cursinho. Para o jovem brasileiro em 2002 o crime compensa muito mais que o estudo.

Existem duas razões para isso. A primeira é que o Brasil tem se mostrado um país pouco inteligente. A média de estudo para a população acima de 15 anos é de 4,9 anos, na rabeira do planeta. A educação brasileira em todos os níveis é uma porcaria.

Quanto a nossas melhores escolas e universidades e seus formandos, atenção para o novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e seu Índice de Avanço Tecnológico. É uma síntese de oito indicadores diferentes que representam a capacidade de inovação de cada país, o que cada um tem a contribuir para a humanidade. Ganha o país mais inteligente. O Brasil instruído ficou em 43o.

A segunda razão é que não basta ter diploma, o diploma tem de render uma boa grana. Nações muito bem educadas já jogaram seus melhores cérebros na rua, da União Soviética à Argentina. Resta a eles engolir a frustração mal remunerada ou tentar debandar para países ricos.

Aqui, igual. Piora cada vez mais a vida do brasileiro educado, viajado e bilíngue. Boa parte está desempregada ou vegetando em frilas e subempregos. Big Brother é exemplar: entre jovens brancos de classe média vale tudo por R$ 500 mil (até entrar para a indústria do sequestro, cujos mandantes são os criminosos com maior índice de escolaridade).

Com tudo isso, é espantoso que tantos brasileiros insistam em estudar. Principalmente os que têm de trabalhar também. O universitário favelado do Rio de Janeiro, por exemplo, tem renda equivalente à metade da média dos universitários da cidade (nem compare com os da Barra). É muito mais natural para os mais pobres se garantir no crime.

Um estudo em 51 favelas cariocas deixa muito claro. Acima dos 15 anos de idade, 20% dos favelados são analfabetos, mas o restante é quase: só 15% cursaram o ensino fundamental. Os salários dos meninos olheiros dos traficantes chegam a R$ 1.200 mensais. Compare com os bairros mais pobres de São Paulo, onde o salário médio do chefe de família é R$ 450. Já está achando que o crime compensa? Pois saiba que na periferia paulistana 41% dos homens entre 15 e 19 anos não frequentam escola e um terço entre 18 e 24 anos está desempregado.

E as meninas? Vida dura também. Na periferia paulistana 12% das garotas entre 14 e 17 anos são mães. Nas favelas do Rio metade das meninas entre 15 e 17 anos não estuda nem trabalha. Opção financeira mais rentável? Tráfico. Ou descolar um gringo em Copacabana. Seguindo as regras clássicas da especulação financeira, no crime vale a regra de quanto maior o ganho maior o risco.

Na década de 70 o típico preso no Estado de São Paulo era casado, tinha 27 anos e alguma formação profissional. Hoje mais de um terço tem entre 18 e 25 anos e escolarização pífia. Entre o estudo e o crime existe sempre a possibilidade do extermínio. Segundo o Ministério da Saúde, de 1981 a 1989, 59 mil brasileiros entre 15 e 24 anos foram assassinados. Subiu para 112 mil entre 1991 e 1999. Hoje, nas capitais brasileiras, 43% das mortes entre jovens de 15 a 24 anos são assassinatos. Boa parte dos jovens morre pelas mãos de jovens. O restante fica para a própria polícia, que pouco diferencia o estudante do criminoso.

(Época, Agosto de 2002)

O estudo não compensa

O Brasil precisa de educação. Já o jovem brasileiro precisa é de dinheiro mesmo

 

Todos os experts concordam: o Brasil precisa é de educação. Há dez dias, um professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) afirmou que as diferenças educacionais explicam 40% das diferenças de renda entre os brasileiros. Para cada ano na escola a renda futura do estudante seria 16% maior.

Quer dizer que quem estuda mais ganha mais? Não. A FGV prova que quem estudou (no passado) ganha mais (hoje) do que quem não estudou. O resto é empulhação eleitoral e marketing de cursinho.

Para o jovem brasileiro em 2002 o crime compensa muito mais que o estudo. Existem duas razões para isso. A primeira é que o Brasil tem se mostrado um país pouco inteligente. A média de estudo para a população acima de 15 anos é de 4,9 anos, na rabeira do planeta. A educação brasileira em todos os níveis é uma porcaria.

Quanto a nossas melhores escolas e universidades e seus formandos, atenção para o novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e seu Índice de Avanço Tecnológico. É uma síntese de oito indicadores diferentes que representam a capacidade de inovação de cada país, o que cada um tem a contribuir para a humanidade. Ganha o país mais inteligente. O Brasil instruído ficou em 43o.

A segunda razão é que não basta ter diploma, o diploma tem de render uma boa grana. Nações muito bem educadas já jogaram seus melhores cérebros na rua, da União Soviética à Argentina. Resta a eles engolir a frustração mal remunerada ou tentar debandar para países ricos.

Aqui, igual. Piora cada vez mais a vida do brasileiro educado, viajado e bilíngüe. Boa parte está desempregada ou vegetando em frilas e subempregos. Está apelando também. Big Brother é exemplar: entre jovens brancos de classe média vale tudo por R$ 500 mil (até entrar para a indústria do seqüestro, cujos mandantes são os criminosos com maior índice de escolaridade).

Com tudo isso, é espantoso que tantos brasileiros insistam em estudar. Principalmente os que têm de trabalhar também. O universitário favelado do Rio de Janeiro, por exemplo, tem renda equivalente à metade da média dos universitários da cidade (nem compare com os da Barra). É muito mais natural para os mais pobres se garantir no crime.

Um estudo em 51 favelas cariocas deixa muito claro. Acima dos 15 anos de idade, 20% dos favelados são analfabetos, mas o restante é quase: só 15% cursaram o ensino fundamental. Os salários dos meninos olheiros dos traficantes chegam a R$ 1.200 mensais. Compare com os bairros mais pobres de São Paulo, onde o salário médio do chefe de família é R$ 450.

Já está achando que o crime compensa? Pois saiba que na periferia paulistana 41% dos homens entre 15 e 19 anos não freqüentam escola e um terço entre 18 e 24 anos está desempregado. E as meninas? Vida dura também. Na periferia paulistana 12% das garotas entre 14 e 17 anos são mães. Nas favelas do Rio metade das meninas entre 15 e 17 anos não estuda nem trabalha. Opção financeira mais rentável? Tráfico. Ou descolar um gringo em Copacabana.

Seguindo as regras clássicas da especulação financeira, no crime vale a regra de quanto maior o ganho maior o risco. Na década de 70 o típico preso no Estado de São Paulo era casado, tinha 27 anos e alguma formação profissional. Hoje mais de um terço tem entre 18 e 25 anos e escolarização pífia.

Entre o estudo e o crime existe sempre a possibilidade do extermínio. Segundo o Ministério da Saúde, de 1981 a 1989, 59 mil brasileiros entre 15 e 24 anos foram assassinados. Subiu para 112 mil entre 1991 e 1999. Hoje, nas capitais brasileiras, 43% das mortes entre jovens de 15 a 24 anos são assassinatos. Boa parte dos jovens morre pelas mãos de jovens. O restante fica para a própria polícia, que pouco diferencia o estudante do criminoso.

(Época, 2002)


As regras do jogo

Este blog contém textos novos e velhos. Os velhos foram publicados em algum lugar. Veículos grandes às vezes. Assinei um papel dizendo que o texto que escrevi não é de minha propriedade, é da empresa que me pagou. Em inglês chama “work for hire”. Não sou contra. Combinado não é caro.

Dito isso, publico estes textos sem pedir autorização para os veículos originais. Por três razões:

a) não estou prejudicando os veículos. Eles não estão fazendo nada com minhas velharias. Não perdem um centavo de eu republicá-los aqui.

b) este blog é pessoal. Não estou beneficiando nenhuma empresa com estas republicações. Aliás, o blog nem tem publicidade.

c) é uma completa insanidade alguém querer controlar como seus textos / fotos / qualquer coisa digitalizável. A tecnologia não permite proteção eficiente e consumidor não quer.

Por isso, com toda a admiração que tenho pelas licenças do tipo Creative Commons, não me meto a querer legislar sobre o uso que você quiser fazer do que está escrito aqui. Até porque não tenho como controlar. E sei disso faz tempo. O texto abaixo foi publicado em Época em 2002.

 

Nós não vamos pagar nada daqui pra frente


O direito de copiar e distribuir sem lucrar

Information Wants To Be Free é o famoso lema da Electronic Frontier Foundation, a ONG que luta pelos direitos do cidadão digital. Mas a nova geração global está traduzindo ‘free’ por ‘grátis’. Em pouco tempo nós não vamos pagar nada por músicas, filmes, games, softwares – e revistas como esta. Tudo o que pode ser digitalizado pode ser copiado facilmente.

Mas hoje as leis de propriedade intelectual (ou copyright)dão ao criador, pessoa ou empresa, direitos exclusivos de copiar, modificar ou distribuir sua obra. A primeira lei do gênero é inglesa, de 1710. Dava direitos ao autor de um livro por 14 anos e, se ele estivesse vivo depois disso, mais 14.

Depois a reprodução era livre. Hoje, nos Estados Unidos, que têm as leis mais abrangentes, o copyright vale por 75 anos após a morte do criador. É assim que Mickey, Ernest Hemingway ou Louis Armstrong continuam rendendo para as empresas que detêm seus copyrights.

Mas hoje existe o movimento copyleft, que quer revogar os direitos decopyright para que qualquer um possa copiar e distribuir qualquer obra. Sempre sem tirar lucro disso. É o que diferencia o copyleft da pirataria.

É eticamente defensável e uma radicalização do movimento do software livre, cujo líder, Richard Stalmann, acaba de visitar São Paulo. Seu objetivo é ‘criar e disponibilizar software grátis e eficiente para todas as necessidades de toda a humanidade’. Está dando muito certo. Um dos resultados é o famoso Linux, o sistema operacional gratuito. Quem precisa de PC para funções básicas já tem ótimas opções na faixa, inclusive em português – confira o novo sitehttp://www.openoffice.org.br.

Além da teoria tem a prática. Ninguém vai pagar se puder obter de graça, especialmente os mais jovens e os mais duros. Basta ter acesso a um PC, que hoje se monta por R$ 1.000. Mas temos alternativas populares pipocando: o PC do Milhão, as LANhouses, projetos como os Telecentros paulistanos, escolas informatizadas e até o Wal-Mart, que anunciou esses dias PCs por US$ 200 – nos EUA e em breve no planeta.

Fora tudo isso há a pirataria, que (como as drogas) repressão nenhuma consegue deter e gerou prejuízo de US$ 4,2 bilhões em 2001 apenas para as gravadoras – US$ 1 bilhão só nos quatro maiores pirateiros, Brasil, Rússia, China e México.

A grande pergunta é: os criadores vão continuar produzindo sem a expectativa de retorno financeiro – sem a chance de ficar milionários? Spielberg, os Racionais, escritores, editores, criadores de softwares e games vão morrer de fome? E as empresas de comunicação, vão falir ou vão se reinventar?

Ninguém sabe responder. Mas enfrentar o copyleft, o movimento do software livre e a pirataria é derrota certa. Nós não vamos pagar nada – e cada vez mais gente sabe disso.


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