Stay Sick!, The Cramps

Quem tem amigos não precisa de mais nada. Recebi três cópias da resenha de Stay Sick! Obrigado. Agora mandem o resto da tralha, que eu vou postando!

Curiosidade: eu fiz toda esta propaganda dos Cramps em agosto de 90. E depois a EMI-Odeon cancelou o lançamento.

E destaque para a burrice do autor. Minha primeira Bizz como editor foi em maio de 90. Em agosto, neste texto, foi a primeira vez (de muitas) que chamei os executivos brasileiros de gravadoras de desmiolados, patetas, incompetentes etc.

Depois, quando saí da Bizz e comecei a General, não entendia porque as gravadoras não anunciavam na revista. Gênio…

 

Stay Sick!, The Cramps

 

Pílulas de Anfetamina! Garotas de biquíni com metralhadoras! Todas as mulheres são más! Viagem ao centro de uma mina! Anything goes!

Não, não é um ataque da tradicional esquizofrenia paulistana de inverno. São só os títulos de seis das treze músicas do novo disco dos Cramps, o monstruoso quarteto californiano que inventou o psychobilly e que finalmente estréia no Brasil depois de doze anos sendo ignorado pelos perdulários cabeça-ocas que controlam as gravadoras deste país.

Os Cramps eram um grupelho obscuro até 80, quando apareceram no vídeo Urgh! A Musical War. Quem viu, não esqueceu: o vocalista Lux interior parecia um Iggy Pop possuído por Belzeu. Lambia e cuspia no microfone, rolava no chão, suava como um suíno.

O som era puro rockabilly / rock de garagem sessentista – só que encharcado de ácido e triturado num moedor de carne, que é a fórmula musical de tudo que o Cramps fez e faz.

As letras são baixarias alucinatórias inspiradas pelo sumo do lixo classe Z da cultura trash americana. Se você já viu Massacre da Serra Elétrica, qualquer filme psicodélico do Roger Corman tipo The Trip ou aquele vídeo pornô New Wave Hookers, sabe perfeitamente do que se trata.

“Stay Sick” é o disco de maior sucesso na carreira dos Cramps, o que explica porque ele foi lançado aqui. O single Bikini Girls With Machine Guns chegou a entrar na prada oficial inglesa, o que nunca tinha acontecido antes. Até esse ano, o maior hit dos Cramps tinha sido Can Your Pussy do the Dog, do sexualmente ensandecido LP “A Date With Elvis”, de 86.

Como “Elvis”, este “Stay Sick” Mostra um Cramps menos barulhento que em seus primórdios – o evangelho do noise crampiano é “TV Set”, do disco Songs the Lord Taught Us (80). Na prática, isso quer dizer que dá para diferenciar sem esforço uma faixa da outra,entre as nuvens de feedback paridas por Poison Ivy Roschach, mulher de Lux Interior, produtora de “Stay Sick!” e melhor guitarrista incompetente do Universo.

Clássicos intantâneos: “God Damn Rock’n’roll”, “Bop Pills” e “The Creature from thee Black Leather Lagoon”. Os Cramps continuam doentes e do cacete. Se estiver com a grana em cima, compre dois.

(Bizz, agosto de 1990).

 

Henry Rollins relembra Lux Interior e eu não lembro de mais nada

Com a morte de Lux Interior, chegaram vários emails me pedindo para colocar aqui a resenha que fiz para a Bizz de “Stay Sick”, o clássico dos Cramps.

Uma que eu não lembrava de ter feito.

Outra que não tenho, ninguém tem, a íntegra da Bizz digitalizada. Aquela coleção de DVDs é bacana, mas não dá pra copiar e colar o texto.

Ou alguém aí sabe onde encontrar os textos velhos da Bizz (e SET, e General etc.) prontos para eu postar aqui? Se sim, avisa, please, que subo minhas relíquias todas.

Enquanto isso, quem gosta de Cramps vai gostar de ler o depoimento abaixo, afanado do mais que recomendado site Trabalho Sujo, do camarada Alexandre Matias.

 

Henry Rollins relembra Lux Interior

I grew up in Washington, D.C., in the ’70s, and when punk rock came along, I realized that my ship had come in. The Cramps would come down to D.C. and I would see them play in a space about the size of your living room. It was kind of scary being in the front row. Lux would find something to swing from — if there were ceiling tiles, they’d all be on the floor by the end of the thing. Lux would somehow find his way out of his pants and be down to a pair of bikini briefs twitching all over the floor. He’s a very large man, very tall and very pale and very sweaty. They all looked so amazing. Each one could have been a movie star.

I remember buying their first or second single from a roadie who was selling them for three bucks at the door. It’s probably worth its weight in gold now. The first two Cramps 7-inches are some of the first independent singles I ever owned. Once I drove up to New York to see them in my little VW; it was me and most of the Bad Brains all crammed into my little car. It was at Irving Plaza, and H.R. from Bad Brains, he went backstage because he’s a big rock star, and he came out with a slick of the album cover and the whole band had signed the back. I still have it to this day.

Ian MacKaye’s first band, the Teen Idles, once opened for the Cramps, and it was a big deal. So the Cramps go on and we’re all up front and Lux is unbuttoning his pants and flopping around on the ground. So, being helpful Boy Scouts, we just kind of yanked on his jeans. They rolled off and we were just standing there with these dripping jeans.

Afterward, we walked backstage to give Lux his pants back, and we’re kind of terrified of the Cramps because we don’t know what they are like. And we go backstage and there is [guitarist] Bryan Gregory looking satanic, and Ian kind of mumbles “Oh, here’s Lux’s pants.” And Bryan Gregory says, “Oh look! Lux! The boys have brought your pants back and they’re cleaned and pressed.” Everyone laughed, and Lux said thank you, and we just kind of ran downstairs.

Many years later we played together at the Pukkelpop festival [in Europe]. At that time Lux was in his rubber pants/high heels/pour-wine-all-over-himself era. So they finished their set and he’s walking up the stairs with that bouffant, he’s been rolling on the ground and he’s red from wine, his mascara is running and I think one heel is broken. He’s this very large man tottering up the stairs, and I said, “Hey, Lux,” and he kind of looked at me and said, “Good afternoon!”

You get the idea that there was something very decent about them, that there was something almost like your dad about how they were. And it seems to me that Lux and [his wife and bandmate] Ivy were fairly insular, away from the general roar of things, which makes them interesting to me.

I really appreciated their fascination with ’50s car culture and everything camp. They’ll be the first to tell you, “We’re not in school right now.” And so to me the Cramps were always just really fun and clever. Like the lyrics for “Garbageman,” they’re smart and cool, in the way that Mark Twain was smart and cool.

Those early records, like the first two singles and the “Gravest Hits” EP and “Songs the Lord Taught Us” and “Psychedelic Jungle,” to me are just as good as American music gets. There’s a handful of bands that are just part of your working mojo, and the Cramps are one of those bands. I went to that Miles Davis function they had the other night and I saw Raymond Pettibon and Mike Watt there, and they were just really bummed about Lux. To have that and Ron Asheton right in the same immediate period of time was really a loss.

In my opinion, when it comes to being a frontperson, you should say, “That person could never hold a full-time job. Just give him a microphone and get out of his way.” And that was Lux — he was definitely that uncontainable personality. And that voice — the guy could really sing. Nothing sounds like him. He had that gender-bending kind of “What is he?” thing . . . He was kind of crazy, and you gave him some room because he might get some on you. That informed me as far as being a frontperson owning your territory.

Do LA Times.

Rebeldes contra o nada

Quando escrevi esse texto em 95, não podia imaginar nem em meu pior pesadelo que em 2008, 90% das novas bandas gringas e brazucas seriam filhotes do Green Day. Que a lei seca iria proibir a gente de beber em bar. E que eu já teria parado de fumar dez anos atrás.

Mas vá, até que eu gosto de All American Rejects. Continuo bebendo em bar. E quando tomo umas, fumo um cigarrinho.

 

Podem proibir à vontade que a gente vai gostar

Antes de mais nada: eu fumo desde os 13 anos e vou continuar fumando em bares, restaurantes, shows e onde der na minha telha. Mas pensando bem, tem até seu lado bom essa proibição de fumar que o Maluf inventou.

Tudo que é proibido é mais gostoso. E assim, muitos jovens que hoje nem pensam em cigarro podem se sentir atraídos a fumar, só pelo prazer de estar rompendo as regras.

Deste, quem sabe uns dez por cento se acostumam com a idéia de romper as regras. Quem sabe esses dez por cento começam a considerar a “lei” uma coisa ridícula, feita por gente de segunda categoria em causa própria, e obedecida só por quem não tem dinheiro ou imaginação.

Aliás, isso tudo tem a ver com o Grammy. Não tem coisa mais fácil ou mais burra que descartar esses shows de entrega de prêmio, tipo Oscar e Grammy. Sim, eles são sempre superchatos.

Mas você aprende um monte de coisas assistindo, se fizer um pouquinho de força. Eles são uma espécie de retrato do que cada segmento comercial de o que a cultura pop pensa a seu próprio respeito.

Veja a entrega do Grammy, semana passada. Peguei só uns pedaços, o que foi pena, porque sempre faço questão de assistir essas paradas do começo ao fim (não perco um Oscar desde 1981). Foi a vitória de um novo segmento da música mundial, o “adult alternative”.

Há pelo menos um ano que a indústria fonográfica e a mídia buscam um rótulo para essa “próxima grande coisa”: a união do apelo “visceral, de raiz” das várias cenas underground com acessibilidade do pop assumidão. Tipo “esses caras são muito loucos, mas sempre chegam na hora em todos os compromissos”.

Aí que você vê gente como Sheryl Crow, Counting Crows, Crash Test Dummies e outros emplacando em uma entrega de prêmios atrás de outra. E, é claro, cabem subsegmentos dentro do “adult alternative”. O adulto alternativo mais roqueiro, como Soundgarden, mais country, como Dwight Yoakam, mais rapper, como Queen Latifah, ou mais dance, como Crystal Waters. Tudo gente com apelo nas suas “cenas” originais, mais confiáveis o suficiente para serem vendidas para “gente grande”.

Até certo ponto, nada contra. Cada um compra o que quer (o homem está fadado a pelo menos esta liberdade, a de consumir conforme o dinheiro que tem). E todos esses caras têm lá seus defeitos e qualidades que não vêm nem um pouquinho ao caso. E cabe à mídia e à industria ter sempre uma maneira de empacotar as coisas.

E Sheryl Crow realmente é uma gracinha e “All I Wanna Do” dá vontade de a gente propor casamento para a menina (se bem que chamar uma garota que fazia backing vocal para Michael Jackson de “alternativa” é uma baita forçação).

Mas depois de um certo ponto, tudo conta. Fico meio embatucado com essa facilidade de marcha de mudança do mundo moderno. Tem um certo charme “cyberpunk” de butique viver em um mudo em que nada quer dizer coisa nenhuma. Mas às vezes dá uma certa nostalgia de amarrar seu burro em alguma certeza.

Caso musical: Green Day. Não tem banda no mundo que eu odeie mais que o Green Day. Só de ver a cara daquele Billy Joe me dá engulhos profundos. Pastiche punk é legal e eu gosto de Billy Idol. Mas o Green Day é outra história.

A banda sugere um vácuo existencial absoluto. Eles não são rebeldes sem causa, são rebeldes contra o nada. Não querem destruir nada, não querem construir nada, não querem tirar sarro de nada, não querem virar popstars, não querem se descerebrar no meio da microfonia. Estão para o punk rock como o pôster da “Playboy” está para uma trepada.

O Green Day é a banda perfeita e eleita para representar zumbis adolescentes de todo o mundo. Como reconhecem a “Spin”, a “Rolling Stone”, a MTV, o Grammy e o American Music Awards. Como seus fãs, não quer dizer nada e não vai deixar marca nenhuma no mundo.

(Folhateen, 95)

Ramones: Rocket to Russia

 

É duro ser um garoto de doze anos afundado até o queixo no lodoso tédio urbano. Todo mundo dá palpite na sua vida. O status em casa e na rua, a voz e até o corpo ainda são de criança – mas os instintos são de homem, e as garotas, todas ficando peitudas, não estão nem aí com você. Escrotas. Piranhas.

A única saída é dar uma de muito mais durão do que você realmente é. Começar a beber, fumar, bater punheta direto. E estar pronto para sacrificar qualquer coisa por alguns momentos de diversão adrenal.

Mas dá mesmo para sacrificar? É difícil. Nem todo mundo é durão de verdade. Dá até para afetar a cara de mau, mas no fundo você gosta de sessão da tarde… jogar fliperama, tomar milkshake, ouvir rock altão no seu quarto só para zoar com a mãe, pegar uma praia, passear ao crepúsculo de mãos dadas com sua baby (quem dera)…

Dá para jogar tudo para o alto só por um pouco de alegria? Vale a pena matar aula o tempo inteiro, não estar nem aí com a escola? Sim, se isso garantir a admiração das minas e o respeito dos colegas. Mas e se depois você acaba tomando pau por causa disso? Cheirar cola é gostoso… mas faz mal! Mas… qual é o problema de fazer mal? No fundo você vai acabar morrendo mesmo!

Viver é uma confusão desgraçada – e nunca isso fica mais claro na vida de um homem do que quando começam a aparecer os primeiros pêlos na cara.

O absurdo é que quatro nova-iorquinos broncos tenham capturado com tanta precisão este estado de espírito púbere que-se-foda. Sem intelectualismo nem autoparódia e em plena hegemonia Yes-Led, os Ramones inventaram o som da adolescência. Puro, sem misturas, sem gelo.

As bases já existiam, claro. O rock de garagem dos anos 60, a surf music, o bubblegum, Stooges, os Stones do começo, New York Dolls. O próprio Joey Ramone começou a cantar numa banda glam (o Sniper).

Mas os Ramones levaram a coisa um passo adiante, indo direto ao esqueleto do negócio: músicas de dois minutos, refrões simples e riffs primários, letras que viam a dor e a delícia de ser teenager através do rayban da cultura popular mais acessível e rastaqüera.

Tudo tão rápido, pesado e pegajoso quanto possível. Urgente como um comercial de TV. Punk rock, mesmo – se você pensar que punk originalmente significa vagabundo de rua, tranqueira, cara inútil para a sociedade.

Rocket To Russia pegou o que já era perfeito – os dois primeiros discos do grupo, Ramones e Leave Home, ambos de 76 – e elevou à categoria de transcendental. Tem duas covers, “Do You Wanna Dance?” e “Surfin’ Bird”, que dispensam comentários. E outras doze faixas originais essenciais, escritas com senso de humor, produzidas com capricho minimalista e executadas com a fúria e o tesão de quem está se divertindo pra cacete – contra tudo e todos. Entre “Rockaway Beach” e “Teenage Lobotomy” está tudo o que você precisa saber sobre rock.

Também tem “Sheena Is A Punk Rocker”, “Cretin Hop”, “I Wanna Be Well” – mas escute, não é isso que importa. Não importa que Johnny Rotten e Joe Strummer e esse bando todo de ingleses tenham se inspirado e imitado os Ramones, nem que grande parte da new wave, do punk e todo o hardcore deva as calças ao quarteto. Não importa a famosa cena do CBGB, nem o Blondie, nem os Talking Heads. Se discos futuros seriam irregulares, se eles bebiam ou se drogavam, se eles se repetiram, se Dee Dee compunha melhor que Johnny, se Mark isso e aquilo – naaaada disso importa.

O que importa é Joey Ramone cantando “I don’t care about this world/I don’t care about that girl… I don’t care”. Eu não tô nem aí, não tô nem aqui e quero que tudo mais vá pro inferno. I just wanna have some fun.

Ramones, a melhor banda de rock’n’roll da história – provavelmente.

 

(BIZZ, 1991)

Querida Angélica

  

Querida Angélica:

Fui ver o show que você fez lá no Projeto SP.

Tenho que confessar que nunca tinha visto um show seu, nem ouvi seus discos. Nem o Clube da Criança eu vejo, porque eu trabalho e não dá tempo e além disso eu não gosto nem dos desenhos que você passa e nem do Jaspion.

Sabe por que eu fui ver o seu show? Porque eu sou jornalista. Escrevo sobre música e portanto todo mundo que vende muito e está se tornando uma estrela me interessa. Também fui ver seu show porque nunca entendi bem a razão do seu sucesso. Você é bonita, mas não é sexy. Não sabe cantar - sem ofensa, é só uma constatação. Tua voz é pequenininha, nas gravações ela é sempre multiplicada e melhorada. Eu ouço música para caramba, lembra, reconheço uma voz tratada quando ouço uma. Você também não dança muito bem - apesar de pular bastante como uma menininha. Aliás você fala como uma menininha, faz caretas e tudo como se fosse uma piveta.

Só que você não é, né? Você já tem dezesseis anos. O John Lennon já tinha uma banda com essa idade. O Sid Vicious entrou para os Sex Pistols com dezessete. Os caras do De La Soul são pouco mais velhos que isso. Eu quando tinha dezesseis anos matava aula com meus amigos repetentes para ouvir Clash. A coisa que eu mais queria era crescer e virar dono do meu nariz o mais rápido possível. Você parece encanar que é uma versão loirinha do Peter Pan, que não queria crescer.

Aí eu estava sentado lá no Projeto SP e fiquei pensando sobre você, o seu sucesso e o seu show. Não gostei muito dele, não, achei que faltava ritmo - pô, toda hora tinha interrupções para você falar com as crianças e cada vez que você ia trocar de roupa demorava um tempão e aquele cara vestido de macaco eu achei muito metido a gostosão e pentelho.

Do que mais eu não gostei? Daquele cenário com umas rosas vermelhas, era muito brega. A iluminação era legal e o playback estava bem gravado, as suas músicas são super bem arranjadas, bem pop, lembram um pouco o que aqueles produtores ingleses da Kylie Minogue fazem. Também gostei das suas roupas, principalmente daquele conjuntinho de couro preto e PVC, com as meias de rede e a capa vermelha. Só não entendi por que você escolheu ele para cantar aquela versão de “if”, que eu não ouvia desde os tempos de bailinho. Também adorei aquele momento anos 50, você de peruca bolo-de-noiva e vestidinho branco (sem sutiã por baixo, notei, mas não se preocupe que não dava para ver nada).

O principal problema do teu show, das tuas músicas e da tua imagem, Angélica, é que esse charme infantil vai durar muito pouco. Em três anos você já vai ser uma mulherona, e não tem nada mais ridículo que gente grande fazendo beicinho. No seu estágio atual, você está fazendo sucesso porque é bem moderna - no sentido que o Milli Vanillí é moderno. Mas, se você quiser que sua carreira tenha um futuro, tem de tomar umas providências.

Primeiro, aprenda a cantar - se a Madonna conseguiu, você também consegue. É o que a Patrícia, que é esperta, fez. Dois, pára de trabalhar tanto e vive um pouco. Sei que você tem uma empresa para sustentar, mas invista um pouco no teu lazer senão você acaba maluca e vazia que nem o Michael Jackson.

E três, que tal se apaixonar logo? Agarra o primeiro menino que te interessar e arrasta ele para a cama. Sem experiência não se chega a lugar nenhum - e isso incluí e exige experiência sexual e afetiva. Nada como apanhar um pouco da vida para perder o excesso de açúcar. Se você cair na vida, pode muito bem se tornar uma estrela pop de primeira. Se insistir em ser criança para sempre, vai passar como passam todas as modas. Boa sorte e beijos do teu possível futuro fã,

ANDRÉ FORASTIERI

(Bizz, 1990)

 

When we were young: U2 e Internet, 1993

Junho de 93, e a capa da Bizz caiu a dias do fechamento. Nem lembro o que era. Salvação: meu chefe negocia com a gravadora do U2 uma audição do novo disco. Toca eu para o Rio no dia seguinte, bate-volta. Numa sala fechada na BMG ouvi sozinho Zooropa, duas vezes, anotando feito louco e copiando todas as informações do encarte, e voltei para São Paulo.

Saiu este texto abaixo, parido em duas tardes, capa da penúltima Bizz que editei. Foi inspirado por Neal Stephenson e pela leitura religiosa da Wired, minha bíblia na época. Usa o U2 para falar do que me interessava naquele momento e prefigura os próximos passos do autor - a saber, pedir demissão para começar minha própria revista, editora, negócio, vida adulta.

Eu não lia isso desde aquela época. Não lembro de onde tirei tanta informação. Não acaba de repente, não - é que a resenha do disco vinha num box, sob o título “Apocalipse Experimental”.

Enfim, está aqui com título e olho e tudo, que pega mais o clima.

Curioso: neste texto em que a internet é a principal personagem, nenhuma vez aparece a palavra internet. Nem web, claro. A web ainda não tinha sido criada.

God, I’m old.   

 

 

ALÉM DA IMAGINAÇÃO

 

Bono travestido? O U2, grande bastião do “rock visceral”, produzindo hits

para discotecas? Uma banda católica, posando ao lado de modelos seminuas? O

U2 está passando por uma mutação surpreendente - mas agora Bono & Cia.

Radicalizaram definitivamente seu trabalho, com um disco ousadíssimo. André

Forastieri tenta entender o que se passa com esse mundo muito estranho e sua

maior banda de rock

 

  • CONFIRMADO 9/05
  • NOVO DISCO DO U2 ZOOROPA LANÇAMENTO MUNDIAL: 6/07
  • PRIMEIRO SINGLE/CLIP “NUMB” /LANÇAMENTO MUNDIAL: 26/07
  • NOVO DISCO DE REMIXES PARA PISTA EM OUTUBRO
  • CONFIRMADA RENOVAÇAO COM A GRAVADORA ISLAND
  • CONTRATO CALCULADO EM MAIS DE CEM MILHÕES DE DÓLARES
  • O NEGOCIO MAIS CARO DA HISTÓRIA DA MUSICA INCLUI COMPRA DE DEZ POR CENTO DA ISLAND PELO U2
  • BANDA FAZ SUA TURNÊ EUROPÉIA ATÉ 30/07
  • A IMPRENSA ANUNCIA A SAÍDA DO BAIXISTA ADAM CLAYTON DO GRUPO

 

Estamos no amanhecer de um novo mundo - onde estaremos todos conectados via

fibra ótica, brigando e se amando e aprendendo e votando e transmutando a

maneira como nossos cérebros funcionam e principalmente, antes de mais nada,

comprando (o shopping-orgasmo, além dos nossos mais desvairados sonhos,

agora ao alcance de seu controle remoto).

Enquanto isso, milhões apodrecerão de fome e Aids e mediocridade e analfabetismo tecnológico. Velhos conflitos, novos problemas, soluções efêmeras - cada vez mais rápido e mais na sua cara.

Um grupo de rock formado por quatro irlandeses está firmemente convencido

de que cabe a eles compor a nova trilha sonora, catalisar os beats pelos

quais todo o planeta dançará. Mais que isso, eles querem articular esse

universo fragmentado de mudanças contínuas de maneira artística e militante.

Criar pontes de compreensão e comunicação.

Estar ali, na fronteira do futuro. Surfar na Terceira Onda.

O disco Achtung Baby e sua simultânea Zoo TV Tour já tentavam estabelecer

as novas regras do novíssimo jogo. Que não basta fazer música - é preciso

participar! - já era um dado fundamental no histórico do U2 (é bom lembrar

The Commitments: a Irlanda está para a Europa como os negros blueseiros para

a América W.A.S.P.). Mas agora Bono Vox, The Edge, Larry Mullen e Adam

Clayton redefiniram seu conceito de militância.

O que está mudando o mundo, diz muita gente e eles acreditaram, não é votar

nos partidos de esquerda (left is right) nem militar nos sindicatos

(aparelhos obsoletos) nem fuzilar nossos governantes (primeiro porque eles

serão substituídos por gente tão bunda quanto e segundo porque só estão

fazendo seu trabalho: administrar aos trancos e barrancos as ruínas da

sociedade industrial).

Não, o que está mudando o mundo é - um, dois, três -

a tecnologia. Todo mundo sabe: na virada do milênio, o que passa na

televisão passa por realidade. A popularização do controle remoto tem mais

peso político que os conchavos dos engravatados - e a explosão da

interatividade fará de cada consumidor parte de uma rede global de

conhecimento, informação, atuação e consumo.

O indício mais óbvio deste novo

mundo está nas nossas caras: a MTV (uma vitrine empastelante criada única e

exclusivamente para vender discos!) se tornou um instrumento político

fundamental. Por que você acha que Clinton se elegeu?

É outro jogo, com outras regras e o divertido é que o próximo estágio do

capitalismo tem suas regras na música e na cultura pop. O U2 sacou que este

mundo novo é tão filho dos investimentos em tecnologia, que o Pentágono

bancou nos anos 80, quanto do LSD. Tão ligado ao marketing de guerra quanto

ao espírito empreendedor da cultura punk.

Economistas hardcore, samurais corporativos, futurólogos governamentais -

todos concordam numa coisa: estamos passando de uma sociedade industrial

para uma sociedade informacional, em que o principal capital será o

conhecimento. O setor estratégico da economia mundial, dizem os experts,

passa agora a ser uma interface entre telecomunicações, informática e

entretenimento. Tanto que criar uma “auto-estrada informacional” virou

prioridade do governo americano.

Que esse futuro já está às nossas portas é consenso. Não tão divulgadas são

as conseqüências nefastas que essa mudança radical trará. A recessão não vai

acabar. Quem ficar fora deste processo evolutivo/tecnológico estará

destinado ao desemprego crônico. Os pobres continuarão ficando cada vez mais

pobres, os ricos cada vez mais ricos. As rivalidades nacionais/ tribais

continuarão esquentando - a coisa vai do neonazismo incendiando turcos na

Alemanha unificada ao separatismo brasileiro. O que, mais uma vez, mexe com

o âmago do conceito U2 - a bronca, a militância, a luta contra a injustiça

(é careta? Pode ser, mas também é fundamental).

Como dizia Norman Mailer nos anos 60, “vem uma tempestade de merda por aí”.

Você pode ver isso como os últimos espasmos da civilização, ou como as dores

de parto de um mundo novo e interessante. Descobrir de que lado deste muro

você está é a grande questão político/cultural da nossa era.

Com tudo isso rolando, é apropriado que o pop - um dos pais desse mundo de

ficção científica - tente articular essa visão moderna (e modernosa) dos

anos vindouros em termos pop. Muita gente se meteu na mesma praia antes -

mais obviamente grupos de tecno, gente que faz som para rave, industriais e

eletrônicos em geral. Agora, até Billy Idol está lançando um disco de base

tecno chamado Cyberpunk.

Mas foi Achtung Baby e a Zoo TV Tour que levantaram essa bola futurista em

termos de massa. Afinal, o U2 ainda é “a maior banda de rock do mundo” (se é

a melhor ou a que vende mais não vem ao caso, mas que é a maior, ninguém

discutirá).

Daí o swing oriental de “Misterious Ways”, remixado para as pistas (duas

fronteiras da nova era interligadas: a visão multiculturalista e os garotos

chapados de designer drugs dançando a noite toda). Daí as táticas

situacionistas, o apoio ao Greenpeace (a política do amanhã está nas

organizações informais, flexíveis, não-governamentais). Daí a

auto-referência, o senso de humor, o terno dourado.

Daí a banda vestida de mulher em revistas de moda (e na capa desta

revista), a embaralhação de signos tradicionais do superstar, e daí a

monstruosa blitz de mídia em 91/92 (e agora 93, da qual fazemos

orgulhosamente parte - é bom de vez em quando estar do lado que vai ganhar).

E daí Zooropa disco e a tour - o mais ambicioso disco do U2 a mais ambiciosa

tour da história.

 

Sem fronteiras

 

Em 91/92, era a Zoo TV Tour. Zooropa 93 é uma versão muito revista e muito

melhorada. São trinta datas, começando 9 de maio em Roterdã e acabando 31 de

julho em Estocolmo.

Os menores shows são para 30 mil; os maiores, para 70 mil. Se todos os

shows lotarem, U2 terá sido visto por quase dois milhões de pessoas durante

três meses,

Para pagar os custos de cada show, é necessário que pelo menos 85% dos

ingressos tenham sido vendidos. Ao mesmo tempo, o U2 não aceitou nenhum

patrocínio corporativo, com exceção de um acordo de cobertura especial com a

MTV Internacional.

Para compensar a ausência de patrocinadores, a tour oferece um dilúvio de

merchandising de todos os tipos - bonés, camisetas, fivelas para cinto,

adesivos e até uma nota falsa de ECU (o novo dinheiro da Europa unificada).

Entre os que estão abrindo para o U2 em shows diversos estão grupos tão

variados quanto Velvet Underground, Belly, Einstürzende Neubaten, Stereo MCs

e o DJ Paul Oakenfold.

Os telões da Zooropa 93 foram especialmente desenvolvidos para a banda pela

Philips, pioneira na área de TVs de alta definição. A empresa controla a

PolyGram e através dela a Island. U2 aceitou dez por cento da propriedade da

Island, sua gravadora, em troca de royalties atrasados. U2 e Philips são,

portanto, sócios.

A programação de vídeo de cada show varia. Ela vem de três fontes: um grupo

americano que trabalha com sampleagem e colagem de vídeo, o Emergency

Broadcast Network; o produtor/diretor/músico Kevin Godley, da dupla Godley &

Creme, ex-10 cc; e de filmagens feitas com e pela platéia durante cada show.

Bono controla parcialmente o que está nos telões, via controle remoto.

O show inclui todos os grandes hits do U2, Achtung Baby e Zooropa

praticamente inteiros, uma versão de “Satellite Of Love” de Lou Reed, mais

músicas compostas pelo grupo para outros artistas, inclusive “Prodigal Son”

(que foi gravada pela banda mas não entrou no novo disco, mas estará só no

do cantor de soul americano Al Green, que Bono considera a maior influência

sobre seu estilo de cantar) e “The Wanderer” (que está em Zooropa, na voz do

cantor country e um dos inventores do rock´n´roll, Johnny Cash. A música foi

composta especialmente para Cash). Os shows sempre abrem com “Zooropa”, e

geralmente terminam com “Are You Lonesome Tonight”, o velho clássico de

Elvis.

É na última parte do show que Bono aparece como “MacPhisto” (uma piada:

Mefisto, o demônio tentador, que faz qualquer negócio em troca de uma alma -

só que irlandês). Usa terno dourado brilhante, sapatos plataforma, maquiagem

pesada e chifres vermelhos. É neste alter ego cafona, uma

paródia/auto-referência, que Bono interpreta alguns dos maiores sucessos da

banda - inclusive a mais famosa balada do U2, “With Or Without You”. Sobre o

personagem, Bono disse: “não sei de onde ele vem, nem sei para onde ele está

me levando. É excitante e amedrontador ao mesmo tempo”.

É mais um dos muitos jogos de cena de Bono, que escandalizaram/ deliciaram

os fãs do U2 nos últimos tempos. Entre os mais chamativos estiveram posar

vestido de mulher (você já viu); rebolar, apalpar e encoxar bailarinas

durante os shows desta turnê; aparecer bêbado carregando uma garrafa de

conhaque em entrevistas coletivas e fazer editoriais de moda para a Vogue ao

lado da modelo Christy Turlington, seminua.

Apesar das baixarias no decorrer da turnê, o grupo encontrou alguns de seus heróis literários. William

Burroughs - padrasto do movimento beat e uma lenda americana - participou de

um show de TV com a banda. Salman Rushdie, até hoje sob ameaça de morte por

parte dos xiitas iranianos por causa do livro Os Versos Satânicos, se

encontrou com eles num fórum sobre censura em Dublin. Charles Bukowski,

afiliado distante dos beatniks e bêbado escroto de marca maior, assistiu ao

show em Los Angeles. Gunther Grass, autor de O Tambor e um dos intelectuais

mais respeitados da Alemanha esteve com o grupo em Berlim.

No futuro próximo o U2 pode mudar de cara. Correm boatos de que Adam

Clayton pode deixar a banda (ele é o único não-crístão da banda e

está noivo da modelo Naomi Campbell). O futuro imediato da banda? Bono fará

um dueto com Frank Sinatra para seu próximo disco, produzido por Quincy

Jones. Willie Nelson e Al Green gravarão faixas especialmente compostas para

eles por Bono. Em outubro sai outro lançamento, com cinco faixas deste disco

remixadas para pista - quais, ainda não foi anunciado.

E o mais

interessante: o U2 está produzindo em acordo com a gigante dos videogames

Sega um CD-Rom - não um jogo, mas um produto interativo que une música,

vídeo, texto. Mais um passo na direção certa.

 

 

Apocalipse experimental

 

E depois que Zooropa 93 acabar Bono já anunciou que esta turnê só acaba

definitivamente depois que a banda tiver tocado nos cinco continentes. Resta

portanto os países do Pacífico - que provavelmente receberão uma versão um

pouco diferente da excursão ainda este ano - e América Latina.

Tanto os fãs de “Sunday Bloody Sunday” quanto os de “The Fly” vão

estranhar. A nova parceria do U2 com Brian Eno - produtor que fez o estouro

da banda de The Unforgettable Fire para frente - vai mais longe do que

qualquer supergrupo já foi.

Zooropa, o disco, é a cara de Zooropa 93, a tour - uma superprodução que

embaralha completamente o que se espera do U2 com o que o grupo espera de si

mesmo. Antes de mais nada, porque é um disco conceitual. A ambição explícita

é retratar um mundo que vive na fronteira da revolução eletrônica - e como

isso afeta o cotidiano das pessoas comuns deste planeta. Como viver num

mundo em constante transformação afeta os sonhos, as aspirações políticas,

as angústias pessoais e as expectativas espirituais do cara aí na esquina. E

ambição demais para um mero disco. Muita gente boa já gastou milhares de

páginas tentando articular essa visão, inclusive o escritor William Gibson,

o mais importante criador da ficção científica cyberpunk e segundo Bono o

grande inspirador de Zooropa.

As gravações foram realizadas em intervalos desta turnê européia. Quando o

grupo tinha uns dias livres, voltava rápido para o estúdio, em Dublin. Esse

método de composição e gravação se refletiu no feeling final do disco. E um

trabalho muito europeu, dos temas das letras aos timbres usados. O resultado

final remete imediatamente à virada dos anos 70 para os 80: o David Bowie

berlinense de Low, Lodger, Heroes: o refinamento do Roxy Music; as

experimentações de base pop do Japan. E alguma coisa difícil de definir,

talvez a angústia, do Joy Division.

Claro que Zooropa não é um xerox amarelado dessa fase do rock. O disco soa

moderníssimo: Flood e Brian Eno cuidaram disso. Flood foi o engenheiro de

som. E um dos mais importantes produtores de música eletrônica do mundo. É

´colaborador local” do selo Mute, onde produziu (e/ou remixou) quase todo

mundo que é alguém no tecnopop britânico. Seu associado mais famoso e o Depeche Mode.

Brian Eno vai um pouco mais longe. Eno é um dos grande experimentadores da história da música. Começou

no Roxy Music, no início dos 70. Trabalhou muito com Robert Fripp, outro

grande experimentador, inclusive na ´trilogia Berlim” de David Bowie. E um

dos pioneiros da música ambient - que hoje se infiltra até no maior domínio

do ritmo, a dance music. Fez o influente disco de world music ambiental (na

época, o rótulo era etnopop) My Life In The Bush Of Ghosts, com David Byrne.

Recentemente voltou ao pop com John Cale, no disco Wrong Ways Up. Continua

sendo vanguarda - seja lá o que isso quer dizer.

No meio dessa história toda, Eno achou tempo para produzir o disco que

estourou o U2 mundialmente - The Unforgettable Fire - e ainda o seguinte.

The Joshua Tree, que sedimentou definitivamente o status da banda.

Zooropa não tem nada a ver com esses discos. Demorou, mas finalmente o U2

(visceral, obcecado por ritmos americanos, tocando rock de arena com refrões

poderosos) e Brian Eno (dandy, esteta, sutil, mago de estúdio) sincronizaram

seus interesses. O resultado deste encontro é modular, monotônico,

hipnótico. Refrões são desimportantes. Quase nenhuma música permite se

cantar junto, muito menos assobiar. Ao todo, são dez faixas. A primeira é a

música-tema “Zooropa”. Imagine ouvir “Until The End Of lhe World” numa

estação de rádio que não está bem sintonizada e dá para imaginar. A música

estabelece o clima do disco todo. É épica mas contida: não tem um pingo de

paixão. Quando a guitarra fala alto, não é uma explosão: é estática

calculada. Se a bateria martela não é para ninguém dançar, e sim para

sugerir os passos sincronizados de nazistas marchando. A letra é um

amontoado de slogans publicitários.

Depois desse inferno sombrio, “Babyface” parece um alívio. Parece uma

baladinha eletrônica feita por David Bowie. Só que o romance é com uma

criança. “Devagarzinho… deixa eu desamarrar sua renda… abre a porta…

deixa eu desarrumar minha mala… você está vindo a mim (gozando sobre mim),

direto do espaço sideral.”

Uma banda famosa por ser católica cantar as delícias da pedofilia já seria

estranho o suficiente. Bem mais estranha é a faixa seguinte, “Numb´, ter

sido escolhida como primeiro single/clip. “Numb” não tem refrão, não tem

explosão, não tem atitude.

A voz de Bono está irreconhecível. A letra se limita a dizer “não”. É “não

faça/não se mexa! não pense/não ouça a banda/não viaje de trem/não sussurre

etc. etc. As palavras são repetidas baixinho, como um mantra que veio do

espaço; a base é circular; tudo que não é a voz ou a base é textura,

estática, intervenção.

“Lemon” tem mais cara de hit. Repetitiva como todo o resto do disco - aliás

a idéia de repetição e reciclagem é um dos temas fundamentais de

Zooropa -,funciona como canção de amor, como trilha para raves e homenagem

atravessada a Prince e aos new romantics. Sintetizadores e um majestoso

arranjo de cordas são cortesias de Brian Eno.

“Stay (Faraway, So Close!) tem aquela melancolia lenta de quem está na

estrada. Diz “tão longe, tão perto/para frente com a estática e o rádio, com

a TV via satélite/você pode ir a qualquer lugar/Miami, Nova Orleans,

Londres, Belfast e Berlim”.

É a coisa mais parecida com o U2 de antigamente no disco, talvez porque não

tenha a participação de Brian Eno.

Mas “Daddys Gonna Pay For Your Crashed Car” também não tem Eno e é uma das

músicas mais ousadas de Zooropa. É o U2 se reinventando como uma parceria

imaginária do My Life With The Thrill Kill Kult com Stereo MCs e 

Tackhead. Contém um sample de fanfarra, tirado do disco As Canções Favoritas

De Lenin, e outro de “The City Sleeps”, música do duo industrial texano

MC900 Ft Jesus. Tem cara de sucesso de pista. O tema, disse Bono numa

entrevista, é ´heroína e dependências de todos os tipos”.

“Some Days Are Better Than The Others” se parece bastante com “The Fly”, só

que numa versão estilhaçada. Recoloca a questão básica presente em Zooropa,

e do mundo que este disco quer representar.

Como uma coisa tão melódica, tão grandiosa, tão tipicamente U2/anos 80 pode

soar tão alienígena? A pergunta não tem resposta, só reforço: “The First

Time”, uma canção de amor daquelas de tocar ao violão, acabou virando um

tema ambiental que presta homenagem atravessada a Lou Reed (”Kill Your

Sons”) com timbres de cold wave e Brian Eno ao piano.

O fim se aproxima com “Dirty Day”, homenagem ao escritor Charles Bukowski.

A letra, como o homenageado, romantiza a vida na sarjeta apresentando-a da

maneira mais realista possível. Formalmente, esta é a última música do

disco - e ele fecha repetindo as características principais que atravessam o

trabalho todo.

Resta para o final o grande momento de Zooropa. “The Wanderer” foi composta

quando Bono soube que Johnny Cash estava em Dublin. Cash é um dos

sobreviventes da era dourada do rock´n´roll, os anos 50. Era um dos

integrantes do “quarteto de um milhão de dólares”, ao lado de Jerry Lee

Lewis, Carl Perkins e Elvis Presley. Como cabia às suas raízes caipiras, se

virou para o country - country de macho, nômade, falando de coisas como dor

de cotovelo, solidão, trabalho, falta de grana, falta de amor.

É o próprio Johnny Cash que canta “The Wanderer”. E tristonho sem ser

meloso, desiludido sem perder a vergonha na cara. Uma típica canção de

cowboy para o fim do milênio. Periga ser o momento mais emocionante de

Zooropa e Bono nem está presente. Melhor assim, sem maiores frescuras.

A união de Johnny Cash e Brian Eno fecha da melhor maneira possível o que

já é um dos melhores discos do ano.

(Bizz, 93)

Nevermind

“Esses caras vão nos enriquecer.”

Bruce Pavitt, dono da gravadora Sub Pop, sobre o Nirvana, na BIZZ 6O, junho de 90.

 

Ou seja: o fato do Nirvana ter vendido mais de 2,5 milhões de cópias só nos EUA e desbancado Michael Jackson do alto da Billboard não deve surpreender você, velho leitor de BIZZ. Como diz aquele slogan da nossa colega corporativa/concorrente eletrônica, você viu antes aqui.

Mas as vendas que se danem. A questão fundamental é, como sempre: vale a pena desembolsar aquela suada bufunfa para comprar Nevermind?

Se você gosta de Pixies ou Damned ou Stooges ou Kinks/Who ou Gang Of Four fase Entertainment! ou Mudhoney ou rock de garagem sessentista ou qualquer tipo de hard rock áspero, puto e sem polimento, vale. Principalmente, se você gosta de punk californiano politizado, vale a pena. Vale vale vale. Compre três, dê um para o seu amor e outro para o seu melhor amigo.

OK, segunda questão - e aí é papo de jornalista, de gente que está tentando entender o que se passa no universo adjacente e não se limita a curtir as coisas (não que só curtir seja limitante, mas compreender é o nosso emprego e a nossa obsessão - ou pelo menos deveria ser). Pergunta 2: que significa a velocidade warp com que o Nirvana saiu dos cafundós do estado de Washington para os corações, as mentes e os toca-discos do público americano, quiçá mundial?

Significa que punk’s not dead, oba! Quinze anos depois, os espertos da nova geração assumiram o punk como sua melhor representação musical. É, o Nirvana é punk, sim, punk paca - ainda que seu vocalista-letrista-guitarrista Kurt Cobain, 24, seja muito novo para ter curtido punk na época. 

E punk não só na avalanche animalesca de distorção e hormônios que jorra dos instrumentos. As letras também são violentíssimas, negras, radicais mesmo (sem escorregar para o niilismo burro que impera no underground americano). Falam de amor, sexo, preconceito, inteligência; do estado das coisas e do sentido da vida. Confira “Smells Like Teen Spirit”, sobre a apatia teen, que está traduzida nesta edição… mas a melhor mesmo é “Breed”. É, segundo Cobain, sobre “Ser de classe média, casar jovem, ter filhos, assistir TV toda noite - e detestar tudo isso”.

A década de 90 já tem seus Dead Kennedys - e desta vez, eles estão no topo das paradas. 

(Bizz, 92)

A banda larga e a puta velha

 

R$ 133,60. É quanto se paga para ter 4 mega de banda larga. Dá acesso 24 horas por dia a tudo que a internet oferece, incluindo todos os filmes, séries e músicas jamais produzidos, via BitTorrent a jato. O mesmo pacote oferece 52 canais de TV e 30 de audio.

Ótimo negócio… mas tem melhor. O ministério das comunicações anunciou dia 7 de maio um “pacote de internet popular”: R$ 7,50 por 600 minutos mensais.

O novo CD do Linkin Park está anunciado por R$ 39,90. Dá pra cinco meses de internet popular e sobra pra uma cerveja. A indústria fonográfica tem futuro?

Não, mas não está sozinha. Um livro qualquer de 300 páginas não sai por menos de R$ 35.00 (quase cinco meses de internet popular). A assinatura da Playboy custa R$ 120.00 (16 meses). E jornal então? Com o preço de um ano de Folha de S.Paulo, R$ 541.00, você tem SEIS ANOS de internet.

O que estou dizendo aqui com todas as letras é o seguinte: isso tudo aí em cima já se foi – livro, revista, jornal, CD, DVD. Ficou no século 20. As bancas e lojas estão cheias de ectoplasma.

Tudo que pode ser digitalizado está sendo / foi digitalizado. O preço da banda larga, do processamento e da armazenagem de bits está se aproximando do zero. O suporte físico não faz mais sentido econômico para o consumidor abaixo de 40 anos de idade. Quem lê papel e compra disco desde 1970 pode ter alguma dificuldade em se adaptar aos novos tempos – e é desse grupo que a indústria de comunicação do século 20 vai arrancar seus últimos tostões. Está aí a volta do Police e do Rage Against the Machine, pra quem duvida.

Isso não quer dizer que o consumidor não topa pagar nada. Topa sim. R$ 7,50 por internet popular ou, no meu caso, R$ 133.60 por internet de luxo.  O que ele não topa pagar é R$ 29.60 para baixar todas as músicas do Acústico MTV – Lobão no UOL Megastore.

Sobrou para Lobão porque ele é o músico mais articulado e independente da sua geração. Tem seu próprio selo, sua própria revista, suas próprias idéias.  Mas peguei uma entrevista dele no rádio dizendo algo tipo “as pessoas precisam aprender que têm que comprar as músicas na internet, não pegar de graça, se não o artista vai morrer de fome”.

Bem, eu quero que os artistas se fodam. Eu e a torcida do Corinthians que baixa música da internet – algum leitor da Bizz tem seu PC virgem, intocado por pirataria? Nós não temos nenhuma obrigação de sustentar ninguém..

Os músicos deste país sempre disseram que viviam de fazer shows, não de vender discos. Alguns mais militantes (Tim Maia, Lobão) reclamavam da ladroagem das gravadoras que não numeravam discos, não prestavam satisfações etc. Agora os discos não vendem mais por obsolescência tecnológica. Qual o prejuízo?

Veja, Lobão podia ter feito um show acústico por aí, gravado, e vender diretamente na net. Tem fãs para isso. Seu disco independente “Canções Dentro da Noite Escura” vendeu 15 mil cópias, segundo ele próprio.

Mas ele decidiu se render a um zumbi. A indústria fonográfica se arrasta penosamente, dá guinchos incompreensíveis e se alimenta de cadáveres - o cadáver da mídia de massa, da distribuição de massa, da idolatria.Ao comprar este CD acústico, você tem que remunerar o varejista, o transportador, a distribuidora, a gravadora, a MTV, o imposto do governo e o próprio Lobão. Tudo isso faz o CD físico custar R$ 24.00.

Lobão podia cortar todo esse povo do custo final, vender as músicas direto do seu site, cobrar uns R$ 5.00 dos seus fãs pelo álbum inteiro e ter uma margem de lucro maior. Mas como resolveu jogar o jogo da indústria, “Acústico MTV Lobão” está à venda em sua forma digital por R$ 26,90. Você tem pena de Lobão?

A explicação é que artista não é gente como a gente. Nossos ídolos só olham para o próprio umbigo. Têm certeza de que o mundo lhes deve homenagens e fortuna. Vivem cercados de parasitas que sobrevivem de lamber seu patrono e espalhar que qualquer arroto dele é “genial!”.

Entre essas rêmoras atachadas nos artistas está a própria indústria para quem eles trabalham. Por mais anti-tudo que seja uma banda de rock, ela tem patrão e contrato de trabalho. Algumas gravadoras, como a Warner, já até incluem nas cláusulas de seus novos contratados porcentagem sobre receita de shows, publicidade, aparição em festa de debutante etc.

E não interessa se o figura é gente fina, inteligente, veio do gueto etc. Artista é artista e quer ser bajulado. Tanto faz se o som é bom. Tenho certeza que em cinco anos os caras do TV On the Radio serão intragáveis (se já não são).

Admiro Lobão por sempre ter batido nesse lado baba-ovo do star system brasileiro. E entendo que ele cresceu no rock progressivo, píncaro do ridículo do  roqueiro com status de semideus. Mas reclamar da pirataria depois de lançar esse “Acústico MTV”, tenha dó.

No final, todo artista QUER se vender. Quer aparecer na “Caras”, se descolar no surubol do patrocínio estatal, da Lei Rouanet, fazer show para executivos em Comandatuba, sambar no trio elétrico do Gil, ganhar prêmio comprado de canal musical, estar “na mídia”  - ou a versão “indie” de tudo isso.

Eu vi isso acontecer com uma geração inteira. A molecada que entregava demo na BIZZ em 1990 foi 99% deglutida, digerida e cagada – e eles adoraram virar tudo que garantiam odiar. Estão mortos como seus patrões.

A indústria da comunicação do século 20 já foi muito sedutora e tirou muita grana nossa. Mas em 2007 as gatinhas são digitais e dão de graça. Dona Mídia rebola a bunda caída e lambe os beiços banguelas pra gente. Sai for a, puta velha.

(Bizz, 2006)

 

 


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