Junho de 93, e a capa da Bizz caiu a dias do fechamento. Nem lembro o que era. Salvação: meu chefe negocia com a gravadora do U2 uma audição do novo disco. Toca eu para o Rio no dia seguinte, bate-volta. Numa sala fechada na BMG ouvi sozinho Zooropa, duas vezes, anotando feito louco e copiando todas as informações do encarte, e voltei para São Paulo.
Saiu este texto abaixo, parido em duas tardes, capa da penúltima Bizz que editei. Foi inspirado por Neal Stephenson e pela leitura religiosa da Wired, minha bíblia na época. Usa o U2 para falar do que me interessava naquele momento e prefigura os próximos passos do autor - a saber, pedir demissão para começar minha própria revista, editora, negócio, vida adulta.
Eu não lia isso desde aquela época. Não lembro de onde tirei tanta informação. Não acaba de repente, não - é que a resenha do disco vinha num box, sob o título “Apocalipse Experimental”.
Enfim, está aqui com título e olho e tudo, que pega mais o clima.
Curioso: neste texto em que a internet é a principal personagem, nenhuma vez aparece a palavra internet. Nem web, claro. A web ainda não tinha sido criada.
God, I’m old.
ALÉM DA IMAGINAÇÃO
Bono travestido? O U2, grande bastião do “rock visceral”, produzindo hits
para discotecas? Uma banda católica, posando ao lado de modelos seminuas? O
U2 está passando por uma mutação surpreendente - mas agora Bono & Cia.
Radicalizaram definitivamente seu trabalho, com um disco ousadíssimo. André
Forastieri tenta entender o que se passa com esse mundo muito estranho e sua
maior banda de rock
- CONFIRMADO 9/05
- NOVO DISCO DO U2 ZOOROPA LANÇAMENTO MUNDIAL: 6/07
- PRIMEIRO SINGLE/CLIP “NUMB” /LANÇAMENTO MUNDIAL: 26/07
- NOVO DISCO DE REMIXES PARA PISTA EM OUTUBRO
- CONFIRMADA RENOVAÇAO COM A GRAVADORA ISLAND
- CONTRATO CALCULADO EM MAIS DE CEM MILHÕES DE DÓLARES
- O NEGOCIO MAIS CARO DA HISTÓRIA DA MUSICA INCLUI COMPRA DE DEZ POR CENTO DA ISLAND PELO U2
- BANDA FAZ SUA TURNÊ EUROPÉIA ATÉ 30/07
- A IMPRENSA ANUNCIA A SAÍDA DO BAIXISTA ADAM CLAYTON DO GRUPO
Estamos no amanhecer de um novo mundo - onde estaremos todos conectados via
fibra ótica, brigando e se amando e aprendendo e votando e transmutando a
maneira como nossos cérebros funcionam e principalmente, antes de mais nada,
comprando (o shopping-orgasmo, além dos nossos mais desvairados sonhos,
agora ao alcance de seu controle remoto).
Enquanto isso, milhões apodrecerão de fome e Aids e mediocridade e analfabetismo tecnológico. Velhos conflitos, novos problemas, soluções efêmeras - cada vez mais rápido e mais na sua cara.
Um grupo de rock formado por quatro irlandeses está firmemente convencido
de que cabe a eles compor a nova trilha sonora, catalisar os beats pelos
quais todo o planeta dançará. Mais que isso, eles querem articular esse
universo fragmentado de mudanças contínuas de maneira artística e militante.
Criar pontes de compreensão e comunicação.
Estar ali, na fronteira do futuro. Surfar na Terceira Onda.
O disco Achtung Baby e sua simultânea Zoo TV Tour já tentavam estabelecer
as novas regras do novíssimo jogo. Que não basta fazer música - é preciso
participar! - já era um dado fundamental no histórico do U2 (é bom lembrar
The Commitments: a Irlanda está para a Europa como os negros blueseiros para
a América W.A.S.P.). Mas agora Bono Vox, The Edge, Larry Mullen e Adam
Clayton redefiniram seu conceito de militância.
O que está mudando o mundo, diz muita gente e eles acreditaram, não é votar
nos partidos de esquerda (left is right) nem militar nos sindicatos
(aparelhos obsoletos) nem fuzilar nossos governantes (primeiro porque eles
serão substituídos por gente tão bunda quanto e segundo porque só estão
fazendo seu trabalho: administrar aos trancos e barrancos as ruínas da
sociedade industrial).
Não, o que está mudando o mundo é - um, dois, três -
a tecnologia. Todo mundo sabe: na virada do milênio, o que passa na
televisão passa por realidade. A popularização do controle remoto tem mais
peso político que os conchavos dos engravatados - e a explosão da
interatividade fará de cada consumidor parte de uma rede global de
conhecimento, informação, atuação e consumo.
O indício mais óbvio deste novo
mundo está nas nossas caras: a MTV (uma vitrine empastelante criada única e
exclusivamente para vender discos!) se tornou um instrumento político
fundamental. Por que você acha que Clinton se elegeu?
É outro jogo, com outras regras e o divertido é que o próximo estágio do
capitalismo tem suas regras na música e na cultura pop. O U2 sacou que este
mundo novo é tão filho dos investimentos em tecnologia, que o Pentágono
bancou nos anos 80, quanto do LSD. Tão ligado ao marketing de guerra quanto
ao espírito empreendedor da cultura punk.
Economistas hardcore, samurais corporativos, futurólogos governamentais -
todos concordam numa coisa: estamos passando de uma sociedade industrial
para uma sociedade informacional, em que o principal capital será o
conhecimento. O setor estratégico da economia mundial, dizem os experts,
passa agora a ser uma interface entre telecomunicações, informática e
entretenimento. Tanto que criar uma “auto-estrada informacional” virou
prioridade do governo americano.
Que esse futuro já está às nossas portas é consenso. Não tão divulgadas são
as conseqüências nefastas que essa mudança radical trará. A recessão não vai
acabar. Quem ficar fora deste processo evolutivo/tecnológico estará
destinado ao desemprego crônico. Os pobres continuarão ficando cada vez mais
pobres, os ricos cada vez mais ricos. As rivalidades nacionais/ tribais
continuarão esquentando - a coisa vai do neonazismo incendiando turcos na
Alemanha unificada ao separatismo brasileiro. O que, mais uma vez, mexe com
o âmago do conceito U2 - a bronca, a militância, a luta contra a injustiça
(é careta? Pode ser, mas também é fundamental).
Como dizia Norman Mailer nos anos 60, “vem uma tempestade de merda por aí”.
Você pode ver isso como os últimos espasmos da civilização, ou como as dores
de parto de um mundo novo e interessante. Descobrir de que lado deste muro
você está é a grande questão político/cultural da nossa era.
Com tudo isso rolando, é apropriado que o pop - um dos pais desse mundo de
ficção científica - tente articular essa visão moderna (e modernosa) dos
anos vindouros em termos pop. Muita gente se meteu na mesma praia antes -
mais obviamente grupos de tecno, gente que faz som para rave, industriais e
eletrônicos em geral. Agora, até Billy Idol está lançando um disco de base
tecno chamado Cyberpunk.
Mas foi Achtung Baby e a Zoo TV Tour que levantaram essa bola futurista em
termos de massa. Afinal, o U2 ainda é “a maior banda de rock do mundo” (se é
a melhor ou a que vende mais não vem ao caso, mas que é a maior, ninguém
discutirá).
Daí o swing oriental de “Misterious Ways”, remixado para as pistas (duas
fronteiras da nova era interligadas: a visão multiculturalista e os garotos
chapados de designer drugs dançando a noite toda). Daí as táticas
situacionistas, o apoio ao Greenpeace (a política do amanhã está nas
organizações informais, flexíveis, não-governamentais). Daí a
auto-referência, o senso de humor, o terno dourado.
Daí a banda vestida de mulher em revistas de moda (e na capa desta
revista), a embaralhação de signos tradicionais do superstar, e daí a
monstruosa blitz de mídia em 91/92 (e agora 93, da qual fazemos
orgulhosamente parte - é bom de vez em quando estar do lado que vai ganhar).
E daí Zooropa disco e a tour - o mais ambicioso disco do U2 a mais ambiciosa
tour da história.
Sem fronteiras
Em 91/92, era a Zoo TV Tour. Zooropa 93 é uma versão muito revista e muito
melhorada. São trinta datas, começando 9 de maio em Roterdã e acabando 31 de
julho em Estocolmo.
Os menores shows são para 30 mil; os maiores, para 70 mil. Se todos os
shows lotarem, U2 terá sido visto por quase dois milhões de pessoas durante
três meses,
Para pagar os custos de cada show, é necessário que pelo menos 85% dos
ingressos tenham sido vendidos. Ao mesmo tempo, o U2 não aceitou nenhum
patrocínio corporativo, com exceção de um acordo de cobertura especial com a
MTV Internacional.
Para compensar a ausência de patrocinadores, a tour oferece um dilúvio de
merchandising de todos os tipos - bonés, camisetas, fivelas para cinto,
adesivos e até uma nota falsa de ECU (o novo dinheiro da Europa unificada).
Entre os que estão abrindo para o U2 em shows diversos estão grupos tão
variados quanto Velvet Underground, Belly, Einstürzende Neubaten, Stereo MCs
e o DJ Paul Oakenfold.
Os telões da Zooropa 93 foram especialmente desenvolvidos para a banda pela
Philips, pioneira na área de TVs de alta definição. A empresa controla a
PolyGram e através dela a Island. U2 aceitou dez por cento da propriedade da
Island, sua gravadora, em troca de royalties atrasados. U2 e Philips são,
portanto, sócios.
A programação de vídeo de cada show varia. Ela vem de três fontes: um grupo
americano que trabalha com sampleagem e colagem de vídeo, o Emergency
Broadcast Network; o produtor/diretor/músico Kevin Godley, da dupla Godley &
Creme, ex-10 cc; e de filmagens feitas com e pela platéia durante cada show.
Bono controla parcialmente o que está nos telões, via controle remoto.
O show inclui todos os grandes hits do U2, Achtung Baby e Zooropa
praticamente inteiros, uma versão de “Satellite Of Love” de Lou Reed, mais
músicas compostas pelo grupo para outros artistas, inclusive “Prodigal Son”
(que foi gravada pela banda mas não entrou no novo disco, mas estará só no
do cantor de soul americano Al Green, que Bono considera a maior influência
sobre seu estilo de cantar) e “The Wanderer” (que está em Zooropa, na voz do
cantor country e um dos inventores do rock´n´roll, Johnny Cash. A música foi
composta especialmente para Cash). Os shows sempre abrem com “Zooropa”, e
geralmente terminam com “Are You Lonesome Tonight”, o velho clássico de
Elvis.
É na última parte do show que Bono aparece como “MacPhisto” (uma piada:
Mefisto, o demônio tentador, que faz qualquer negócio em troca de uma alma -
só que irlandês). Usa terno dourado brilhante, sapatos plataforma, maquiagem
pesada e chifres vermelhos. É neste alter ego cafona, uma
paródia/auto-referência, que Bono interpreta alguns dos maiores sucessos da
banda - inclusive a mais famosa balada do U2, “With Or Without You”. Sobre o
personagem, Bono disse: “não sei de onde ele vem, nem sei para onde ele está
me levando. É excitante e amedrontador ao mesmo tempo”.
É mais um dos muitos jogos de cena de Bono, que escandalizaram/ deliciaram
os fãs do U2 nos últimos tempos. Entre os mais chamativos estiveram posar
vestido de mulher (você já viu); rebolar, apalpar e encoxar bailarinas
durante os shows desta turnê; aparecer bêbado carregando uma garrafa de
conhaque em entrevistas coletivas e fazer editoriais de moda para a Vogue ao
lado da modelo Christy Turlington, seminua.
Apesar das baixarias no decorrer da turnê, o grupo encontrou alguns de seus heróis literários. William
Burroughs - padrasto do movimento beat e uma lenda americana - participou de
um show de TV com a banda. Salman Rushdie, até hoje sob ameaça de morte por
parte dos xiitas iranianos por causa do livro Os Versos Satânicos, se
encontrou com eles num fórum sobre censura em Dublin. Charles Bukowski,
afiliado distante dos beatniks e bêbado escroto de marca maior, assistiu ao
show em Los Angeles. Gunther Grass, autor de O Tambor e um dos intelectuais
mais respeitados da Alemanha esteve com o grupo em Berlim.
No futuro próximo o U2 pode mudar de cara. Correm boatos de que Adam
Clayton pode deixar a banda (ele é o único não-crístão da banda e
está noivo da modelo Naomi Campbell). O futuro imediato da banda? Bono fará
um dueto com Frank Sinatra para seu próximo disco, produzido por Quincy
Jones. Willie Nelson e Al Green gravarão faixas especialmente compostas para
eles por Bono. Em outubro sai outro lançamento, com cinco faixas deste disco
remixadas para pista - quais, ainda não foi anunciado.
E o mais
interessante: o U2 está produzindo em acordo com a gigante dos videogames
Sega um CD-Rom - não um jogo, mas um produto interativo que une música,
vídeo, texto. Mais um passo na direção certa.
Apocalipse experimental
E depois que Zooropa 93 acabar Bono já anunciou que esta turnê só acaba
definitivamente depois que a banda tiver tocado nos cinco continentes. Resta
portanto os países do Pacífico - que provavelmente receberão uma versão um
pouco diferente da excursão ainda este ano - e América Latina.
Tanto os fãs de “Sunday Bloody Sunday” quanto os de “The Fly” vão
estranhar. A nova parceria do U2 com Brian Eno - produtor que fez o estouro
da banda de The Unforgettable Fire para frente - vai mais longe do que
qualquer supergrupo já foi.
Zooropa, o disco, é a cara de Zooropa 93, a tour - uma superprodução que
embaralha completamente o que se espera do U2 com o que o grupo espera de si
mesmo. Antes de mais nada, porque é um disco conceitual. A ambição explícita
é retratar um mundo que vive na fronteira da revolução eletrônica - e como
isso afeta o cotidiano das pessoas comuns deste planeta. Como viver num
mundo em constante transformação afeta os sonhos, as aspirações políticas,
as angústias pessoais e as expectativas espirituais do cara aí na esquina. E
ambição demais para um mero disco. Muita gente boa já gastou milhares de
páginas tentando articular essa visão, inclusive o escritor William Gibson,
o mais importante criador da ficção científica cyberpunk e segundo Bono o
grande inspirador de Zooropa.
As gravações foram realizadas em intervalos desta turnê européia. Quando o
grupo tinha uns dias livres, voltava rápido para o estúdio, em Dublin. Esse
método de composição e gravação se refletiu no feeling final do disco. E um
trabalho muito europeu, dos temas das letras aos timbres usados. O resultado
final remete imediatamente à virada dos anos 70 para os 80: o David Bowie
berlinense de Low, Lodger, Heroes: o refinamento do Roxy Music; as
experimentações de base pop do Japan. E alguma coisa difícil de definir,
talvez a angústia, do Joy Division.
Claro que Zooropa não é um xerox amarelado dessa fase do rock. O disco soa
moderníssimo: Flood e Brian Eno cuidaram disso. Flood foi o engenheiro de
som. E um dos mais importantes produtores de música eletrônica do mundo. É
´colaborador local” do selo Mute, onde produziu (e/ou remixou) quase todo
mundo que é alguém no tecnopop britânico. Seu associado mais famoso e o Depeche Mode.
Brian Eno vai um pouco mais longe. Eno é um dos grande experimentadores da história da música. Começou
no Roxy Music, no início dos 70. Trabalhou muito com Robert Fripp, outro
grande experimentador, inclusive na ´trilogia Berlim” de David Bowie. E um
dos pioneiros da música ambient - que hoje se infiltra até no maior domínio
do ritmo, a dance music. Fez o influente disco de world music ambiental (na
época, o rótulo era etnopop) My Life In The Bush Of Ghosts, com David Byrne.
Recentemente voltou ao pop com John Cale, no disco Wrong Ways Up. Continua
sendo vanguarda - seja lá o que isso quer dizer.
No meio dessa história toda, Eno achou tempo para produzir o disco que
estourou o U2 mundialmente - The Unforgettable Fire - e ainda o seguinte.
The Joshua Tree, que sedimentou definitivamente o status da banda.
Zooropa não tem nada a ver com esses discos. Demorou, mas finalmente o U2
(visceral, obcecado por ritmos americanos, tocando rock de arena com refrões
poderosos) e Brian Eno (dandy, esteta, sutil, mago de estúdio) sincronizaram
seus interesses. O resultado deste encontro é modular, monotônico,
hipnótico. Refrões são desimportantes. Quase nenhuma música permite se
cantar junto, muito menos assobiar. Ao todo, são dez faixas. A primeira é a
música-tema “Zooropa”. Imagine ouvir “Until The End Of lhe World” numa
estação de rádio que não está bem sintonizada e dá para imaginar. A música
estabelece o clima do disco todo. É épica mas contida: não tem um pingo de
paixão. Quando a guitarra fala alto, não é uma explosão: é estática
calculada. Se a bateria martela não é para ninguém dançar, e sim para
sugerir os passos sincronizados de nazistas marchando. A letra é um
amontoado de slogans publicitários.
Depois desse inferno sombrio, “Babyface” parece um alívio. Parece uma
baladinha eletrônica feita por David Bowie. Só que o romance é com uma
criança. “Devagarzinho… deixa eu desamarrar sua renda… abre a porta…
deixa eu desarrumar minha mala… você está vindo a mim (gozando sobre mim),
direto do espaço sideral.”
Uma banda famosa por ser católica cantar as delícias da pedofilia já seria
estranho o suficiente. Bem mais estranha é a faixa seguinte, “Numb´, ter
sido escolhida como primeiro single/clip. “Numb” não tem refrão, não tem
explosão, não tem atitude.
A voz de Bono está irreconhecível. A letra se limita a dizer “não”. É “não
faça/não se mexa! não pense/não ouça a banda/não viaje de trem/não sussurre
etc. etc. As palavras são repetidas baixinho, como um mantra que veio do
espaço; a base é circular; tudo que não é a voz ou a base é textura,
estática, intervenção.
“Lemon” tem mais cara de hit. Repetitiva como todo o resto do disco - aliás
a idéia de repetição e reciclagem é um dos temas fundamentais de
Zooropa -,funciona como canção de amor, como trilha para raves e homenagem
atravessada a Prince e aos new romantics. Sintetizadores e um majestoso
arranjo de cordas são cortesias de Brian Eno.
“Stay (Faraway, So Close!) tem aquela melancolia lenta de quem está na
estrada. Diz “tão longe, tão perto/para frente com a estática e o rádio, com
a TV via satélite/você pode ir a qualquer lugar/Miami, Nova Orleans,
Londres, Belfast e Berlim”.
É a coisa mais parecida com o U2 de antigamente no disco, talvez porque não
tenha a participação de Brian Eno.
Mas “Daddys Gonna Pay For Your Crashed Car” também não tem Eno e é uma das
músicas mais ousadas de Zooropa. É o U2 se reinventando como uma parceria
imaginária do My Life With The Thrill Kill Kult com Stereo MCs e
Tackhead. Contém um sample de fanfarra, tirado do disco As Canções Favoritas
De Lenin, e outro de “The City Sleeps”, música do duo industrial texano
MC900 Ft Jesus. Tem cara de sucesso de pista. O tema, disse Bono numa
entrevista, é ´heroína e dependências de todos os tipos”.
“Some Days Are Better Than The Others” se parece bastante com “The Fly”, só
que numa versão estilhaçada. Recoloca a questão básica presente em Zooropa,
e do mundo que este disco quer representar.
Como uma coisa tão melódica, tão grandiosa, tão tipicamente U2/anos 80 pode
soar tão alienígena? A pergunta não tem resposta, só reforço: “The First
Time”, uma canção de amor daquelas de tocar ao violão, acabou virando um
tema ambiental que presta homenagem atravessada a Lou Reed (”Kill Your
Sons”) com timbres de cold wave e Brian Eno ao piano.
O fim se aproxima com “Dirty Day”, homenagem ao escritor Charles Bukowski.
A letra, como o homenageado, romantiza a vida na sarjeta apresentando-a da
maneira mais realista possível. Formalmente, esta é a última música do
disco - e ele fecha repetindo as características principais que atravessam o
trabalho todo.
Resta para o final o grande momento de Zooropa. “The Wanderer” foi composta
quando Bono soube que Johnny Cash estava em Dublin. Cash é um dos
sobreviventes da era dourada do rock´n´roll, os anos 50. Era um dos
integrantes do “quarteto de um milhão de dólares”, ao lado de Jerry Lee
Lewis, Carl Perkins e Elvis Presley. Como cabia às suas raízes caipiras, se
virou para o country - country de macho, nômade, falando de coisas como dor
de cotovelo, solidão, trabalho, falta de grana, falta de amor.
É o próprio Johnny Cash que canta “The Wanderer”. E tristonho sem ser
meloso, desiludido sem perder a vergonha na cara. Uma típica canção de
cowboy para o fim do milênio. Periga ser o momento mais emocionante de
Zooropa e Bono nem está presente. Melhor assim, sem maiores frescuras.
A união de Johnny Cash e Brian Eno fecha da melhor maneira possível o que
já é um dos melhores discos do ano.
(Bizz, 93)
Categoria
Bizz,
Cultura,
Música,
Tecnologia Publicado em: 27/11/2008 |
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