11 de setembro é um lindo dia com U2

Não está na moda gostar de U2. É uma banda muito grande, muito rica, muito velha e muito família. Bono anda por aí fazendo lobby com George Bush, chavecando o Papa, trocando figurinhas em Davos. Nada a ver com o verdadeiro espírito do rock’n'roll - juventude, rebeldia, tesão.

Mas eu gosto. Desde a primeira vez que vi o primeiro videoclip, 1981? Qual?

Eu gosto de muita coisa que não está na moda. Eu acho o U2 cool. Não tem, nunca teve nada parecido. É uma multinacional e uma religião em forma de banda. É fascinante acompanhar a trajetória de Bono. Ele passeia entre o hipnotizante e intragável. Como um verdadeiro astro do rock deve ser.

Agora, não é só por razões sociológicas (ou, diriam alguns amigos, arqueológicas) que gosto do U2. Eu gosto de ouvir U2. O U2 que raramente toca nas FMs de classic rock. Meu disco favorito é Zooropa, sobre o qual escrevi para uma capa da Bizz.

Mas estes dias reencontrei All That You Can’t Leave Behind, de 2000. É um lindo álbum. Começa com Beautiful Day - que eu poderia ouvir todo dia - e segue com You Got Stuck In A Moment, Walk On e Elevation. Quantas bandas não fazem quatro músicas tão boas em suas carreiras inteiras?

Quando os aviões caíram sobre a América, o país inteiro caiu em depressão. Além de qualquer consideração política, havia o sacrifício de milhares de inocentes e a perda de um grande símbolo do país.

E foi então que Walk On - siga em frente - consolou muitos americanos. E que Beautiful Day se converteu em um raiozinho de esperança.

O mais assombroso, fantasmagórico, é que este disco também continha uma canção chamada New York. Mas esta não entrou para a história. Não era uma carta de amor para a cidade que nunca dorme. Era sobre a vertigem e a voracidade que a capital do capitalismo incorpora e simboliza, para o bem e o mal.

É fácil ser cínico. Eu prefiro ser cético e otimista. Mas mesmo ceticismo tem hora, e quase nunca é na mesma hora que você ouve U2.

 

New York 

 

In New York freedom looks like too many choices

In New York I found a friend to drown out the other voices

Voices on the cell phone

Voices from home

Voices of the hard sell

Voices down the stairwell

In New York, just got a place in New York

 

In New York summers get hot, well into the hundreds

You can’t walk around the block without a change of clothing

Hot as a hairdryer in your face

Hot as a handbag and a can of mace

In New York, I just got a place in New York

New York, New York

 

In New York you can forget, forget how to sit still

Tell yourself you will stay in

But it’s down to Alphabet

 

New York, New York, New York

New York, New York, New York

 

The Irish have been coming here for years

Feel like they own the place

They got the airport, city hall, asphalt, dance floor, they even got the police

 

Irish, Italians, Jews and Hispanics

Religious nuts, political fanatics in the stew,

Living happily not like me and you

That’s where I lost you… New York

 

New York, New York, New York

New York, New York, New York

New York

 

In New York I lost it all to you and your vices

Still I’m staying on to figure out my mid life crisis

I hit an iceberg in my life

You know I’m still afloat

You lose your balance, lose your wife

In the queue for the lifeboat

 

You got to put the women and children first

But you’ve got an unquenchable thirst for New York

 

New York, New York

New York, New York

 

In the stillness of the evening

When the sun has had its day

I heard your voice a-whispering

Come away now

 

New, New York

New, New York

Tudo que você precisa é amor (o dinheiro vem depois)

Os Beatles foram a primeira banda que eu amei. Foi em 1975. De lá para 

cá já gastei muito dinheiro e tempo com eles. É a marca mais valiosa da 

história do rock. A explicação é que eles tiveram impacto social maior e 

mais permanente que qualquer outro. Música não foi o ponto. Agora é.

Neste nove de setembro, os Beatles voltam à vida. Pela primeira vez, os 

velhos fãs terão os doze álbuns originais em versão remasterizada, em CD 

e DVD, repletos de extras, documentários etc.

E pela primeira vez, a nova geração terá os Beatles disponíveis onde 

interessa, nos videogames. O jogo The Beatles: Rock Band vem com 45 

músicas para você tocar. As outras você comprará, futuramente, direto no 

site do game. Você toca os instrumentos, canta, faz harmonia, enquanto 

assiste versões animadas da banda em diferentes fases e cenários.

Vi ao vivo dia 2 de junho na E3, em Los Angeles, em cabine fechada para 

a imprensa. Um colega testou com “Here Comes the Sun”. Quase subi e 

mandei “Taxman”, mas fiquei meio constrangido. Para anunciar a parada, 

Paul, Ringo, Yoko e Olivia, viúva de George, subiram ao palco da E3. 

Giles Martin, filho de George, é o produtor do game. É coisa fina.

É surpreendente. Porque a marca Beatles nunca foi bem gerenciada. A 

Apple Corps, que gerencia os negócios dos Beatles, é uma burocracia sem 

fim. Nunca atende os fãs. É apavorada com o mundo digital. E não aprova 

nada que não tenha o OK dos quatro Beatles ou seus herdeiros.

A coisa só andou porque Dhani Harrison, fiho de George, é fã de games 

musicais, e vendeu o peixe para Paul, Ringo e Yoko. Não foi um business 

deal. Foi família.

Tudo virá embalada em uma megablitz de marketing, naturalmente. O timing 

é bizarro. Michael Jackson era dono de 50% dos direitos sobre as canções 

dos Beatles. Comprou porque era ótimo negócio. O negócio lhe valeu a 

amizade com Paul McCartney.

Jackson ia faturar bonito agora. Não deu tempo, porque morreu de 

overdose. Enquanto isso, da banda que mais promoveu as drogas para o 

mundo, dois estão contando dinheiro, John morreu baleado e George de 

câncer.

O grande professor de Michael foi Berry Gordy, fundador da Motown e 

compositor do primeiro hit da gravadora. “Money (That’s What I Want)” é 

mais conhecida na versão dos Beatles, de 1963. “Seu amor me dá arrepios 

/ mas não paga minhas contas… o dinheiro não traz tudo / para o que ele 

não traz, não tenho uso”.

Quatro anos depois, os fab four mudariam o papo para “All You Need is 

Love”. Que estará entre as primeiras canções disponíveis para download 

pago no game The Beatles: Rock Band. Com a receita doada para os Médicos 

Sem Fronteiras.

Amor ou dinheiro? A letra de “All You Need is Love” dá a pista: “nothing 

you can say but you can learn how to play the game – it’s easy”.

Porque o século 21 deixa mais claro que nunca: se você faz com amor, as 

pessoas percebem. Se faz só pela grana, idem. Eu já tinha aprendido isso 

com Julius Schwarz.

Julius co-criou o primeiro fanzine do mundo, Time Traveller, em 1932. 

Foi agente literário de lendas como H.P. Lovecraft e Ray Bradbury. De 

1944 a 1986, trabalhou na DC Comics. Foi responsável por sucessivas 

modernizações do conceito de super-herói nos anos 50, 60, 70, 80.

Vi uma vez de longe em San Diego, 96. Nem fui lá agradecer por tantas 

memórias boas. Que pateta que eu era.

Se os gibis de super-herói têm um pai, mais do que Siegel & Shuster ou Bob Kane ou Stan Lee ou Jack Kirby ou quem você quiser, ele é Julius. Que não escrevia nem desenhava. Era editor. Ele nunca terá sua importância reconhecida. Julie mesmo dizia: “ninguém sabe direito o que faz um editor”.

Sem ele não existiria muito do que você reconhece hoje como cultura pop. E eu seria uma pessoa muito diferente do que sou e não estaria escrevendo isso e você não estaria lendo.

Confio muito num lema que Julie revelou em sua autobiografia, Man of Two Worlds:

“Pegue uma coisa que você ama e conte para todo mundo sobre ela. 

Encontre outras pessoas que tem a mesma paixão, e juntos se dediquem a 

tornar essa coisa ainda melhor. No final, você vai ter muito mais do que 

você ama, para você e para poder compartilhar com o mundo.”

All You Need is Love. Pode até te render um dinheirinho, no final…

Revista BIS Especial Michael Jackson nas bancas leva você a Los Angeles

Pô, isso é blog ou propaganda das coisas que você faz, Forasta?

Os dois, claro.

Tem uma revista especial sobre Jackson nas bancas, com o selo BiS. Ela convida você a ir na faixa para LA. Taqui:

http://mtv.uol.com.br/bis/blog/bis-especial-michael-jackson-já-está-nas-bancas

Tem poucos e bons textos, 12 pôsteres de todas as fase de MJ, nenhum grampo. Fizemos em menos de um dia. É a coisa mais bacana sobre o cara que vi nas bancas até agora.

Porque fizemos? Para ganhar uma graninha. Para fazer uma experiência misturando on e offline. Porque o cara merece.

Não deu tempo de fazer no modelo colaborativo que está fazendo de BIS um caso a ser estudado - chegamos a terceiro no ranking de blogs da MTV, atrás só de Mion e Mari Moon, que são VJs. Gente boa se candidatou. O CEL, por exemplo. Mas quando morre um artista deste tamanho, velocidade é tudo.

Foi colaborativo de uma outra maneira. Uma verdadeira jam session na redação, com Bel Marcondes, Filipe Albuquerque, Beatriz Sant’Ana, Erika Caprotti, Orlando Ortiz e a torcida do Corinthians correndo, escrevendo, editando, comprando fotos incríveis que você não vai ver em nenhum outro lugar. A arte, capitaneada pela Renata Delabio, trabalhou até meia noite de sexta-feira e fez milagres. Na área comercial, toca bolar um produto diferente, com uma estrutura diferente, com papel diferente, a toque de caixa e tudo com preço bom, por favor.

Fizemos. Fechamos sexta à noite. Era para estar nas bancas quarta. Cometemos um erro em um lugar chave: o código de barras. Acontece nessas correrias. Atrasou para sexta. Está na banca. Continua valendo a pena. Fã tem que ter. Sério.

Agora, o truque. Eu adoro um bom truque.

Não deu tempo de fazer a revista colaborativa, mas dá tempo de fazer um hotsite colaborativo em homenagem a Michael Jackson, dentro do site BiS.

Estamos convidando você para mandar seus vídeos homenagendo MJ. Os melhores vão para o BiS. O melhor ganha grana suficiente para ir a Los Angeles e homenagear o mestre na cidade onde ele viveu e morreu.

Legal? Legal.

As regras estão aqui:

http://mtv.uol.com.br/bis/blog/o-bis-leva-você-até-los-angeles-para-uma-última-homenagem-ao-rei-participe

Boa viagem…

Michael Jackson, gay ou não

Hoje, surpresa: a maioria das pessoas com quem eu divido meu espaço de trabalho não eram nascidas quando Thriller estourou. 

Ninguém tem muita certeza sobre a sexualidade do moço. Sempre achei que Michael Jackson era gay. Os gays não reinvindicaram MIchael para a comunidade, que eu tenha percebido, ainda.

Não tenho problema nenhum com homossexuais. Cada um cai do bonde como quer, como dizia Seu Fiore.

Sou caipira e tenho 43 anos. Pelo currículo, me acho liberal. Acredito que sexualidade é oportunidade. Somos todos polimorfos. Gozar é sempre bom. Na cadeia, no exército, no convento - em qualquer lugar que só tenha gente de um sexo, o mesmo sexo é convidativo. E de fato tem gente que parece que já nasce inclinado ao mesmo sexo, ou ao oposto. Não sei dizer se é nature or nurture.  It’s all good. 

Talvez pela fama de comedor de criancinhas, o que queima a fita de qualquer sexualidade, Michael não virou bandeira GLBT. Se avançou na molecada de fato, eu, como pai de um menininho, acho feio. Como ele era pai de três crianças, desconfio - espero - que não. Era só maluco mesmo. E malucos ganham ponto comigo.

Mas o tsunami de homenagens apaga tudo. Ouvindo nas últimas horas tantos vídeos e canções marcantes, só lembro de Michael Jackson com carinho.

Michael Jackson: morre um idiota prodígio (ou: o anjo dos infernos)

Meu amigo Beto mandou o seguinte email:

“Forasta,

Entre os neurocientistas, tem um dignóstico chamado “savant” ou “idiota prodígio”. São aqueles caras que tem habilidades extraordinárias — mas só elas. O cara sabe todos os dias de semana do ano zero até o ano 2500, mas não consegue atravessar a rua. O outro sabe reproduzir uma sonata do Bach depois de ouvi-la pela primeira vez,mas não sabe encher um copo dágua. O outro sabe cantar e dançar desde os 5 anos, mas sua vida prática (financeira, amorosa, clínica) é um desastre. É o caso do defunto da vez e de outros tantos do mundo pop; João Gilberto, por exemplo.

Enquanto eu não ler um post no seu blog intitulado “Morre um idiota prodígio”, não vou te deixar em paz.

Não faço isso no meu blog por um motivo muito simples: não tenho um blog.

Abração,

Beto”

Então agora me deixa em paz, Beto…

Ontem tocou o telefone, Ivan Finotti pedindo artigo sobre Michael Jackson. Para daqui a quarenta minutos, para a Folha. Fui tomar uma água, sentei e escrevi isso que está aí embaixo. 

 

Michael Jackson, o querubim endiabrado

 

Michael Jackson aprendeu a cantar como um anjo e dançar como um cafetão

fazendo shows em puteiros aos oito anos de idade. Levava surra do pai,

Joseph, se não se apresentasse bem, se não ensaiasse o suficiente -

qualquer razão era boa. Os irmãos Jackson entravam todos no couro.

Michael, o sétimo filho e óbvia estrela do grupo, apanhava mais.

Na casa dos Jackson era deus no céu - Jeová, eram Testemunhas - e Joseph

na terra. O pai tinha tentado se dar bem como artista. Acabou

metalúrgico e empresário e feitor dos filhos.

Devemos a esta figura detestável o maior artista que a música jamais

teve. Contra números não há argumentos. São 750 milhões de discos

vendidos até agora.

O Jackson 5 estreou em 1967, mas foi em 1968 que passaram a fazer parte

do elenco da mais eficiente máquina de produção de hits em série da

música pop. A Motown Records foi fundada por Berry Gordy em 59. Seu

primeiro hit foi composta pelo próprio Gordy, “Money (That’s What I

Want)”. Declaração de princípios, ou falta de. A Motown fazia qualquer

coisa por um sucesso.

Os primeiros singles do Jackson 5 na Motown foram “I Want You Back”,

“ABC” “The Love You Save” e “I’ll Be There”. Já mereciam os livros de

história. Os programas de TV da época não mentem. Michael era

endiabrado. Requebrava como James Brown, cantava como Stevie Wonder e

era fofo como um querubim.

O primeiro disco solo chegou aos 17 anos, “Got to Be There”. De 76 a 84,

Jackson seria não só o frontman do Jackson 5 - depois rebatizado como

The Jacksons - mas seu principal compositor.

Em 1978, já com vinte anos, Jackson encontrou uma outra figura paterna.

O experiente jazzista Quincy Jones, diretor musical do filme “The Wiz” -

em que Michael encarnava o Espantalho do mundo de Oz - produziria com

Jackson “Off The Wall” e “Thriller”.

“Thriller” fez a ponte entre o soul dos 60, a disco dos 70 e o novo rock

dos 80. Era new wave. Era pop, o melhor do pop de três décadas. E

popular: vendeu 109 milhões de cópias, recorde para sempre imbatível.

Jackson tinha 37% do preço de cada disco vendido.

Os anos seguintes foram de esquisitice crescente - parte marketing,

parte verdadeira. Em 1987, Michael lançaria “Bad”, uma tentativa de

repetir “Thriller”. Vendeu, mas vendeu menos. Soava quase sempre

histérico, equivocado e pior, velho. Aos 29 anos, o superastro estava

ultrapassado. Era uma anedota bilionária.

O que veio depois é menos importante musicalmente. Em alguns casos,

constrangedor. A música piorou. Ficou impossível dissociar Michael, o

artista, de Michael, o homem cada vez mais distante de sua humanidade.

Com sua morte, tudo será perdoado, como foi a seu ídolo, James Brown.

Agora não é mais um slogan vazio: Michael Jackson será para sempre o Rei

do Pop.

Vamos fazer nossa rede social de música?

Recebo todo dia convites para entrar nesta ou aquela rede social. Agora é o Facebook. Os amigos vendem o peixe: é divertido, tá todo mundo lá etc.

Sei. O Facebook é 99% igual ao Orkut. A única diferença que importa é que as turbas ainda não invadiram o Facebook. Se e quando chegarem, minha turma já vai ter mudado para outra alternativa, mais moderninha  e espaçosa e 99% igual às redes sociais anteriores.

Talvez não invadam. Há evidências de que quando uma rede social chega a um certo patamar de dominância em um país, é muito difícil desbancar. Na Coréia é o CyWorld, no Japão o Mixi, nos EUA e maior parte da América Latina Facebook.

No Brasil, claro, é o Orkut, 79,1% de penetração entre os internautas segundo o último relatório ComScore que eu vi. Depois vem Sonico, Fotolog, Multiply, Hi5 etc. Até chegar no Facebook, na época com 1,4% de penetração.  Deve ter subido de lá para cá. Digamos que dobrou ou triplicou para, o quê, 5%?

Estou no Orkut, que nunca usei de fato, por razões profissionais. E no Linkedin, que uso bastante, idem. Não me aguardem no Facebook. Prefiro, em vez de entrar em outra rede, juntar uma turma e fazermos a nossa.

Acredito muito em dois tipos de redes: a redona que todo mundo tem (como todo mundo usa Google, MSN, YouTube, email etc.) e as redes sociais segmentadas, orgânicas, jeitosinhas. Gosto muito do modelo do Ning, flexível e grátis ou quase.

Quem se meter em usar rede social para marketing, para ganhar dinheiro, para capturar corações e mentes, tem que ter em mente que uma coisa é a redona, outra coisa são as redinhas. A Fox, quando comprou o MySpace, achou que estava comprando uma redona. Esta comprando a maior redinha. Só que ela custa meio bilhão de dólares por ano de custo fixo. Não dá.

Essa é uma das razões porque o MySpace Brasil foi fechado repentinamente essa semana, num movimento em que a empresa cortou 300 dos seus 450 funcionários da área internacional. É de morrer de dó. O MySpace Brasil era enxuto, estava no azul, e tinha 1,11 milhão de unique visitors, segundo esta análise educativa de Leena Rao no Tech Crunch.

Era o único país em que o MySpace crescia rapidamente.  E diferente do Orkut, que ainda não tem um modelo de negócio que traga dinheiro para o Google nem para potenciais cyber-empreendedores (como o Facebook já tem), o MySpace tem um modelinho muito claro de como faturar.

Na prática, a saída do MySpace Brasil de cena abre uma oportunidade muito grande para comunidades virtuais centradas na música. Quem vai ocupar este espaço? Provavelmente não uma, mas várias redinhas. Afinal, uma rede centrada em música clássica deveria ter linguagem, interface, layout e administração diferente de uma centrada em, digamos, metal satânico escandinavo. Certo?

Lá no Bis, nossa experiência com um site de música colaborativo, andamos dando alguns passos nesta direção. Agora talvez seja a hora de dar um salto. O Bis é sobre música nova de todos os tempos, como costumo dizer. Dá uma redinha legal, focada no moderno e no eterno. Tá cheio de software legal por aí para fazer rede social, basta escolher o que vai funcionar melhor para a gente.

Então? Vamos fazer?

Os lutadores

Herói não é quem bate, herói é quem aguenta apanhar. No ringue, no palco, na vida. Cabe só a você escolher o ponto final de tanta surra.

Esse é o ponto de O Lutador, o filme, que finalmente vi. É o trabalho mais previsível - e tocante - do imprevisível Darren Aronofsky. Ele é o autor de Pi, Réquiem para um Sonho e A Fonte, totalmente diferentes um dos outros e de O Lutador, todos recomendados.

O personagem principal de O Lutador, o decadente astro de luta-livre Randy Robinson, quase foi intepretado por Nicholas Cage. Inimaginável. Mickey Rourke é o próprio Randy Robinson - um perdedor na vida que busca a única vitória que ainda lhe é possível sob os holofotes e os olhos do público.

Randy me lembrou Raul. 

 

MR. ROCK’N'ROLL

 

Desde que o consumo de drogas e álcool de Raul Seixas subiu às alturas, no final dos anos 70, sua carreira – que sempre abominou as linhas retas – se tornou cada vez mais errática.

Chegou um ponto – especificamente, 1988 – em que ninguém mais confiava em Raul Seixas. Com 44 anos e 21 discos nas costas, nenhuma gravadora ou promotor de show apostava um tostão nas condições físicas e mentais do velho roqueiro.

A volta foi triunfal – por seu enorme sucesso e, antes disso, simplesmente por acontecer. Começou em setembro do ano passado, quando Raul foi convidado por seu herdeiro Marcelo Nova para cantar quatro músicas num show em Salvador. Raul – uma ruína física – ressuscitou numa performance endiabrada.

Centenas de milhares de pessoas viram os mais de 30 shows que se seguiram. Marcelo abria para Raul, que desfiava hits – “Rock das Aranhas”, “Aluga-se” – e hinos – “Ouro de Tolo”, “Metamorfose Ambulante”, “Sociedade Alternativa”, “Gita”. A voz era tremulante, mas ninguém se importava.

Sabe-se lá o que Raul tinha, para ser tão amado e respeitado. O fato é que sua figura há muito tempo tinha tomado proporções que ultrapassavam de longe suas muitas qualidades. Raul não era mais só o co-fundador da atitude rock brasileira, ao lado dos Mutantes. Também não era só quem melhor misturou o rock’n’roll com ritmos nacionais como o xote ou o baião, ou o único a colocar uma sensibilidade especificamente nordestina a serviço do rock. Seus fãs, os mais fiéis, não o adoravam só por seu messianismo ou sua visão contracultural. Mesmo quem não era fã, torcia pelo velho roqueiro.

O fato é que no final de sua vida Raul Seixas tinha se tornado um herói popular, um dos últimos disponíveis numa época em que acreditar em qualquer coisa ou pessoa está cada vez mais difícil. Por mais irregular que tenha sido sua carreira, por mais destrambelhada sua vida, ninguém nesse país mereceu mais o título que Raul Seixas carregou até ontem – “Mr. Rock’n’roll”.

(Ilustrada, Terça-feira, 22 de agosto de 1989)

Rock’n'roll confidential: o segredo da fidelidade masculina e como levar garotas adolescentes ao êxtase comunal

Se você não me ler depois deste título, desisto.

A neuropsiquiatra doutora Louann Brizendine, autora do best-seller Como As Mulheres Pensam, diz que a liberação da dopamina do cérebro de uma garota que grita ao ver seus ídolos é como uma “injeção de heroína“. Estar ao lado de outras garotas gritando, diz ela, só torna o efeito ainda mais selvagem.

“Há algo na biologia que chamamos de sincronia”, diz Brizendine. “Uma garota afeta a outra em um efeito dominó que se amplifica até o nível da histeria. Seus cérebros estão sendo inundados de dopamina e oxitocina, que é um hormônio ligado ao amor e à afinidade. A grande quantidade de estrogênio das adolescentes catapulta os níveis de dopamina e oxitocina no cérebro, criando um surto de êxtase nelas mesmas e nas outras.”

Os últimos dois parágrafos fazem parte da reportagem sobre o fenômeno Jonas Brothers, na nova edição da Rolling Stone.

Eles explicam muita coisa. Se tiverem um pingo de embasamento científico. Não faço idéia. Mas achei convincente mesmo assim. 

Faz anos que defendo que tem banda pra homem e banda pra mulher. Você, que tem banda, tem que escolher.

Caras que tocam em banda para homem ganham pouco dinheiro, fazem pouco sucesso, tem audiência majoritariamente masculina e pegam pouca mulher. 

Caras que tocam em banda para mulher ganham muita grana em pouco tempo, tocam pra audiência majoritariamente feminina, pegam mulher paca. 

Só que quem toca em banda para homem tem chance de ter uma carreira que dure mais de dois, três anos. Diferente dos New Kids on the Block, do N’Sync, dos Jonas Brothers.

As exceções - Duran Duran! - confirmam a regra.

E finalmente a doutora explicou. As minas saem da adolescência, diminui a produção de estrogênio, diminui a histeria e o êxtase coletivos. Por isso é que compro minha Rolling Stone todo mês. É educativa.

Já os machos, well, uma banda que você acha duca aos dezesseis anos é um amigo que você tem para sempre. Trinta anos depois tá lá você levando os filhos pra ver o Iron Maiden. Homem, quem diria, às vezes é mais fiel…

Viva como quiser, intensamente

Era verão, fazia calor e como em todas as férias a maioria dos garotos não tinha muita coisa para fazer. Quando se anunciou um grande festival reunindo alguns dos maiores astros do rock, pertinho de Nova York e ao custo de míseros 18 dólares, 400 mil jovens fizeram suas mochilas e partiram.

No próximo dia 15 de agosto, esses 400 mil respeitáveis senhores de meia-idade terão todos os motivos para reunir a família e, como os Beatles, cantar “it was twenty years ago today”. Nesse dia se comemoram vinte anos da realização de Woodstock, o festival que se tornou o maior símbolo da geração hippie – e eles estavam lá.

Woodstock foi um dos momentos mais marcantes da mais turbulenta década do século. Prenunciando a chegada da era zodiacal de Aquário – a era da harmonia, cuja transição começou em 1988 – esses 400 mil acamparam na fazenda de Max Yasgur, na cidadezinha de Bethel, no Estado de Nova York, para “três dias de música, paz e amor”, segundo o slogan do festival.

Conseguiram as três coisas: quem viu o documentário Woodstock, de Richard Waldleigh, só pode morrer de inveja de quem viu aqueles shows de gente como Jimi Hendrix, The Who, Joe Cocker e Santana.

Talvez a boa música tenha ajudado a manter a tranquilidade. O fato é que Woodstock foi um dos eventos mais pacíficos da era dos grandes festivais. Não houve violência nem problemas com a polícia nem mortes nem acidentes. De pouco usual, registrou-se quatro partos – todos naturais. Incrível, já que os festivais dos anos 60 estavam sempre à beira do desastre.

Os primitivos sistemas de som nunca conseguiram atingir toda a multidão – invariavelmente maior do que os promotores esperavam. Isso causava falta de água, falta de banheiros, falta de comida, engarrafamentos gigantescos. Além disso, havia o problema do tempo. Uma boa tempestade no primeiro dia era o suficiente para enlamear tudo durante todo o festival.

A tudo isso, some-se o uso pesado de drogas, que tornava as multidões imprevisíveis – às vezes com consequências trágicas, como no festival de Altamont, quando um rapaz foi assassinado em frente às câmeras que filmavam a apresentação dos Rolling Stones.

Mesmo assim, quem esteve num dos grandes festivais da década de 60, não esqueceu. O repórter e historiador da era hippie, Robert Santelli, comenta em seu livro Aquarius Rising que “não existe nada parecido com estar numa multidão de 400 mil pessoas que dividem os mesmos ideais. Woodstock não foi um evento musical – estava mais próximo de uma convenção política, ou uma celebração religiosa”.

O militante estudantil Abbie Hofmann, um dos líderes do movimento contra a guerra do Vietnã, escreveu em 1969 um livro chamado The Woodstock Nation, A Nação de Woodstock. Na mesma semana do festival, a conservadora revista Time publicou um artigo que chamava os hippies de “a maior minoria da história da humanidade”.

O que mais surpreendia essas duas faces opostas da América era a rapidez com que o descontentamento dos jovens com um dado fundamental da sociedade norte-americana, a ética protestante de trabalho e austeridade, se transformara na rejeição total desses valores.

As pistas, no entanto, sempre estiveram à vista. Em Huckleberry Finn (1884), de Mark Twain – que críticos como Ezra Pound elegeram como o momento de cristalização do romance norte-americano –, já estava claro que as limitações calvinistas impostas pela construção da sociedade mais rica do planeta teriam como contraponto permanente a ânsia pela libertação do trabalho e da repressão do prazer.

Mas Huck volta para casa após seu momento de aventura, como a Dorothy de O Mágico de Oz. O herói máximo do imaginário norte-americano só alcançaria sua plenitude no cinema, como o homem sem rumo e sem propriedades, que vive de suas habilidades e desaparece no horizonte após um espasmo de existência intensa – o cowboy.

Como às vezes acontece, alguns jovens concluíram que essa talvez fosse a maneira ideal de se viver – e portanto decidiram simplesmente viver assim, como se seus heróis não fossem de celulóide. A explosão começou quando alguns deles colocaram no livre mercado de idéias suas experiências, descrevendo como viver fazendo o que bem se entendesse e esquecendo os esmagadores preceitos da classe média branca e conservadora.

Enunciar essa idéia simples – “viva como quiser, intensamente” – rendeu em duas vertentes que, cruzadas, desaguariam no movimento hippie. De um lado, a literatura beat de Jack Kerouac, William Burroughs e Allen Ginsberg; de outro, a massificação da rebeldia via rock’n’roll.

Adicione ácido lisérgico e as novas tecnologias de comunicação e a receita está pronta. Não foi à toa que a contracultura começou em São Francisco, porto livre e pátria dos beatniks, nem que o pop do período tinha como base o blues. De Mark Twain, Walt Whitman e Henry Thoreau a James Dean e Easy Rider, a nação Woodstock sempre esteve lá – é a própria América.

(Folha de S.Paulo, 2 de janeiro de 1989)

Em vez de proibir o fumo, que tal liberar as drogas?

Sou a favor da descriminalização de todas as drogas. Acho que elas são divertidas e necessárias. Particularmente para espíritos criativos. Boa parte da arte que mais interessa não teria sido produzida sem o auxílio de aditivos químicos.

Minha droga favorita é álcool. Felizmente ela não é ilegal, ainda. Mas me agrada de vez em quando sorver grandes quantidades de álcool em bares, acompanhados de muitos cigarros e comidas gordurosas. E só fumo quando bebo.

Agora, uma nova lei quer me tirar este prazer. Os argumentos são pífios.

Faz todo sentido que alguns estabelecimentos permitam o fumo e outros não. Com uma placa na porta, “Aqui se Fuma”. Aliás podia ter também estabelecimentos com plaquinhas tipo “Aqui se fuma Maconha”, “Aqui se injeta heroína” etc. Quem quiser  entrar que entre.

Mas a lei exige que ninguém fume em nenhum lugar fechado, restaurante, bar, casa de show etc. Pretende-se proteger garçons do fumo passivo. Mas a nova lei não vai protegê-los do desemprego. É pra rua que vão os garçons, se realmente a marcação anti-fumo for cerrada. Duvido que seja. Deve acontecer a mesma coisa que com a lei seca: fogo de palha. Mais um factóide sem fiscalização.

Muitíssimo pior que o fumo é a fumaça. São Paulo acorda todo dia tossindo, espirrando, fungando, de olhos vermelhos e com dor de cabeça. Porque? Poluição hardcore, industrial - a Petrobras é a empresa que mais polui no estado de São Paulo, sabia? - e poluição automotiva. Mas a inspeção veicular é só para carros com  menos de cinco anos, os que menos fazem estrago. E para ajudar as montadoras, o governo do país baixou os impostos e estimula a compra de mais carros.

O que causa mais problemas respiratórios: a fumaça  que todos respiramos, ou a fumaça de segunda mão que alguns garçons iriam respirar?

Mas é difícil ir contra os interesses dos grandes. Muito mais fácil legislar sobre os direitos do indivíduo.

Agora, uma defesa apaixonada do uso de drogas psicodélicas.

O texto a seguir foi escrito a quatro mãos em abril de 1990, dezenove anos atrás. Foi um dos textos mais ambiciosos que eu escrevera até então. José Augusto Lemos tinha acabado de me contratar para a Bizz. Eu era um moleque. Ele não, ou não me parecia. Eu tinha 25, ele menos de trinta, mas com repertório, ambição e elegância que me deixavam no chinelo.

Tive que me esforçar para fazer bonito neste artigo sobre o espírito psicodélico e hoje, relendo, ainda me orgulho do resultado. Foi minha primeira Bizz como editor, capa do Pink Floyd original. Foi meu professor mais importante na arte de fazer revista.

Não tenho mais contato com José Augusto Lemos, obras da vida. Perda minha. Continuo devedor e admirador.

Agradeço publicando, sem pedir autorização, nosso único artigo conjunto.

 

Psicodelia Para Principiantes: Ligue-se… Sintonize… Caia Fora (do Sistema)

 

“Turn on, tune in, drop out”, o slogan máximo do psicodelismo criado por Timothy Leary, pode sugerir hoje ranço e hippismo.

Afinal, pós-perestroika, as drogas foram eleitas inimigo número um da civilização ocidental. E entre seus consumidores — um mercado global que movimenta cerca de cem bilhões de dólares ao ano, quase a dívida externa brasileira — as químicas mais procuradas não são mais as alucinógenas, mas as estimulantes: cocaína, crack, anfetaminas diversas. A maconha continua popular, mas seu consumo cai regularmente no mundo inteiro há anos.

Substâncias alteradoras do funcionamento da mente são cada vez mais mal vistas. Para a geração que cresceu sob a ofensiva antidrogas de Reagan, é inimaginável o fato de que há pouco menos de trinta anos a utilização de alucinógenos como expansores da consciência era defendida com unhas e dentes por uma fração razoável da elite científica do planeta.

A psicodelia — “manifestação do espírito”, em grego — tem raízes milenares. Praticamente todas as civilizações de que se tem notícia usaram um ou outro tipo de alucinógeno, quase sempre com fins religiosos. Mas a maneira como o movimento psicodélico floresceu no início dos anos 60, principalmente na costa oeste dos EUA, tem uma base distinta no New Deal, política de realinhamento econômico promovida nos anos 30 e 40 pelo presidente Franklin Roosevelt.

A América pós-New Deal foi pautada por quatro explosivos elementos: o maior desenvolvimento econômico da história, a maior distribuição de renda, a maior expansão da rede de comunicações, a maior explosão demográfica. O termo baby boom é perfeito: entre 1946 e 1964, 86 milhões de crianças foram colocadas numa sociedade superafluente, em meio à uma explosão informacional inédita. A televisão colocou o mundo ao alcance de todos e forneceu a essa geração uma fortíssima ilusão de livre arbítrio.

O material humano para a aventura psicodélica já estava, portanto, a ponto de bala. O material químico também: já em 1938, o bioquímico suíço Albett Hoffman havia sintetizado o vigésimo-quinto derivado do ácido lisérgico, mais conhecido como LSD.25. Em 1958, sintetizou a psilocibina, princípio ativo dos “cogumelos mágicos” mexicanos. E a maconha, claro, já era consumida nos circuitos jazzísticos.

A Califómia dos anos 50 foi um foco privilegiado para o nascimento da chamada “contracultura”, reunindo artistas expatriados como Aldous Huxley e a produção local dos hipsters e beatniks, amantes do jazz e da poesia libertária de Walt Whitman e Thoreau.

Na linha de frente, o grupo de escritores beat, comandado por Jack Kerouac, Alien Ginsberg e a farmácia ambulante, cobaia de si mesmo na experimentação de toda e qualquer droga, William S. Burroughs. Entre eles, o interesse pelo hinduísmo e pelo zen-budismo (disseminados pelos escritores Alan Watts e D.T. Suzuki) lançava as sementes para o movimento hippie da década seguinte.

A primeira bíblia do psicodelismo veio assinada por Aldous Huxley, descrevendo sua experiência com a mescalina, princípio ativo do peiote (cacto mexicano). Editado em 54, “As Portas Da Percepção” adquiria uma credibilidade com que os beatniks não podiam sonhar; seu autor era um romancista e ensaísta inglês consagrado. Em seu leito de morte, em 63, Huxley pediu uma dose de LSD.25, não recusada. (O ácido lisérgico, comercializado em cubinhos de açúcar e depois papel mata-borrão, só foi proibido em outubro de 66)

A coisa toda poderia ter continuado como uma brincadeira de elite, como o ópio entre os poetas românticos ingleses e o haxixe entre os românticos e simbolistas franceses (Théophile Gautier, Baudelaire e Nerval chegaram a fundar um Clube do Haxixe na Paris do século dezenove). As comunicações de massa não deixaram, ajudadas pelo doutor em psicologia clinica Timothy Leaiy, professor da prestigiosa universidade de Harvard que desde 60 pesquisava a psilocibina e o LSD, até ser expulso em 63.\

Perseguido pelo establishment e sem dinheiro para continuar suas pesquisas, Leary viu a saída apontada numa conversa com o mais influente teórico das comunicações dos 60, Marshall McLuhan. O conselho: “Se você realmente acredita no LSD, faça proselitismo, palestras, happenings, shows, coisas criativas. Não perca uma chance de divulgar suas idéias na mídia. Se você ficar sozinho, está ferrado”. Leary seguiu-o à risca — com enorme sucesso. O livro reunindo suas palestras e entrevistas — “The Polítics of Ecstasy” — tornou-se a segunda bíblia psicodélica.

Quando veio a década de 60, São Francisco já cultivava a boemia beatnik como uma tradição e, aos poucos, seu cenário musical começou a refletir isso. O culto ao jazz foi trocado por uma onda de folk de protesto, que por sua vez fez a transição para o rock psicodélico da primeira geração: Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, Moby Grape e o maior de todos, o Grateful Dead — com sua legião de seguidores, batizados de “deadheads”.

Comandado por Jerry Garcia, o grupo participou integralmente dos acid tests (festas de som e imagem, a primeira versão das atuais raves inglesas) organizados pelo escritor Ken Kesey e sua turma, os Merry Pranksters. Quem lê inglês, não deve perder “The Eletric Kool-Aid Acid Test”, de Tom Wolfe, que acompanhou todo o trajeto dos Merry Pranksters e, por tabela, escreveu a história definitiva do movimento hippie.

O florescimento do psicodelismo — que teve seu auge entre 65 e 66, e iniciou sua massificação mundial em 67, o chamado “Verão do Amor” logo fez uma ponte com a Europa, através de Londres. Carnaby Street, com suas butiques hippies, passou a ser o equivalente à esquina da rua Haight com a rua Ashbury, o centro do turbilhão em São Francisco. O intercâmbio era feito basicamente através de rock stars em turnê. Segundo a lenda, os Beatles fumaram maconha pela primeira vez com Bob Dylan; e Tom Wolfe descreve, no livro citado, o primeiro contato do quarteto de Liverpool com o underground californiano.

Em pouco tempo, Londres tinha no Pink Floyd o seu Grateful Dead. Com um light show lisérgico e encabeçado pelo freak Syd Barrett, o grupo era a principal atração do underground e não perdeu o séquito de fãs quando, contratado pela Columbia, passou a freqüentar as paradas de sucesso.

A descoberta de que o flower power já contava com uma multidão de adeptos se deu com a organização de um festival de grupos psicodélicos organizado pelos Merry Pranksters e o Grateful Dead: grátis, ao ar livre, o First Human Be-ln reuniu milhares no Golden Gate Park, em janeiro de 67 em São Francisco. A indústria fonográfica — sediada ao lado, em Los Angeles — percebeu o potencial e, em junho do mesmo ano, promoveu o Monterey Pop Festival.

A movimentação era divulgada via satélite para o mundo todo, mas a contracultura criava seus próprios sistemas de divulgação: rádios pirata, fanzines, gibis underground, jornais como o Detroit Free Press, revistas como Rolling Stone, International Times e — na Inglaterra, IT e Oz.

A reação veia a cavalo, com a maioria conservadora dos EUA elegendo Nixon em 68 e as grandes empresas aproveitando a onda — como a Wamer Bros. ao transformar o festival de Woodstock num megaevento de marketing. Morreram Hendrix, Janis Joplin, Brian Jones, Jim Morrison, e John Lennon arriscou um epitáfio: “O sonho acabou”.

Acabou nada. A contracultura e a psicodelia — mesmo banalizadas em musicais como “Hair” — foram um salto evolutivo no comportamento da raça humana, com um saldo político inegável.

Na música pop nem se fala. Muito antes que o De La Soul sampleasse os ultrapsicodélicos Turtles, e o cenário acid house detonasse o verão londrino de 86 (com a adoção de um novo químico, o ecstasy), sua influência já podia ser sentida, de toda uma safra pós-punk inglesa ao funk de Prince. Boa parte da cultura pop vive hoje da criação de novas embalagens para os mitos dos 60 — para enorme alegria dos executivos das gravadoras e do establishment em geral, que preferem lidar com nostalgia inofensiva do que com novas formas de subversão.

Quem quiser saber mais sobre a movimentação dos 60 tem pelo menos dois bons livros à disposição no mercado brasileiro. “Flashbacks” é a autobiografia de Leary que traça o mapa do sonho psicodélico. “Las Vegas Na Cabeça”, do jornalista gonzo e integrante da equipe original da Rolling Stone, Hunter S. Thompson, mostra com humor negríssimo o outro lado da moeda, a derrocada dos mais altos ideais da contracultura.

André Forastieri e José Augusto Lemos


Warning: mysql_connect() [function.mysql-connect]: Access denied for user 'andrefor_db'@'localhost' (using password: YES) in /home/tambord/public_html/andreforastieri.com.br/wp-content/themes/anvys-10/config.inc.php on line 37

Warning: mysql_select_db(): supplied argument is not a valid MySQL-Link resource in /home/tambord/public_html/andreforastieri.com.br/wp-content/themes/anvys-10/config.inc.php on line 38