Está entrando em gráfica o número um da MOVIE.
Assim que eu pegar ela impressa nas mãos, só vou ver os defeitos. E pensar que a próxima é que vai ficar perfeita. Revista é assim mesmo.
Mas nesse momento, estamos aqui de pais orgulhosos. A capa está aqui.
Como a pauta de capa é sobre Brad Pitt, Quentin Tarantino e Bastardos Inglórios, lembrei de um texto que fiz sobre Tarantino na época de Pulp Fiction, para a revista General. Eu não tinha mais a revista (e olha que fui um dos fundadores!), mas o André Lima, amigaço, fez o favor de digitar. Muito obrigado.
Até que ainda dá pra ler. Se bem que hoje eu sei que Tarantino, na verdade, era bem mais informado sobre cinema europeu, antigo etc. do que eu imaginava quando escrevi isso. Mas como Bastardos Inglórios é o maior sucesso de Tarantino desde Pulp Fiction, achei que valia a revisitada.
Mais novidades virão sobre a revista a cada dia no site.
TARANTISMO
Ele é nerd. Ele causa repulsa em estômagos sensíveis. Ele é cool
Sejamos fragmentários e circulares, como recomendaria nossa capa deste mês.
Quentin Tarantino é o primeiro diretor de cinema que é um astro de rock n’ roll, e também o primeiro cineasta de sucesso formado nas videolocadoras.
Convém que ele seja nerd – esta é a década deles, afinal – e surpreende que um nerd seja eleito a epítome do cool. Bill Gates, o outro nerd mais influente do mundo, pode ser admirado e/ou odiado, mas ninguém com um pingo de sangue nas veias alimentaria fantasias do tipo “quando crescer, quero ser como o Bill Gates”.
Tarantino não. Tarantino é nerd, é feio, é desengonçado – e apesar de tudo ganha grana, ganha “as minas”, faz o que quer, e o que quer fazer é considerado cool pelos moderninhos e faz um sucesso do cacete entre a “plebe” ( Pulp Fiction não só ganhou a Palma de Ouro; também rendeu US$ 92 milhões, apenas no mercado americano – um dos filmes mais lucrativos de 95 ).
Mais. Quentin Tarantino, que se veste como o zé maria que é, influencia o mundinho fashion. Suas trilhas sonoras têm coisas fora-de-moda como surf music e Neil Diamond, mas estão nas casas de todos os descolados. O diretor que aprendeu seu ofício assistindo Karen Black em filmes B tem os maiores astros do mundo à sua disposição. O aluno vagabundo que odiava estudar é considerado um gênio. O especialista em cultura inútil lança tendências comportamentais e slogans grudentos.
E faz tudo isso de maneira cool, desencanada, despretensiosa.
Nada a ver, preste atenção, com “Geração X”, o rótulo marketeiro safado para uma suposta juventude americana largada e sem ambição nem missão – até porque o homem trabalha pacas.
Faça as contas. Quentin Tarantino tem quatro roteiros já filmados: Cães de Aluguel, Pulp Fiction ( esses dois dirigidos por ele ), Amor à Queima-Roupa e Assassinos Por Natureza. Deu um tratinho em dois roteiros totalmente mainstream, Maré Vermelha e a comédia It’s Pat. Tem um outro roteiro original sendo filmado por um discípulo, Robert Rodriguez.
Para o próximo ano, tem dois projetos engatilhados, ambos revisões de dois super-espiões sessentistas: Modesty Blaise ( o livro que Travolta está lendo quando é fuzilado no banheiro; a idéia é por Uma Thurman no papel que foi de Monica Vitti ) e Napoleon Solo, O Homem da U.N.C.L.E.
Nas horas vagas, faz qualquer merda que aparece. Produz ou atua nos filmes dos amigos. Para completar ganhou seu selo próprio da produtora Miramax, só para lançar filmes obscuros. Não “de arte”, claro. O negócio do selo Rolling Thunder é lançar nos EUA filmes comerciais de outros países.
Detalhe: Cães de Aluguel estreou em 1992. Tarantino fez isso tudo em três anos.
Perguntei para todo mundo aqui na redação, um bando de fanáticos por cinema, o que cada um acha de Tarantino. Todo mundo acha o cara legal e ninguém sabe explicar exatamente porquê. “Como porquê? O cara é legal e pronto. Não vale a pena gastar neurônio com os porquês”.
Aliás, nunca vi uma boa explicação, em lugar nenhum, que explique a glória unânime de Tarantino. Público, crítica, executivos hollywoodianos, cineastas independentes, homens, mulheres, intelectuais, molecada rocker – o planeta inteiro adora o cara.
Talvez seja porque Quentin Tarantino não conhece “O Cinema”, a “sétima arte”, conforme ensinada por professores intelectuais na faculdade. Talvez por isso ele não faça “Cinema”, e sim filmes, filminhos, uns filmes legais aí, meu, com uns cara fodões e um monte de tiro e porrada.
E por isso que não dá pra explicar porque os filmes do Tarantino são legais. É auto-explicatório, direto e reto, profundo como o melhor pop de três minutos. Também por isso é que todas as tentativas de explicar os filmes e a influência cultura de Quentin Tarantino pelo ângulo “sétima arte” dão com os burros n’água.
A tão analisada “estética circular” de Pulp Fiction, o intrincado relacionamento entre os personagens de seus vários filmes, só são novidade para acadêmicos. Para gente criada com gibi, seriado, folhetim, livros de detetive e ficção científica ( essas e outras “artes populares”, todas “coisas de nerd” ) é absolutamente normal. Cadê a novidade? Qual o segredo de Tostines?
Talvez o “segredo” de Tarantino seja justamente seu tipo muito particular de despretensão. A despretensão de quem está se divertindo pacas com o que faz. Que, em ultimíssima análise, se resume a encher as locadoras de filminhos legais.
Muito rock n’ roll. E muito cool.
ANDRÉ FORASTIERI
(General, 1995)
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Todas Publicado em: 16/09/2009 |
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